Cientistas de Portugal continental e da Madeira iniciam pesquisas a bordo do megaiate e navio de pesquisa ‘Yersin’

Fotos: Luís Rocha

O Yersin, iate do milionário francês François Fiat, é um barco extraordinário. Já o tivemos oportunidade de dizer anteriormente. Mas ontem o Funchal Notícias teve o grato prazer de subir a bordo e constatar, no seu interior, as excelentes condições desta embarcação dedicada à investigação. Ali fomos encontrar também vários cientistas portugueses, entre os quais madeirenses, que se dedicarão em breve a trabalhos de pesquisa. Para eles, é também uma singular oportunidade.

O prof. José Pedro Granadeiro

José Pedro Granadeiro, biólogo e docente na Universidade de Lisboa, doutorado em Ecologia, é um especialista em Ecologia de aves marinhas que embarcou ontem no Yeltsin para desenvolver investigação nesta área. Na sala de estar no navio, e acompanhado por jovens colegas do Museu da Baleia, no Caniçal, explicou: “Temos muita informação acerca da movimentação das aves nesta região, pois temos colocados GPS e outros instrumentos de seguimento em espécimes, e sabemos mais ou menos onde anda grande parte das espécies que ocorrem aqui. Sabemos também que as aves marinhas e os mamíferos marinhos muito frequentemente associam-se, e os mamíferos marinhos trazem para a superfície presas e as aves aproveitam essas presas que são obrigadas a subir à superfície também por outros predadores, como os atuns”.

Sala de jantar

As aves aproveitam esses eventos para, oportunisticamente, se alimentaram. A viagem no Yertsin, que agora inicia investigações científicas na área da Macaronésia, permitirá a este e a outros cientistas estudarem esses fenómenos de associação entre aves e mamíferos marinhos com mais atenção. “No fundo, aquilo de que estamos à procura é de tentar compreender quais são, afinal, as presas que são comuns aos mamíferos marinhos e também às aves marinhas, o que é que os une nessas interacções”.

Um navio ecológico em tudo

O professor explica que se tem verificado que na alimentação das aves marinhas surgem espécies que, à partida, elas não deveriam conseguir capturar, pois são espécies piscícolas que vivem a profundidades demasiado grandes para poderem ser apanhadas por seres que vivem acima da superfície.

Thierry Apparu, oficial de ligação com a imprensa

As aves que merecem maior atenção a José Pedro Granadeiro e aos seus pares são essencialmente a cagarra, espécie muito abundante nas Selvagens e que nidifica também em grande número nos Açores, nas Desertas e que é possível observar à volta da Madeira; mas também há outras espécies que interessam bastante, como a alma negra, ave pequenina mas grande voadora de mar, e cujos números são ainda algo incertos. “Sabemos que estas aves se alimentam de peixinhos que vivem normalmente abaixo dos 200 metros de profundidade”, refere. E claro que não mergulham a essas profundezas, pelo que “há com certeza um mecanismo ecológico que faz com que essas presas venham à superfície e fiquem disponíveis para as aves. Temos esperança de, com estas observações no mar, conseguir compreender um bocadinho essas associações”, disse-nos o investigador e académico.

Não faltam equipamentos a bordo
A decoração é irrepreensível e de bom gosto
Miniatura do Yersin

Esta missão está programada para decorrer entre os dias 24 e 26, tempo durante o qual serão realizados percursos entre a Madeira e as Desertas. O Yersin fará posteriormente uma missão às Selvagens, mas estes cientistas já nela não participarão.

Cientistas e estudantes preparam-se para uma viagem de pesquisa

A acompanhar José Pedro Granadeiro fomos encontrar os jovens Luís Berimbau, um estudante de biologia na Universidade da Madeira e voluntário no Museu da Baleia, a bióloga Inês Cunha, neste momento a trabalhar como bolseira naquela instituição, no contexto deste projecto, denominado Oceans Webs, e João Morgado, estudante de mestrado na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, e membro da equipa do professor. Todos se encontravam agradados com a possibilidade de desenvolver pesquisa científica a bordo do Yertsin.

A relação do Museu da Baleia com esta investigação estabelece-se, segundo Inês Cunha, porque basicamente as presas dos cetáceos como golfinhos, baleias, baleias-piloto e outras espécies acabam por ser, basicamente, as mesmas das espécies avícolas atrás referidas por José Pedro Granadeiro. São estes cetáceos, além dos atuns, que provocam a subida à superfície dos pequenos peixes de que os pássaros se alimentam.

Ponte de comando do Yersin

Questionámos esta bióloga sobre a sua opinião sobre o impacto das actividades marítimo-turísticas na população de cetáceos nas águas da Região, mas Inês Cunha considerou que neste momento não existem dados para aferir de potencial impacto desta indústria nas espécies. Há legislação para cumprir, e um entendimento tácito entre as empresas e os cientistas, entre os quais os que trabalham no Museu da Baleia, conforme deixou transparecer.

O conhecido cientista madeirense Manuel Biscoito, director do Departamento de Ciência da Câmara Municipal do Funchal, autarquia que é responsável pelo Museu de História Natural e pela Estação de Biologia Marinha, encontrava-se também ontem a bordo do Yersin e falou-nos das pesquisas que vai realizar. As supracitadas instituições científicas dependentes da CMF, revelou-nos, tem estado já em contacto com a equipa do Yersin e da Monaco Explorations já desde praticamente há um ano, referem-nos.

“Da nossa parte, trabalharemos essencialmente duas áreas. A primeira diz respeito ao ambiente das profundezas marítimas, e aí o trabalho será feito já agora nesta próxima saída, em que três colegas embarcarão e obterão algumas amostragens com draga, um instrumento rudimentar mas que permite colher amostras do fundo do mar, na formação geológica que constitui uma crista entre a Madeira e as Desertas. É um trabalho dito de ecologia de águas profundas. O objectivo aqui é essencialmente tentar perceber a distribuição de algumas comunidades de invertebrados, como corais, moluscos, crustáceos, etc. nesta crista, não só no topo, mas de um lado e de outro, porque se trata de uma crista que tem essencialmente uma orientação essencialmente noroeste-sueste, tendo uma vertente que fica virada para leste, para o lado do Porto Santo, e outra que fica virada para oeste. Pensamos que a distribuição dos organismos não se faz da mesma maneira, até pelos efeitos oceanográficos que existem naquela área. Uma das formas porque se poderá aferir dessas diferenças é precisamente analisando as comunidades que vivem no fundo do mar, quer nas areias, quer nas rochas”, explicou.

Manuel Biscoito diz que esta investigação será complementar a outra que vem já sendo feita há mais tempo, no âmbito do Observatório Oceânico da Madeira. “Todos os trabalhos que fazemos se encaixam num panorama mais vasto de investigação no mar, levada a cabo por várias equipas, e nomeadamente também com a componente da oceanografia física (…)”.

A segunda componente do trabalho que o Museu de História Natural vai realizar relaciona-se com a ecologia costeira, uma outra área na qual três colegas seus participarão, nomeadamente Mafalda Freitas, Cláudia Ribeiro e Pedro Neves, biólogos e também mergulhadores, que, na costa norte da Madeira, realizarão uma série de mergulhos entre a Ponta Delgada e a Ponta de São Lourenço, no sentido de fazer mapeamento de habitats.

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O navio possui a bordo lanchas rápidas para transporte de pessoas e material, a ainda uma estação flutuante

“Na estação de Biologia Marinha, estamos a construir um mapeamento de comunidades que existem sobre o fundo do mar, ao longo da costa e até aos 30 metros, a profundidade a que normalmente se vai com escafandro de mergulho autónomo. Estamos a começar a mapear a Madeira, o que é algo que não existia até agora, pelo menos com detalhe. Existem nestes fundos alguns habitats de grande interesse, nomeadamente compostos por algas calcárias, habitat protegido a nível europeu por diversas convenções e que serve, de certo modo, de protecção à vida à volta da Madeira, porque serve de certo modo de berçário de uma quantidade de espécies de peixes e crustáceos que são depois apanhados na pesca”, sublinha.

A inspiração de Tintin

 

Estes habitats, apesar de conhecidos, estão ainda “muitíssimo mal estudados” do ponto de vista ecológico.

“O Yersin dá-nos a possibilidade de aceder a áreas remotas, e por isso difíceis, e funcionará como uma plataforma que nos permitirá aumentar grandemente a nossa capacidade de chegar aos locais. Até agora, temos estado a trabalhar sobretudo na costa sul da Madeira; agora vamos poder desenvolver trabalho mais aprofundado na costa norte e, esperamo-lo, eventualmente na costa leste das Desertas, também”, congratula-se.

Como não existe na Madeira pesca de arrasto, mas sim à linha, espera-se encontrar estes habitats em boas condições, sendo isso algo que agora também poderá ser aferido com maior atenção. Até porque existe uma directiva-quadro, à qual Portugal e a Madeira estão obrigados, da Estratégia Marinha, em que a Madeira se obriga a revelar o estado dos diferentes habitats.

Os resultados destas pesquisas servirão também para ajudar a que as entidades governamentais possam elaborar os necessários relatórios, atestando, “tanto quanto espero, o bom estado ambiental destes ecossistemas”.

Entretanto, o Museu de História Natural do Funchal e instituições do principado de Mónaco estão a preparar uma exposição, que será inaugurada no dia 5 de Setembro, e que ficará patente ao público até Janeiro de 2018. Intitula-se “Um Príncipe Explorador” e refere-se ao príncipe Alberto I do Mónaco, tetravô do actual, um homem que, à semelhança do que fez o nosso rei D. Carlos, se dedicava à oceanografia, tendo realizado múltiplas pesquisas entre 1879 e 1912, em diversas passagens pelo arquipélago da Madeira. A mostra será bilingue, em Português e Francês, e constitui uma interessante colaboração das Monaco Explorations e do Museu madeirense.

Escadarias, vistas de baixo para cima

O navio Yersin, ao qual já nos referimos anteriormente, merece um apontamento especial. Como plataforma móvel de exploração científica, é caso único e oferece um grau de conforto aos cientistas que nele trabalham dificilmente igualável em navios oceanográficos. Decorre da visão de um milionário francês, François Fiat, seu proprietário, que, inspirado por leituras juvenis das aventuras de Tintin, idealizou não apenas um iate luxuoso só para passeios, mas uma embarcação que fosse simultaneamente o seu iate e que estivesse preparada e certificada para navegar em todos os mares do globo, inclusive no Ártico e na nos mares da Antártida. Essa inspiração em Tintin encontra-se deliciosamente expressa em múltiplos aspectos, desde a própria ponte de comando, onde encontramos uma grande ilustração retirada do álbum de BD “O Tesouro de Rackham o Terrível”, quando Tintin persegue um tesouro afundado no barco comandado pelo capitão Haddock, o “Aurora” (por baixo da ilustração, encontra-se precisamente uma miniatura desse barco) a vários desenhos do popular herói da BD belga criada por Hergé, afixados em portas. Até os camarotes têm nomes de personagens das histórias, como “Tintin”, “Milou” ou “Dupond”. São detalhes que conferem a tudo isto uma áurea de aventura juvenil, mas o trabalho que o Yersin se propõe fazer é muito sério.

 

O navio é altamente ecológico e sustentável, sendo capaz de estar 50 dias no mar sem descarregar resíduos, o que lhe permite navegar, com o auxílio dos seus motores diesel-eléctricos, com a maior economia possível de energia e sem danificar as mais protegidas reservas naturais. O casco tem certificação para navegar no gelo, e o navio está equipado com os mais sofisticados meios electrónicos. É, literalmente, uma embarcação que pode navegar em quaisquer mares do mundo, e até subir rios, na Amazónia, por exemplo. É simplesmente notável, em si mesma e nos seus propósitos.

São muitos os apontamentos decorativos de cariz náutico

Muito recentemente lançada ao mar, ainda está a adquirir equipamento necessário para as expedições científicas e os seis laboratórios que possui, mas já inclui, por exemplo do mais avançado e completo equipamento de mergulho. O barco está preparado para transportar um hidroavião, que desloca de uma rampa de lançamento e é erguido para bordo por uma das gruas.

As pesquisas científicas a que se dedicará a partir de agora possuem um forte apoio financeiro do principado de Mónaco, de onde partiu o Yersin para uma viagem de três anos que dará a volta ao mundo. As primeiras explorações dizem precisamente respeito aos arquipélagos da Macaronésia em Agosto, principalmente da Madeira e Cabo Verde.

O navio é comandado pelo capitão Jean Dumarais e transporta a bandeira monegasca. Tem também um ROV, veículo de pesquisa submarina operado remotamente, embora no momento este não esteja ainda operacional.

Desenhar e criar o Yersin (que transporta o nome de um famoso bacteriologista que trabalhava no Instituto Pasteur, em Paris, mas que o abandonou, no século XIX, para realizar pesquisas que conduziram à erradicação da peste bubónica) foi para o proprietário François Fiat a consubstanciação de um sonho de infância. Demorou dez anos a concretizar o ideal aventuroso e de pesquisa que o acompanhava desde que lera, na infância, as aventuras de Tintin. Valeu a pena.

O navio propõe-se cumprir também numerosos propósitos educacionais. O apoio do principado do Mónaco visa promover uma perspectiva ecológica e conservacionista no mundo de hoje, combatendo a poluição e promovendo o interesse pela biologia marinha. Tudo para melhor alertar o público para as ameaças à biodiversidade e aos ecossistemas dos mares do planeta.

Plataforma de mergulho
Príncipe Alberto I do Mónaco, o “príncipe navegador”