Crónica Urbana: Café rega as plantas da esplanada com água do chafariz… paga por todos nós

Rui Marote
Há acontecimentos curiosos nesta cidade. Quando se passeia pela mesma à noite, às vezes deparamos com situações que até dão vontade de rir. Apetece recordar o slogan humorístico: “E os ladrões? Eram mais de três bandidos…!!! “
Esta última situação com que deparámos, fez-nos lembrar, mais do que o mandamento do “não roubarás”, o pecado capital da avareza. É que, por vezes, quanto mais se tem, mais unha-de-fome se é. E então, toca a aproveitar os bens públicos, aqueles que são pagos por todos nós, só para poupar uns tostões.

Ora, vamos à história: passava já da meia-noite, com o centro da cidade praticamente deserto. Eis senão quando deparamos com um famoso café da nossa cidade, que começa a encerrar, ultimando as limpezas necessárias.
E eis que surgem, no Largo da Restauração, junto ao chafariz, duas funcionárias munidas de recipientes de plástico colorido, mergulhando-os na lagoa e percorrendo a praça, para atravessar a rua e regar os canteiros que ornamentam a enorme esplanada do dito café. Encoberto pela noite, este vai-vem repete-se e repete-se, numa altura que a cidade está deserta. Ora, tantas vezes o cântaro vai  à fonte até que parte, diz o ditado. Só que neste caso isso não acontece, uma vez que as bilhas são de plástico.

Ora, estamos em crer que as empregadas não se sujeitariam de livre vontade a este vai-vem à moda da escravatura de antigamente, se não tivessem ordem para tal. Prefeririam, certamente, encher os recipientes com uma mangueira do próprio estabelecimento. E merecem a nossa solidariedade neste caso. Pensamos que quem as manda fazer é quem quer poupar mais umas moedas. O dito Café, perguntamos, está autorizado pelos serviços camarários a utilizar a  água da rede pública? Esperamos que a Câmara Municipal do Funchal, que cobra, e bem, a todos os munícipes a água que consomem, coloque um ponto final neste episódio.

Lembramos que um grande clube desta cidade, há cerca de três anos foi apanhado em flagrante, regando o seu estádio  com a água de uma boca de incêndio. Tudo isto pela calada da noite e que foi notícia na imprensa da Região, decorrendo um processo que com certeza ficará na gaveta para os anais da história…

Ora, terminamos com uma citação bíblica, como é do nosso gosto: “O que furtava não furte mais; antes trabalhe, fazendo algo de útil com as mãos, para que tenha o que repartir com quem estiver em necessidade”. Efésios 4:28

E não esqueçamos o grande poeta Luís de Camões, que também este rocambolesco episódio nos lembra:

“Descalça vai para a fonte Leonor pela verdura;

Vai formosa e não segura”

Ou então, já que o povo pode ter dificuldades na interpretação do poeta, porque não este tema interpretado pela cantora Kátia Ribeiro:

“A mariquinhas vai à fonte e não demora

Que a Lua conta seus segredos ao luar
Leva na anca sua bilha cor de amora
E duas tranças de cabelo a saltitar”.