A (Des)valorização da Arte

Independentemente da formação sociocultural da cada pessoa, todos têm, à partida, alguma sensibilidade perante uma obra de arte. Diante de uma criação artística, cada um sente, no mínimo, se gosta ou não. E cada qual, também, tem o direito de manifestar a sua opinião sobre o objeto artístico que está exposto à sua frente.

Mas, afinal, o que define uma obra de arte? O Filósofo Italiano, Luigi Pareyson, elenca três definições tradicionais sobre o que é arte, que parecem-me interessantes: a) Arte como fazer. Esta conceção remonta à antiguidade e prioriza o aspeto executivo e manual da atividade. b) Arte como conhecer. Esta conceção é própria do ocidente e prioriza o aspeto cognoscitivo da arte, identificando-a como uma visão de mundo.
c) Arte como expressão. Esta conceção remonta ao romantismo e privilegia a coerência das figuras artísticas com o sentimento que as suscita. (Fonte: http://alissongebrimkrasota.blogspot.pt/2010/08/definicao-de-arte.html).

No entanto, outras interpretações, definições e conceitos sobre o universo da arte têm surgido ao longo da história da arte e vão continuar a surgir no decorrer dos tempos.

É de uma grande importância valorizarmos a arte na sua generalidade, como algo que contribui para a construção do debate e do conhecimento, de forma a compreendermos melhor o mundo.

Embora, infelizmente, há quem desvalorize toda a vertente artística, ou simplesmente, não lhe dá importância. Dizem que a arte não dá de comer! Pois enganam-se redondamente, porque o mundo das artes “alimenta-nos” a alma, faz-nos pensar, opinar, e acima de tudo, liga-nos às pessoas e ao mundo que nos rodeia.

Por vezes, as obras de arte são alvo das mais injustas críticas. Por cá, o caso mais mediático é o busto de Cristiano Ronaldo, inaugurado na renomeação do aeroporto da Madeira. Aquela escultura fez levantar uma onda de comentários a favor e em grande parte contra. No entanto, é uma obra que continuará, por algum tempo, a arrancar gargalhadas e a fazer correr muita tinta. Mas uma coisa é não gostar, outra é faltar ao respeito com determinadas observações, como as que circularam nalguma imprensa e nomeadamente nas redes sociais.

Pois só pelo autor não ser muito conhecido nos meandros da arte – agora é certamente mais conhecido do que a maioria de muitos artistas locais – não é motivo para que a sua obra não tenha “algum” valor artístico.

No entanto, o busto de CR7, tornou-se viral e está a ter um grande reflexo mundial, pois está a ser visto diariamente por centenas de pessoas. É fotografado e filmado todos os dias e circula pelas redes sociais de uma forma tão rápida, que provavelmente, nenhuma outra escultura da nossa região, tem tanta visibilidade “online” por esse mundo fora.

Segundo Emanuel Santos, o autor, autodidata, o próprio Cristiano Ronaldo gostou do busto – ou quis ser simplesmente simpático? –, mas isso não foi o suficiente, para não ser alvo das piores observações. Dizem que alguns dos comentários vieram de forma anónima, por parte de alguns escultores locais. Se assim foi, julgo ser uma atitude muito feia, pois quem comenta deve, no mínimo, dar a cara.

Apesar de ter sido genericamente mal recebido por algum público e pela crítica, o mais importante para o autor, é que a sua vida artística contínua de “vento em popa”, pois além desta obra, tem no seu currículo, uma escultura em homenagem aos pescadores do Caniçal e outra em homenagem aos lenhadores, localizada na rotunda de Nossa Senhora do Bom Caminho, na Freguesia de Santo António da Serra (Machico). E ainda – para inveja de alguns, espera-se que poucos – o artista foi convidado por uma empresa de apostas para fazer um busto de Gareth Bale, jogador do Real Madrid.

Em boa verdade não há obra artística que agrade totalmente a Gregos e a Troianos, nem a bela arte futebolística do melhor jogador do mundo encanta a todos.

Na realidade, temos é que lutar por uma sociedade cuja cultura e educação artística permita que cada um possa ter oportunidade para meditar sobre as obras artísticas que estão no espaço público e a partir delas produzir debates com profundidade e fundamentação. Uma crítica que se preze não se deve limitar a dizer, meramente, que as coisas estão bem como estão. A arte como uma forma de conhecimento possibilita o desenvolvimento pessoal, social e cultural dos cidadãos. O filósofo alemão, Schelling, admitiu que pela arte se alcançava o saber absoluto.

Para Roseli Amado Garcia (2003, p. 49), ”Arte não é só técnica. Arte é pensamento, vivência, sobrevivência. É raciocínio. É quando o homem experimenta a liberdade e se descobre. Homem que chora, que ri, que se desnuda em tempos e espaços. Arte é trabalho. Memória. Processo. Consciência. Conhecimento. Necessidade e sacrifício. É busca incessante.”

Mas, outras obras artísticas na nossa Madeira ao longo dos tempos têm sido alvo de críticas, como por exemplo, a escultura que se encontra na praça da Assicom – conhecida, entre alguns, por o anjo caído – da autoria do escultor madeirense Ricardo Velosa, gerou muita polémica e muito debate a favor e contra, no entanto, lá está. Como diz a voz da sabedoria: não há mestre como o tempo.

Um outro caso, muito interessante, a nível nacional, que surgiu há pouco tempo, sobre uma obra de arte, foi a aceitação do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, para que o seu retrato oficial fosse escolhido uma pintura que já estava terminada e da autoria de um artista desconhecido – o mestre António Bessa.

Já em 1917, o famoso urinol de Marcel Duchamp, foi algo muito polémico – para muitos e ainda hoje para alguns –, e visto inicialmente sem nenhum sinal de labor artístico mas que, apesar de tudo, entrou para a história como uma das referências artísticas do século XX.

Até a recente instalação de Joana Vasconcelos, denominada “Suspensão” – um terço de grandes dimensões que foi inaugurado no Santuário de Fátima, por ocasião da vinda do Papa Francisco àquele espaço – não escapou a algumas críticas, até de suspeita de “plágio”, nomeadamente, com uma chuva de fotografias a provar existir um terço idêntico no Brasil. E embora a artista plástica afirmasse logo que desconhecia o terço brasileiro não se viu livre das acusações.

É verdade que a arte à partida é aquilo que os artistas concebem e/ou intitulam como arte. É algo que nos provoca prazer emocional e/ou intelectual. Nas palavras de Eduardo Lourenço, ”a arte é isto mesmo: dar à vida uma segunda oportunidade.” Importa é entender que quando uma criação artística é foco de debate, há sempre alguma utilidade.

Termino esta crónica sobre “A (Des)valorização da Arte”, com as palavras do Secretário Regional de Educação, Jorge Carvalho, por ocasião da apresentação da Semana Regional das Artes 2017: “Acreditamos que é possível educar para um conjunto de sentimentos e competências que só através da arte podemos desenvolver. “


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