Feira do Livro é sombra do que foi; crise económica e falta de novidades e actividades culturais atractivas marcam certame

Fotos: LR

A Feira do Livro é uma sombra do que foi. A constatação é dolorosa, mas real. O Funchal Notícias tem visitado a Feira desde a sua inauguração recente, e notado como a dimensão do evento se reduziu e sobretudo como, apesar de muito público circular na zona, poucos entram efectivamente nos “stands” e compram livros. É precisamente disso, aliás, que se queixam as livrarias e editoras presentes: da falta de poder económico que leva a que a população se retraia na aquisição de literatura. São muitos os olhares curiosos, a animação de rua leva alguma movimentação ao espaço, mas a vontade dos transeuntes em comprar é pouca.

Por outro lado, os “stands” de madeira são considerados pouco convidativos. E são-no, efectivamente, já que possuem um travejamento em madeira à entrada susceptível de fazer nele tropeçar os menos avisados. Os feirantes referem que as tendas brancas e abertas que eram usadas em edições anteriores do certame, antes dos actuais “stands” serem introduzidos este ano, eram muito mais acolhedoras e favoreciam o intercâmbio das pessoas com os objectos expostos, já que tinham abertas diversas áreas de circulação. Estes novos “stands” não; só têm uma entrada e é mesmo preciso passar por cima da trave de madeira – assinalada pelas diferentes livrarias e editoras com diferentes sinais de precaução.

Também reparámos como, insistentemente, as pessoas que se encontravam a vender livros tinham de alertar quase sistematicamente os visitantes mais distraídos para o referido travejamento, e recomendar-lhes cuidado, não fossem tropeçar e cair.

O facto destes “stands” serem menos convidativos à entrada das pessoas obrigou várias das editoras e livrarias representadas a pôr os livros no exterior, sobre mesas, numa tentativa de fazer com que alguém efectivamente os folheie. E mesmo em livrarias sobejamente conhecidas as coisas não correm bem. O FN adquiriu um livro num destes espaços e foi-nos referido, para nossa surpresa, que era o primeiro livro para adultos que vendiam desde que a Feira abrira ao público.

Em contrapartida, o feirante em questão queixava-se de ter já 900 euros de prejuízo em livros estragados pela chuva, dado que os “stands” também não oferecem a protecção contra a mesma que as tendas brancas anteriormente utilizadas proporcionavam. A água acumula-se nos telhados, formando bolsas e infiltrando-se, queixou-se. Resultado: prejuízo que não sabe quem poderá ressarcir.

As pessoas com quem conversámos reportaram-nos ainda que as portas dos “stands” de madeira são de tal forma pesadas que só podem ser manipuladas pelos funcionários da CMF, o que coloca os feirantes numa indesejável situação de dependência dos serviços camarários para abrir e fechar as instalações.

As tendas brancas, de maior dimensão, apenas foram disponibilizadas, aparentemente, para livrarias de maior dimensão, casos da FNAC e Bertrand, por exemplo. Uma situação que, inclusive, terá levado à ausência de certas editoras e livrarias, como por exemplo a Sétima Dimensão, livraria funchalense especializada em BD, que tem sido presença habitual na Feira do Livro do Funchal desde há anos.

As dimensões da Feira, que anteriormente abarcavam o Teatro Municipal, o Jardim Municipal, o Largo da Restauração e outros espaços também se encontram notoriamente reduzidas. Numa tenda instalada no centro da placa central, têm decorrido apresentações de livros e conversas com autores conhecidos, cuja presença ainda se faz sentir na Feira, mesmo que em quantidades mais reduzidas do que nos tempos áureos, quando Maria Aurora coordenava as actividades culturais em torno do evento.

O FN foi encontrar hoje a conhecida escritora portuguesa Teolinda Gersão a falar para uma plateia composta, sobre o seu percurso, as suas opiniões e expectativas sobre a possível perenidade da sua produção literária até à data, e visões da actualidade e do futuro. Continuam a existir algumas personalidades de destaque da cena literária e artística portuguesa a marcar presença, mas as conferências e colóquios que eram organizadas pela Câmara no tempo de Maria Aurora, e que juntavam escritores do continente, da Madeira, de Cabo Verde, de países africanos de língua oficial portuguesa, de Canárias e dos Açores, não passam duma saudosa memória. Diga-se, em abono da verdade, que foi Miguel Albuquerque que lhes pôs fim, via acção do vereador Pedro Calado, alegando custos excessivos. O curioso foi que as Feiras do Livro seguintes não baixaram os custos, antes pelo contrário, aumentaram-nos, com a entrega da organização da Feira a entidades exteriores à autarquia.

Uma realidade incontornável é a de que os próprios livreiros e editoras não apresentam muitas novidades literárias e obras recentes de grande interesse nesta Feira. Antes pelo contrário, na generalidade a diversidade e qualidade literária dos títulos apresentados é muito discutível. Tal dever-se-á, eventualmente, também às dificuldades económicas que os livreiros e editores de mais pequena dimensão atravessam, mas mais seria de esperar das grandes livrarias.

Entretanto, o certame está aí a marcar presença, e a constituir, mau grado os defeitos, uma mais-valia para a cidade do Funchal. A poucas centenas de metros, nas Festas da Sé, as mesas encontram-se preenchidas por pessoas. Que parecem mais dispostas, provavelmente, a pagar por uma refeição, ou seja, alimento para o corpo, do que por um livro, alimento para o espírito.