Os não finalistas

 

                Por este escrito partilho convosco (leitores) a minha crença de que existem valores universais e talvez mesmo eternos que devem ser promovidos, defendidos, perpetuados, porque estão acima de qualquer outro valor efémero, particular ou ambíguo.

Quando falamos de finalistas de um ensino secundário temos a expetativa de que o “diploma” correspondente ateste competências de uma socialização secundária. Contudo, os excessos sobremaneira evidenciados dão conta de lacunas que remontam às competências de uma socialização primária. Damos pela falta de valores que começam no primeiro e caloroso colo…

Creio que existem valores fundamentais a serem defendidos e assegurados em cada dia do desenvolvimento de cada indivíduo, para que se possa contar com cidadãos integrados, respeitadores, sensíveis, inteligentes, compreensivos, solidários, capazes de controlar instintos e de se superar a bem de uma sociedade humanizada, responsável e coesa.

Falta educação! Sendo que educar é bem mais do que instruir. Educar e ser educado é ser capaz de viver a verdade, a justiça, a tolerância, a solidariedade, o respeito mútuo, a democracia. Educar é capacitar cada indivíduo para a autonomia, prepará-lo para decidir por si, para fazer escolhas, para valorizar e avaliar com bom senso, para responder com responsabilidade perante os contextos e estímulos mais inusitados e inesperados.

Qualquer que seja o destino ou a atividade escolhida para comemorar a chegada à meta de um percurso académico, a sua vivência deverá refletir, indubitavelmente, regozijo, mas, não menos, dar testemunho do civismo, do socialmente correto, do aprumo, da elegância, do respeito pelo outro, de um nível superior de harmonia e relação social. Lamentavelmente, o oposto se evidencia. Consequentemente, devo dizer, chegaram ao fim, mas não finalizaram essa caminhada, pois o essencial não o adquiriram, não o desenvolveram, não são capazes de o testemunhar pelas suas atitudes e comportamentos.

A questão incómoda é: porquê? A questão incómoda não se coloca porque implica reflexão e essa reflexão resulta num desvio das responsabilidades para um nível e contexto que não são agradáveis… Ainda que se acredite que “o essencial é invisível aos olhos”, muito do que é visível aos olhos não será menos essencial e com repercussões perturbantes e até mesmo incomensuráveis.

Será que falamos de finalistas que atingiram o fim de um ciclo a serem avaliados por testes que medem apenas a capacidade de retenção e reprodução de conteúdos, mas não a interiorização de valores, a transformação de atitudes, o aprimoramento de comportamentos?

Valoriza-se a perfeição na detenção e reprodução de conhecimentos, mas pouco a adaptação à vida, pouco a preparação para uma ação livre, responsável, raciocinante e ética.

Por outro lado, devemos refletir sobre qual será a verdadeira realidade vivida pelos professores diariamente adentro das escolas do nosso país, a realidade que está para além dos resultados estatísticos que enganosamente se baseiam (somente) no número de participações disciplinares…

Orgulhosamente, surgem os defensores das “individualidades egocentristas” justificando os comportamentos disruptivos na sequência de uma transformação pessoal resultado de um efeito de grupo. Efetivamente, tenhamos consciência que os comportamentos de cada criança, adolescente e jovem (de qualquer indivíduo) em contexto e grupo familiar podem não corresponder aos mesmos comportamentos que assumem em contexto escolar (espaços inerentemente coletivos), podendo mesmo chegar a ser completamente díspares/antagónicos. E é claro que a integração ou a intenção de se sentir integrado num determinado grupo condicionam o comportamento de cada indivíduo, para o bem ou para o mal, conforme a dinâmica e os princípios que pautam a coesão do grupo.

Porém, recordo que estes indivíduos e grupos são os mesmos que se encontram adentro das escolas cinco dias por semana! Então será que os comportamentos disruptivos nas escolas devem ser desculpados e até legitimados porque os alunos não têm culpa? Os seus atos são mero resultado de um efeito de aglomeração!? Intrigante é lembrar-nos que a sociedade para a qual a escola prepara e para a qual a escola apresenta finalistas é também ela um mega grupo constituído por vários subgrupos. A escola não é aquele “agente social” onde estão profissionais delegados pela sociedade, “agentes” de preparação para a integração plena dos alunos em sociedade? Se os seus pupilos são tão “perecíveis” ao efeito de grupo como podem ser apresentados à sociedade como finalistas?

Vamos a outro ponto… Lamentavelmente, estamos mergulhados num ciclo societário onde uma significativa parcela da sociedade procura omitir aos seus filhos os problemas, os dilemas que cada família vive, onde se procura desviar as responsabilidades de quem é efetivamente responsável, onde se procura facilitar percursos de vida, subtraindo, a quem está em crescimento e transformação, as dificuldades, as frustrações, os limites próprios da vida. Consequentemente, criam-se personalidades viciadas pelo facilitismo, pela conquista imediata, focadas ou mesmo obstinadas pelos seus interesses pessoais, indiferentes às arduidades alheias, insensíveis, incapazes de se colocar no lugar do outro, audazes numa liberdade constrangedora da liberdade dos outros, manipuladores e pouco resistentes às frustrações, envoltos numa redoma de indiferença e excessos para com aqueles que se prefiguram como um obstáculo à sua expansividade e aos seus intentos. A básica e necessária socialização primária da qual as famílias se demitem porque exige tempo, relação, proximidade; exige dos seus membros empenho na estabilidade emocional dos seus educandos, exige que se conviva com os filhos, exige que se estabeleçam relações afetivas, exige que se ensine a cooperar cooperando, exige que se testemunhe através das relações diárias o respeito pelo outro… Esta imprescindível e estruturante tarefa é cada vez mais negligenciada pelas famílias e atirada à escola.

É necessário despertar em cada criança, adolescente e jovem a compreensão e o sentimento pelos outros, o sentido de pertença a um todo; fazê-los regozijar-se com o bem-estar geral e compadecer-se com os problemas dos outros. Não se pretende que se faça sofrer as crianças, jovens e adolescentes, mas também não é saudável omitir-lhes as dificuldades, o sofrimento, porque são estas “pedras no caminho” que vão permitir a cada indivíduo o reconhecimento do outro, o reconhecimento dos seus limites e das suas potencialidades, prefigurando-se, paulatinamente, como propulsoras do desenvolvimento das suas capacidades de autossuperação.

Há ainda os “paladinos” de que férias são férias e, como tal, todo o indivíduo deve entrar em férias, sendo aceitável que deixe no armário de casa os valores que tem, porque são pesarosos e inconciliáveis com a desejada “fanfarra”. Contudo, os valores são o garante da necessária harmonia e capacidade de estar com os outros, jamais podem ser negligenciados por pretexto de férias ou divertimento.

Cada indivíduo é e deve sentir-se responsável pelos seus atos, independentemente das circunstâncias e condicionalismos externos. É necessário corresponsabilizar cada qual pelas suas opções; é fundamental o apelo à responsabilidade desde o berço. Neste sentido, é necessário que desde a socialização primária (da responsabilidade de cada família) à socialização secundária (iniciada nas escolas e em construção pela vida fora), a par da socialização terciária, se faça cada qual sentir e ressentir-se pelas consequências das suas decisões, dos seus atos.

Por outro lado, há métodos, dinâmicas, conteúdos, disciplinas que têm vindo a “esfumar-se” no sistema de ensino… No currículo não opcional está a fazer falta a educação moral, a filosofia, a ética. As disciplinas que potenciam o desenvolvimento da alma, do espírito, têm perdido conteúdo e horário, abrindo espaço a disciplinas que acompanham o desenvolvimento tecnológico, o materialismo, as necessidades do mercado, negligenciando os valores essenciais que nos distinguem quer de outros animais, quer das máquinas e/ou computadores (inteligências artificiais). É necessário capacitar para as virtudes (disposição para agir bem) intelectuais e morais! É imperioso transformar o indivíduo num cidadão!

A escola continua a ser reprodutora, eu diria cada vez mais reprodutora, porque cada vez mais refém do imediatismo social, económico, tecnológico. Valoriza-se a instrução, a reprodução, uma dimensão quantitativa em detrimento de uma dimensão qualitativa, distanciando-se cada vez mais do pensamento ético-filosófico e da inerente função cívica.

Uma escola sem tempo para que os alunos tragam adentro da sala os seus problemas, os seus desejos, a sua vida, os seus gostos é uma escola apartada dos alunos, desvinculada dos seus reais condicionalismos. Preparar os alunos para a vida em sociedade, implica que eles possam trazer a sua vida em sociedade para dentro da escola, com seus dilemas, suas representações, horrores, medos, preconceitos, crendices, aspirações, afetos… De contrário, continuaremos a ter aquilo que é próprio da adolescência e da juventude, sim, mas com repercussões cada vez mais negativas, ou seja, comportamentos de vingança ou desespero de quem se sente, com razão ou não, incompreendido e sem rumo. A rebelião dos adolescentes e jovens é um fenómeno inerente ao seu desenvolvimento, natural. No entanto, é necessário, com compreensão, informar, esclarecer, tranquilizar psiquicamente as suas inquietudes.  Uma escola que não vive e não se recente com os dilemas dos seus alunos, que não apela aos sentimentos, é uma escola que se quer criadora de utilitaristas e de falsos humanos.

A sociedade e a escola enquanto agente social deve proporcionar condições para o desenvolvimento de cada personalidade, no entanto, esta tarefa de elevação pessoal deve ocorrer a par da assunção de um compromisso de defesa e respeito pela personalidade, integridade e espaço do outro. É indubitável o valor da educação para a liberdade, porém enraizada na educação da inteligência e da razão, como já de outrora bem preconizava Jean Piaget.