O fogo consome, a política também

É sempre bom e reconfortante quando vemos um País mobilizado em torno de uma causa. É sempre bom e reconfortante quando vemos uma onda de solidariedade, imediatamente a seguir aos incêndios de Pedrógão Grande, mas também mais recentemente com o concerto solidário que rendeu mais de um milhão de euros, além de episódios que, sendo mais pequenos, assumem uma gigantesca dimensão no sentido do ser, do ser solidário com o outro, o que de repente contraria a fórmula há muito encontrada nas sociedades ditas modernas para se afirmarem desenvolvidas, em que o ter domina em larga escala a vida do dia a dia e as pessoas são números encontrados para justificar as mais diferentes vigarices economicistas.

É deveras reconfortante ver famílias afetadas pelos incêndios na Madeira encontrarem forças para reunir um donativo e envia-lo para ajuda a outras famílias, também elas vivendo uma fase dramática da sua vida, algumas que perderam membros da família, outras que perderam bens e outras ainda que perderam uma coisa e outra, ou seja quase tudo. É bom e reconfortante saber destas notícias, é bom saber que ainda há gente assim, que ainda temos um País e uma Região formados por pessoas assim.

Só que no meio deste paraíso de sentimentos, há o outro lado, o do Estado, o da Região, o do relacionamento institucional entre eles e entre eles e as instituições, a mobilização de meios, primeiro no combate, depois na intenção de ajuda e depois ainda na ajuda efetiva. Se a solidariedade é uma prova do SER grande, a avaliação e a atuação é uma prova do ter e do saber pequeno. Um desastre para ser mais preciso. E é transversal aos governos, quer cá quer lá, independentemente das cores políticas, porque então se for para falar de política, à palavra desastre podemos acrescentar vergonha.

Diz a história recente, a propósito dos dramas que se abateram sobre as populações, na Madeira e no Continente, que a ajuda é sempre tardia, que o dinheiro angariado, às vezes com valores estrondosos, ainda assim, não chega para fazer aquilo que se exige, dar resposta rápida depois do levantamento feito das necessidades de intervenção. Fazem-se avaliações, formam-se comissões, prometem-se verbas, não se sabe muito bem como são geridos os dinheiros dos donativos, para onde vão os montantes das contas solidárias, quem administra e como. Os meses vão passando, o dinheiro não chega, vão aparecendo com alguma coisa feita – o que faltava é que não aparecessem – e os governos vão acenando com cerimónias públicas, os meses vão passando e as acusações são aos magotes, de empurrão em empurrão, da República para a Região e da Região para República. Entretanto, há gente, desesperada, à espera de apoios. E só passou um ano, porque o mesmo se passa relativamente ao temporal de 2010 e já passaram sete anos, a diferença é que parte disso o tempo fez fazer cair no esquecimento, não de quem sofreu na pele as consequências, mas de quem tem a responsabilidade de resolver os problemas.

Lá é igual, como pudemos ver com estes incêndios dramáticos de Pedrógão Grande, com um desfecho trágico de 64 mortos e muitos feridos, além de desalojados. Quanto tempo vai levar a chegar ajuda? Quantas avaliações serão necessárias e quantos relatórios serão feitos para apurar a responsabilidade ou não do Estado, porque disso depende as indemnizações? Quantos meses, anos, vão passar sem que todas aqueles pessoas afetadas tenham a sua vida, ou o que é possível dela, reposta minimamente? Não é reconstruir dez, vinte casas, fazendo com que algumas pessoas ainda sofram daqui a quatro ou cinco anos em vida precária. É atuar num curto espaço de tempo, mobilizando meios efetivos, sem brincar às promessas e aos empurrões de governo para governo. É fazer o que está para fazer com menos burocracia e mais atitude.

Aquilo a que temos assistido nos últimos dias, de acusações de âmbito político, de candidatos a quererem mostrar serviço na República, provocando até declarações extemporâneas de responsáveis que deveriam ter mais cuidado quando falam, como aconteceu com Passos Coelho, é a parte má deste drama. Umas vezes o SIRESP funcionou mal, outras esteve inativo uns minutos, outras umas horas. A Proteção Civil coordenou mal por falta de comunicações, a GNR desviou os carros porque não tinha informações atualizadas, o PSD acusa o Governo, o Governo acusa a oposição de aproveitamento político de uma tragédia. Faltam psicólogos, como referiu um dos autarcas dos concelhos afetados, mas entretanto há psicólogos, e muitos, desempregados. A Assembleia da República debate incêndios para debater política e ali passam o tempo todo a ver quem atira mais pedras uns aos outros, entre oposição e governo. A República ainda não mandou o dinheiro prometido para a Madeira e passa o dia a falar de apoios. A Região manda para a República qualquer coisinha que ainda não tenha sido feito. O povo precisa de soluções, não precisa de comunicados e de palavras. O povo não quer saber de relatórios e de quem se demite primeiro. O povo quer respostas. Já. Entendam-se e deixem-se de conversa.

É isto, tudo junto, que faz pena. É isto que os partidos não conseguem fazer, debater idéias e encontrar soluções isentas, sem estes aproveitamentos que estão no lado oposto da solidariedade que temos visto em cada cidadão.

As pessoas, que são a parte melhor, elegem os representantes políticos, que em muitos casos, felizmente não todos, formam a parte pior. Tanto uns como outros esquecem-se disso.