Cultura para enfeitar eleições

De vez em quando recordo-me, com um vago estremecimento, de que fui jornalista na área cultural durante anos. Ultimamente não tenho conseguido evitar estremecimentos ainda maiores, com o descarado aproveitamento da Cultura, esse parente pobre, no período de pré-campanha eleitoral. É verdade que tenho andado arredado da dita, por desilusão e fastio, mas não consigo, absolutamente, libertar-me de uma certa revolta quando a vejo, coitada, manietada pelos candidatos a burgomestres, ser exibida como um elegante “centro de mesa” da refeição com que uns ou outros se vão alambazar a 1 de Outubro próximo.

Durante os anos em que escrevi sobre Cultura – entrevistando indivíduos como Gilles Lipovetsky, Saramago ou Eduardo Lourenço (quem??), entre tantos outros, convivi com a dualidade do privilégio de conhecer estes ilustres visitantes e com eles trocar contactos e impressões, ao mesmo tempo que observava e relatava  a nossa ilustre culturazinha de paróquia, dum provincianismo atroz.

Mas, a quem importam estas reminiscências, numa época em que os jornais os trocaram das primeiras páginas por dj’s e rappers com voz de “bagaço” e aspecto de sem-abrigo? Adiante. O que interessa é que constato, e testemunho que, de há décadas para cá, pouco ou nada se modificou no nosso registo regional. E se se modificou, foi ainda para pior.

Agora, que se aproximam as próximas eleições autárquicas, a história repete-se, tal como no mito nietzchiano do Eterno Retorno.

As promessas atingem o seu zénite. Promete-se a torto e a direito e o sector cultural, permanentemente negligenciado por todos os partidos, sem excepção, torna-se de repente querido e respeitado por todos eles. E as ideias sucedem-se, cada uma mais arrojada do que a outra. Tenho, nomeadamente, adorado o debate em torno do espaço, há anos desaproveitado, do antigo Matadouro (que deu o nome à rua onde, paradoxalmente, se instalou, também há muitos anos, a Sociedade Protectora dos Animais Domésticos do Funchal).

Todos têm projectos grandiloquentes para aquele espaço. PSD, coligação Mudança e CDS, entre outros, disputam os primeiros lugares da corrida à originalidade, destinando aquele lugar a “pólo de indústrias criativas e culturais”, “incubadora de empresas em regime de co-working”, “Museu de História Natural” e por aí além. Por outro lado, uma inovadora coligação, mais modesta, promete para ali um “Atrium Social” para “centralizar a logística global e o planeamento estratégico na assistência ao social e à saúde”, preferindo a sedução da palavra “social”, sem cedências fáceis ao “cultural” da moda.

Afigura-se-me que nada disto se concretizará e que, uma vez passadas as Autárquicas, aquele espaço, como tantos outros da urbe, permanecerá desaproveitado e esquecido.

É que, antes de mais, não basta ter um edifício para se concretizarem ideias, devendo antes estas existirem antes do edifício, mas bem estudadas, arquitectadas e estruturadas, e sobretudo entregues ao cuidado de pessoas competentes e com vocação.

Ora, é consabido que na nossa terra, basta ser-se efectivamente competente numa determinada área para que de imediato se arranje um modo qualquer de se pegar naquele indivíduo com determinadas capacidades, terminar-lhe a carreira e votá-lo ao esquecimento. O que interessa é PARECER competente e interessado, não sê-lo. Temos múltiplos exemplos disto, com o que aconteceu por exemplo no Centro das Artes Casa das Mudas; na Galeria dos Prazeres; no Departamento de Cultura da CMF ainda no mandato de Albuquerque (quando se “tirou o tapete” a Maria Aurora), na DRC, com a passagem por aquele organismo de certos directores regionais inenarráveis, inclusive já no mandato do PSD “renovado”, etc.

Sou suficientemente antigo no jornalismo madeirense para me lembrar de múltiplas reportagens, várias das quais feitas por mim próprio, sobre a “recuperação do Palácio de São Pedro”, que Albuquerque, ainda edil, ia empreender, numa renovação “à semelhança do Museu de História Natural de Paris”. A ideia surgiu, e, até à sua consubstanciação, ia-se regularmente sucedendo todo um cortejo de projectos e promessas, das quais o director do Departamento de Ciência da CMF, Manuel Biscoito, ia sendo porta-voz e arauto, devidamente mandatado para tal pelo presidente da autarquia. Tenho respeito e amizade pelo dr. Manuel Biscoito e sei-o cientista sério; enquanto tal, de boa fé acreditava que as alterações iam ser cumpridas.  Foi acreditando. Até hoje. Da última vez que falámos sobre o assunto, confessou, embaraçado: “Agora já nem lhe digo nada”. Terá passado para aí mais de uma década desde que a ideia foi lançada.

Agora vem Rubina Leal prometer um Museu de História Natural para o Matadouro, baseada na existência de “fundos comunitários”, um argumento que sustenta sempre promessas vãs, como a de que o Palácio de São Pedro um dia se pareceria com o Museu de História Natural de Paris.

Esta conversa não é menos enjoativa do que a retórica cafofiana ou centrista-populista sobre “indústrias criativas” e “pólos culturais” que sugerem que o Matadouro, dentro em breve, tornar-se-á num centro de saber similar às Ágoras ou aos banhos da Grécia Antiga. Ali florescerá, a acreditar nas ilusões que nos querem vender barato, uma grande dialéctica geradora de conhecimento. Destinado, já agora, a exportação internacional, como nos tempos em que se afirmava insanamente que desta pequena ilha se ia exportar inteligência para civilizar os povos do mundo.

Cada vez que ouço falar em “indústrias da cultura”, “pólos criativos”, “economia da cultura” e inanidades semelhantes revolve-se-me o estômago pela demagogia despudorada. A verdade é simples: não se fazem omeletes sem ovos. Entretanto, as pessoas que efectivamente movimentavam a Cultura na Madeira (sempre com parcos meios) ou morreram, ou foram substituídas por outras suficientemente capazes de irem mantendo a produção institucional à tona, mas sempre com ideias tipo “tapa-buracos”, como tornar um Centro Cultural construído de raiz, o único na Região (Mudas, na Calheta) e que foi concebido como um espaço destinado a albergar grandes exposições em rotação e espectáculos sempre inovadores, num Museu estático e maçudo, para substituir o Forte de São Tiago e albergar uma colecção; ou então ir metendo umas coisitas no Teatro Municipal, como a rede Eunice, e fazer parecer que se inventou a pólvora.

De facto, a colaboração com o Teatro Nacional D. Maria II já existia muito antes disto, só que Miguel Albuquerque, um dos poucos políticos que se interessava por assuntos culturais, a folhas tantas deixou cair a bandeira da Cultura para passar a interessar-se mais por eventos de moda e revistas do coração. Por outro lado, hoje em dia o actual edil do Funchal, Paulo Cafôfo, enche a boca com a afirmação de que “o Funchal nunca teve tanta Cultura”.

Ocorre-me uma imprecação, que vou evitar aqui. Em tempos convidou-me para moderar um debate sobre o tema, ainda ele concorria à Câmara Municipal. Aceitei. Fizémo-lo e foi obrigado e adeus. Mais ou menos a mesma coisa que aconteceu, já ele era presidente, com um grupo de personalidades que convidou em tempos para formarem um grupo para pensar a Cultura na Câmara, e que reuniu algumas vezes até que… deixou de o fazer e ninguém mais ouviu falar dele, até hoje. Os políticos estão dispostos a ouvir sugestões, mas em doses moderadas e só de modo a fazer parecer que estão interessados. Depois impõe-se preencher os lugares onde se poderia fazer alguma diferença para a oferta cultural à população em geral, com amigos pessoais ou “apparatchiks” do partido (ou dos partidos, no caso das coligações).

Os outros partidos do espectro político regional, conforme antes disse, também não estão isentos de culpas. Na realidade, a maior parte deles nem 5 por cento dos seus programas consagra à Cultura. Nem têm ideia nenhuma do que se poderia fazer, para além duns esporádicos fogachos para entreter as massas.

Miguel Albuquerque, pessoa com certo gosto literário e artístico, prestava-se enquanto edil a aparecer em lançamentos de livros de qualidade grotesca, para os quais cedia o Salão Nobre da Câmara, na tentativa de agradar a todos. O mesmo faz agora Paulo Cafôfo, de cuja sensibilidade cultural também não duvido inteiramente. O que mudou?

Albuquerque prometia para o antigo Matadouro um novo Museu de Arte Moderna, entre outros delírios. Agora promete-se um Museu de História Natural ou pólos culturais de importância similar à que teve na Antiguidade clássica a grande Biblioteca de Alexandria. Mais uma vez, o que mudou?

Entretanto, enquanto alguns artistas ou agentes culturais a quem se atirou umas migalhas se deslumbram, agradecidos, com a generosidade e apoio do actual edil, uma miríade de outros projectos válidos desmoronou-se, estagnou ou caiu no esquecimento. E quanto ao Governo, nem se fala. A única coisa palpável que conseguiu, para além de preservar algum património histórico e documental, já institucionalizado, e assegurar a sobrevivência de alguns festivais do calendário anual, criados ainda no tempo do jardinismo, foi, após anos e anos de polémica, continuar a manter uma Orquestra Clássica a peso de ouro, a qual tem inovado certos programas, sim senhor, e protagonizado certos momentos brilhantes, mas que também repete ad aeternum programas que já tocou para aí 500 vezes.

Estou ainda para saber quais são efectivamente as traves mestras da política cultural das autarquias e do Governo Regional, a longo prazo. Há anos que aguardo por essa estratégia concertada, num projecto que me convença.

Mas não. Formam-se grupos, abrem-se gabinetes, pensa-se isto, pensa-se aquilo, promete-se, promete-se. Depois tudo passa.

Cumprimentos, pois, e até depois das eleições. Encontramo-nos mais tarde, no lugar do costume, aquele onde nada nunca muda, em busca do tempo perdido. Não no lugar das tertúlias, pois até essas já se extinguiram por si mesmas. Já não há nenhum restaurante ‘Pátio’, o Café do Teatro é uma espécie de discoteca e no Golden Gate só falta venderem-se arepas ao preço dos diamantes. Pode ser que um dia desses partamos à visita de algumas capelas ao luar. Aquelas que já existem há séculos, mas das quais nos lembramos agora para preencher a agenda.