Estepilha! Estes agentes de comunicação bem mereciam uma comenda da República

Ilustração de José Alves.

O Estepilha confessa que tinha um sonho: ser governo. Mas, o seu país não deixou. Ainda assim, sonhador que se preze não joga a toalha ao chão. Borrifa-se novamente, contorce-se, zumba à direita e à esquerda e arrisca: talvez o meu país queira que o sirva como agente de comunicação de um governante ou partido, alvitra o Estepilha… Esse advento mágico do stablishment político que frutuosas carreiras produz, saída da fornalha de briosos jornalistas das redações do país.

Vai daí, nada melhor que uma experiência relâmpago numa redação do burgo para currículo, a espalhar sorrisos, charme, muito carinho e boa energia e dar à estampa notícias obviamente pela positiva, na lógica do semear para depois colher.  Sim, escrita pressurosa com muito óleo de amêndoas doces, a despachar notícias que fulano cortou a fita inaugural da mercearia inédita no mundo a nascer na Madeira, com todo o destaque na manchete. Usou fundos públicos para abrir a mercearia? Não! Isso é trabalho para a polícia ou então para os jornalistas comunas do Washington Post. Neste passinho lento mas certeiro, missão cumprida, sai nomeação: diretor de comunicação, esse impagável alter ego dos políticos, a caixa retransmissora da alma politicamente correta. E notícia que seja verdadeiramente notícia é saída das mãos alvas e imaculadas desta troupe que engrossa cada vez mais as fileiras do governo e dos partidos. Falhou ou foi dispensado de uma redação? O poder ou partidos envolve-os num abraço sentido e comovido, à laia dos reencontros da SIC. Ai este país é de emoções fortes e únicas. O Estepilha também se emociona…

Depois, uma pós-graduação em photoshop para realçar a elegância dos chefes: sem dietas espartanas, embelezam-se os dentes, replicam-se comunicados em duplicado e, claro, canta-se a desfolhada, mal-me-quer, bem-me-quer, a ver onde e a quem se pisca o olho para oferecer entusiasticamente a “cacha”, leia-se a notícia em primeiríssima mão, hoje para o jornal X, amanhã para a televisão Y, num jogo de trapézio que dá muito, muito trabalho.

Como o Estepilha compreende e valoriza esta missão genuína e de serviço público: dos políticos a vender o seu peixe e dos seus agentes de comunicação a levar o público a mercar esse peixe. Pena é que o Representante da República, do alto do seu castelo, ainda não se tivesse lembrado de alguns nomes com reconhecido mérito e serviços prestados na comunicação para uma comenda no Dia de Portugal ou então um louvor merecido lavrado em conselho de governo. Deverá já estar na forja…

Se por inveja ou culpa, sempre dos outros, esta missão nobre de comunicação oficial falhar, há sempre um filho pródigo que pode regressar aos braços do pai que o abraça, manda matar o maior vitelo, coloca-lhe no dedo o melhor anel e faz festa noite dentro pelo reencontro do filho amado, com uma promoção irrecusável. Os assessores de Cavaco e Sócrates bem sabem do que o Estepilha fala. E estes filhos laboriosos e de índole pura nunca se perdem porque são profissionais de uma casta rara e de insuspeita competência.

Novamente comovido, o Estepilha questiona-se: o que seria do meu país sem esta massa crítica que labuta sem horário para informar, fazer desenhos que traduzam a realidade aos jornalistas impreparados, do mar à serra, apenas e só por amor à sua terra, naquele enlace embevecido  e terno, que vem bem lá do fundo da alma lusitana.