Pode um padre romper o voto do celibato? Das emoções à lei canónica

O padre Giselo Andrade é um caso pouco comum na Diocese e está a suscitar dúvidas.

As mudanças no Clero estão a motivar alguma perplexidade pelo facto de o Bispo da Diocese do Funchal não só tardar na sua publicação – só o fez hoje no início da noite – como também pelo facto de omitir a referência ao pároco do Monte, após este ter assumido a paternidade de uma filha, rompendo com os votos do celibato. Ao não referir nas mudanças o padre Giselo Andrade, assume que mantém o sacerdote no Monte, mesmo contra algumas vozes internas e externas da própria igreja.

Acontece que uma coisa é a discussão emotiva ou empírica do caso do pároco e outra coisa bem distinta é o que diz a lei canónica.

As críticas

À luz da opinião pública, deveria ser o próprio padre Giselo Andrade a sair pelo seu próprio pé dado o desconforto que a situação implica e o precedente que cria na própria Diocese. Como outros já o fizeram. Mas assim não foi entendido nem pelo pároco nem pela Diocese.

Ninguém discute as motivações éticas e pessoais do sacerdote, que só ao próprio diz respeito. Além disso, já Cristo bem disse que, quem nunca pecou que atirasse a primeira pedra…

O que diz a lei canónica

Neste momento, impõe-se a interpretação da norma canónica numa ótica mais ampla ou mais restritiva. Neste último caso, ao conceber uma filha, como o fez, implica automaticamente a quebra do voto do celibato.

Mas o Código Canónico também permite enquadrar a questão noutros patamares. Desde logo, é omisso em relação à paternidade dos filhos. Ainda assim, não é omisso em relação ao dom do celibato. A paternidade de um padre é um pecado que viola a lei do celibato e da continência perfeita e da prudência que os padres devem ter na convivência com as pessoas de forma a não haver perigo para as suas obrigações ou redundar em escândalo para os fiéis.

Diz ainda o Código que caberá ao Bispo dar normas e emitir juízo sobre a observância das obrigações nos casos particulares (ver c. 277). No caso de uma relação de pecado, contínua, pública e escandalosa com outra pessoa, o sacerdote deverá ser admoestado para alterar os seus comportamentos. E se, depois de admoestado, persistir no pecado e delito, deverá ser suspenso e na mais grave situação deverá conhecer a pena da demissão do estado clerical.

Arrependimento

Mas aqui parece residir o caso do pároco do Monte: Se o padre se arrepender e mudar de comportamento, pondo fim à relação com uma mulher, poderá continuar a viver a sua vida sacerdotal. É como num casamento. O adultério de uma das partes é um pecado. Mas se houver arrependimento e perdão o casal poderá continuar a sua vida matrimonial. (C. 277 e c. 1395)

Uma questão  de opção

Assim sendo, caberá  ao sacerdote discernir, com o Bispo, se deve continuar a abraçar a sua vida sacerdotal, mudando de comportamento ou se deve abraçar outra vocação.

Ao conceber um filho, comete pecado à luz do Código. Mas só há delito se  viver conjugalmente com a mãe.  Há diferença entre um erro pontual e um caso continuado e publicamente escandaloso.

Sendo padre, deve ser responsável pelo filho que concebeu, sendo correta a assunção da paternidade.