O laboratório de Loures

A 13 de Agosto último, na designada Festa do Pontal (a rentrée algarvia do PSD), o ex-primeiro-ministro Pedro Passos Coelho insurgiu-se contra a nova lei da imigração, denunciando a possibilidade de “qualquer um” poder entrar em Portugal e associou a imigração à criminalidade.

Feliciano Barreiras Duarte que foi secretário de Estado de governos presididos por Durão Barroso, Santana Lopes e Passos Coelho, precisamente com a tutela dessa área e que inclusive se encontra a fazer um doutoramento sobre essa matéria, referenciado, por isso mesmo, como a maior autoridade do PSD sobre políticas de imigração, reagiu em entrevista ao “Expresso”, publicada escassos dias depois, a 19/8, considerando que “o PSD, pelo que se percebe, também tem racistas e xenófobos” e concluindo que “que se o PSD para ganhar eleições tiver de fazer eleitoralismo com a imigração e minorias étnicas, é um sinal preocupante e de fraqueza”, na medida em que “parece que afinal vale tudo para ter votos e tentar ganhar eleições”.

Na citada entrevista, cuja leitura se recomenda, Barreiras Duarte adianta ainda que “para muitos a grande dúvida é se este tipo de proclamações é apenas típico da época pré-eleitoral autárquica ou se é o início de um caminho diferente do PSD relativamente a estas matérias”.

Naturalmente que a aludida preocupação decorre, não só da declaração do líder do PSD, mas sobretudo da circunstância deste partido apresentar como candidato à presidência da Câmara Municipal de Loures, um professor universitário de nome André Ventura (AV) que numa entrevista inserta no jornal “I” em 17 de Julho p.p. acusou os ciganos de viverem “quase exclusivamente de subsídios do Estado” e advogou a adoção da “prisão perpétua dos delinquentes”, nomeadamente os responsáveis por crimes de natureza mais violenta. Posteriormente, AV que, curiosamente ou talvez não, é membro do Conselho Nacional do PSD, defendeu mesmo a reintrodução da pena de morte em Portugal e fez questão de recordar que em 2015 assinou uma crónica no “Correio da Manhã” em que defendeu “a castração química de abusadores” (pedófilos designadamente), que “rejeitem qualquer tipo de tratamento ou terapia durante o cumprimento da pena”, assim como os que “sejam avaliados como perigosos no momento do regresso à liberdade”.

A propósito, refira-se que, na sequência da referida entrevista de AV, o CDS, que inicialmente integrava uma coligação com o PSD em Loures, afastou-se e decidiu avançar com uma candidatura própria, tendo a respectiva líder, Assunção Cristas sido taxativa: “isso é racismo, isso é xenofobia”. O PSD, pelo contrário, reiterou o seu apoio a AV e o próprio Passos Coelho chegou a afirmar que “não podemos ter medo dos demagogos e populistas que permitem que situações injustas perdurem”.

Vale a pena , entretanto, voltar à nova lei da imigração, cujo conteúdo o próprio Presidente da República referiu que subscrevia, se não não promulgaria, para recordar que, ao contrário do que afirmou Passos Coelho, de que o Estado “deixa de poder expulsar alguém que cometeu crimes graves”, essa impossibilidade apenas acontece em casos excepcionais. Por exemplo, quando o imigrante veio para Portugal antes de ter 10 anos de idade.

Isso não impede, porém, o PSD de insistir em distorcer a realidade, ao ponto de Marques Guedes, um seu ex-ministro e ex-líder parlamentar, clamar que “redes de imigração ilegal” descobriram uma espécie de “filão Portugal”.

Apetece por isso contrapor com as posições veiculadas por Barreiras Duarte, na já citada entrevista ao “Expresso”. Citam-se: “Portugal mantém-se em vários rankings internacionais como um dos países mais seguros, atractivo, competitivo a esses níveis”; “Portugal tem um quadro jurídico relativo a estas matérias, muito equilibrado, em conformidade com o Direito da Imigração europeu”; “associar imigração com terrorismo é errado, demagógico, é redutor e é perigosíssimo (…) Os Estados têm de ver as migrações como uma oportunidade, não um problema”; “até mete dó a contradição e a incoerência de algumas pessoas que brincam com o fogo, ao abordarem de forma populista e generalista estas matérias, descurando potenciais efeitos de ricochete sobre os portugueses” (fim de citação) – são cerca de cinco milhões de portugueses a viver em quase 140 países.

Já se percebeu que o PSD está sem discurso. Prognosticou vida curta para a “gerigonça”. Garantiu que vinha aí o diabo e ele não veio. Pior ainda, o défice baixou, a economia cresce, o desemprego diminuiu e foram repostos salários e prestações sociais. Até as agências de rating voltam a olhar para Portugal com outros olhos. E é assim, que em desespero de causa, resolve empunhar a bandeira do populismo. E é aí que surge AV.

Sucede que noutros países europeus este tipo de fenómeno cresce em partidos marginais ao sistema ou em organizações paramilitares ou religiosas. Daí a indignação de Barreiras Duarte: “mas o PSD nunca foi, não é, nem deverá ser um partido político com discursos (e espero práticas) com tiques ‘trumpistas’ e ‘lepenistas’”, pelo que “a acontecer, o PSD estará a hipotecar muito do seu futuro de partido político moderado, tolerante e humanista. E a acantonar-se na direita política retrógada, caceteira, populista e oportunista”.

Nada que, pelos vistos, incomode a liderança do PSD e o seu candidato AV. Um personagem que aos 17 anos decidiu que queria ser padre e foi para o seminário: “queria mudar a Igreja por dentro”. E que se tornou conhecido pela sua participação no programa futebolístico “Pé em riste”, na CMTV, onde, entretanto, se tornou também comentador em assuntos de segurança e justiça, com presença quase diária. Afecto a um dos clubes da 2ª circular lisboeta, o SLB, AV é ainda co-autor de um livro com a taróloga Maya, intitulado “50 razões para mudar para o Sport Lisboa e Benfica”.

Na apresentação da sua candidatura AV avançou com 3 promessas: criação de “10 mil empregos em 4 anos”; “instalação de videovigilância em todo o concelho” e tornar Loures  “livre desta esquerda que tomou de assalto o concelho”. Disse ainda acreditar que vai vencer porque vai “contra o politicamente correcto” e ameaçou transformar a polícia municipal num “exército”, se o governo não lhe conceder os meios que considera necessários para combater a criminalidade que, curiosamente, baixou no concelho de Loures.

Acrescente-se já agora que AV é primo afastado de um outro comentador SLB, do mesmo estilo “Correio da Manhã”, de nome Pedro Guerra que já disse que o vê “como um futuro ministro da Administração Interna” (safa!), que o líder do PNR garantiu ser AV um “dos meus” e que o insuspeito “Observador” ao traçar o seu perfil alude a um debate sobre segurança em Loures com o candidato do Bloco de Esquerda, ocorrido na TV24 em que AV “fartou-se de falar por cima do seu adversário, superando-o em volume e em agressividade”. “Vá estudar, que é o que lhe faz falta!”, atirou-lhe três vezes de rajada (…) E, por fim, perguntou-lhe: “você vem de Marte?”, tendo-o repetido seis vezes.

A avaliar pelas sondagens, o efeito AV não redundará em sucesso. Mas a semente do tubo de ensaio do populismo em que se transformaram estas eleições em Loures está lá. Não por acaso, uma recente sondagem aponta que 67,8% dos inquiridos afirmaram abertamente concordar com as suas declarações mais xenófobas e populistas.

Apostila: o País, que não apenas a Igreja, perdeu um cidadão, um bispo exemplar, D. Manuel Martins. Que dedicou a sua vida ao combate às injustiças e à defesa dos mais pobres e oprimidos. Uma voz que nos fará certamente muita falta nestes tempos de ainda muita incerteza que continuamos a viver. Bem haja, Senhor Bispo de Setúbal.

 

*por opção, o presente texto foi escrito de acordo com a antiga ortografia.