Não votei em Marcelo Rebelo de Sousa. Apoiei convictamente outro candidato, em quem votei, obviamente, que não ganhou as eleições presidenciais últimas. Sou um, de entre milhões de outros portugueses, que considera, no entanto, que os (quase) quinze meses de mandato deste Presidente da República têm sido cumpridos com equilíbrio, sensatez e uma genuína vontade de unir os portugueses municiando o País para enfrentar os complicados e inultrapassáveis desafios para os quais está convocado nos planos interno, europeu e mundial, numa fase do nosso viver colectivo recheada de incertezas, ameaças, perigos, provocações, desinteligências, redefinições geoestratégicas, realinhamentos ideológicos, novos interesses, renovadas disputas, intempestivas autoridades e egoísmos reacendidos; é, por isso, – e pelo simpático exercício das suas características de personalidade, de temperamento, de capacidade de trabalho e facilidade de comunicação com todos e para todos -, o Presidente, credor de um reconhecimento que, a avaliar pelos estudos de opinião a que temos tido acesso, é tão generalizado que tende para o unanimismo o que, convenhamos, compreendendo, me não exalta sob o ponto de vista do funcionamento da democracia e da sua chama vital: a diferença.
Os portugueses, no entanto, lembram-se das mentiras, – demagogia e mentira não são sinónimos -, das falsas promessas eleitorais, da austeridade a sério, das restrições, dos cortes, dos (enormes) aumentos de impostos, da emigração dos jovens, do insuportável ambiente social criado, da perda de casas compradas com confiança no futuro, dos despedimentos, das privatizações, das ameaças diárias com mais austeridade, – e já se preparavam, o PSD e o CDS, para, entre outras, e pesadas, iniciativas austeritárias, ir aos pensionistas “buscar”, chamemos-lhe assim, mais seiscentos milhões de euros em 2016 -, da arrogância impositiva, dos confrontos com o Tribunal Constitucional, das falências, do desemprego, dos sucessivos orçamentos rectificativos, da ausência de diálogo útil com a oposição, da prepotência, do aumento da pobreza e da miséria, das dificuldades criadas ao Serviço Nacional de Saúde, da descriminação negativa imposta à escola pública, da injusta culpabilização do comum dos portugueses pelos erros e excessos de outros, imunes à fiscalização, à monitorização, à crítica e à punição, da insensibilidade social evidenciada e cruelmente exibida, da agenda ideológica a cumprir contra a maioria da população que tinham jurado servir, da propagandeada ausência de alternativa a toda este cortejo de horrores que “vendiam” com a certeza dos sábios…
Os portugueses lembram-se de tudo pelo que passaram – e as consequências de tudo isso são, ainda hoje, dramaticamente sentidas – e, portanto, sim, a corbeille de boas notícias que vão recebendo, ao longo, e em consequência, do exercício político, económico e social do actual governo, o de António Costa, sentem-na, apesar de tudo, como sendo o resultado dos seus sacrifícios desmesurados, dos adiamentos a que foram obrigados, das suas intranquilidades, dos seus dramas, das suas perdas, das desistências que lhes foram impostas. E, assim, quando o Presidente da República homenageia os portugueses pela capacidade de sacrifício posta ao serviço de Portugal, faz o reconhecimento justo e óbvio a que está obrigado; quando procura associar o governo anterior, o tal do PSD, do CDS, quero crer que com a melhor das intenções, e imbuído do tradicional sentimento de “porreirismo” nacional, – “o que lá vai, lá vai” -, no quadro da pacificação necessária e da harmonização da sociedade portuguesa, acena com uma falsa e idílica unidade que inibe, ou pode inibir, com injustiça e perversidade, o apurar de quem é quem, e das responsabilidades que a cada um incumbem, no evoluir inconstante do País em cada momento da sua História.
É público e notório, para usar uma expressão conhecida, que um abismo separa o governo anterior (2011/2015) do actual (2015/…), e a vantagem, por mais rigor que se exija à análise que se impõe, é, a perder de vista, daquele a que, por se pensar ter sido arquitectado, com habilidade embora, “em cima do joelho” e, logo, condenado ao fracasso a curtíssimo prazo, alguém apelidou de “geringonça”; e que vantagem!
A democracia postula tolerância e diálogo, mas também clareza nas ideias, nas diferenças, nas propostas, nas alternativas, nas escolhas, nas decisões, nos métodos, nas opções, nos estilos, nas sensibilidades e nos comportamentos. E o Presidente da República sabe, e bem, que não é tudo igual, não é tudo a mesma coisa, não somos todos iguais e não defendemos todos o mesmo. Daí que se me revele da maior utilidade e premência que, em cada momento, facilitemos o juízo que a História inevitavelmente registará.
George Santayana, filósofo e apelativo pensador e poeta hispano-americano, afirmava, – e essa sua frase repete-se hoje de forma abundante -, que “quem não recorda o passado está condenado a repeti-lo”. Sou particularmente sensível a este apelo/ameaça à memória. A História deve ter sobretudo esse mérito: recordar-nos constantemente tudo aquilo que, em nome de princípios comungáveis, deve ser pedagogicamente lembrado para que se não corra o risco de ver repetido tudo aquilo que possam ser adversidades intransponíveis no percurso das mulheres e dos homens na edificação das suas vidas.
Não, a amálgama impede o reconhecimento do mérito a quem o tem.
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Nota
No meu texto do passado mês de Maio, “QUE MAIS NÃO SEJA, PELOS NOSSOS”, usei, mal, porque exagerado, o número de portugueses e luso-descendentes a viverem na Venezuela. Tinha, e tenho, consciência disso, mas a ausência de registos fiáveis sobre essa realidade colaborou no erro pelo qual me penitencio. Mas que, por razões óbvias, não corrijo.
Nota: o autor deste texto escreve de acordo com a antiga ortografia.
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