Não estamos preparados para o envelhecimento da população e é preciso reformular a rede de apoio sem feriados, sábados e domingos

Lídia Ferreira
“É importante deixarmos de ser autistas e ver o que se faz noutros lados”…“Só assim poderemos ter uma mais-valia e não estarmos sempre a cometer erros”.

Sabe-se que a Saúde é um setor muito sensível e que, tanto política como tecnicamente, deve ser gerido de forma equilibrada, com bom senso, procurando conciliar os interesses dos diferentes grupos profissionais que ali operam a sua atividade, mas sobretudo visando que essa articulação tenha, prioritariamente, como resultado final, um serviço de qualidade e segurança prestado aos utentes.

Sabe-se, também, que nos últimos anos, esta realidade tem sido um pouco vivida num contexto de alguma instabilidade, fruto primeiro das alterações verificadas com a mudança de titular político, de tal forma que já vamos no terceiro secretário regional, mas depois, e como consequência óbvia, das várias substituições de chefias em cada gestão que começa a trabalhar. Juntando esta situação aos problemas que normalmente existem, provoca sempre uma tensão que não seria desejável.

Governante à “prova”

Com Pedro Ramos, veio a esperança, assente naquela classificação de “novo ciclo” que o recém empossado secretário regional da Saúde prometeu. O novo hospital, com vozes contra e a favor, bem como a falta de medicamentos, foram temas que nos últimos tempos estiveram em cima da mesa, entre outros que habitualmente já se encontravam em agenda e na ordem do dia a dia da Saúde. O governante tem sido “posto à prova”.

A falta de medicamentos, mais até do que o Hospital, trouxe um coro de críticas. O Sindicato Independente dos Médicos, através da médica Lídia Ferreira, delegada do SIM na Região, não tem dúvidas que o alarme foi superior à realidade: “O que se passou na Madeira, em matéria de falta de medicamentos, teve a ver com o “timing” em que foram feitas as encomendas, que foram prejudicadas precisamente por alguma instabilidade provocada por sucessivas alterações ao nível do conselho de administração e inclusive de algumas chefias. As mudanças ocorreram em períodos muito curtos e isso tem, necessariamente, reflexos no domínio da disponibilidade de fármacos.

Como profissional, confesso que fiquei chocada quando vi notícias que davam conta de mortos por falta de medicamentos, um exagero claro relativamente à realidade, e que não deixa de provocar uma reação aflitiva no que se prende com o comportamento de alguma comunicação social, ao noticiar uma situação que não correspondia à verdade em termos de gravidade. As falhas foram pontuais, devido ao já referido desfasamento”.

Acho que os fármacos essenciais não falharam

URGENCIAS HOSPITAL NELIO MENDONCA
“É claro que as falhas (medicamentos) não devem acontecer, em qualquer circunstância”.

A delegada do SIM Madeira reforça que “há fármacos que são mais prementes e qualquer conselho de administração, dentro da sua lógica, deve tentar que os mais fundamentais não falhem. Acho que os fármacos essenciais não falharam. É claro que as falhas não devem acontecer, em qualquer circunstância, e a nossa função é defender o trabalho médico e isso representa defender as condições para o exercício dessa atividade, também no que diz respeito aos medicamentos”

Explicar a instabilidade que temos vindo a viver no setor da Saúde, do ponto de vista do Sindicato, é falar em dinheiro ou mais precisamente à falta dele, além da organização na componente do conceito de gestão do setor.

Envelhecimento da população exige mudanças

Para a estrutura sindical “há um processo global a ter em conta, precisamente porque o setor está em permanente mudança em virtude das alterações que ocorrem ao níveis nacional e internacional. O envelhecimento da população enquadra-se nesse contexto, que deve obrigatoriamente estar em cima da mesa quando avaliamos as perspetivas de futuro e as questões organizacionais.

Repare que há dados que indicam que, em 2030, as mulheres atingirão uma idade média de 92 anos e os homens de 87. Quando temos uma estatística destas e um número de nascimentos que ainda não consegue alcançar um equilíbrio na sociedade, estamos perante uma realidade que implica e exige uma intervenção, não só ao nível do médico de família, mas também na vertente hospitalar, que deve ser diferente daquela verificada até ao momento”.

Futuro passa por centros de dia

Lídia Ferreira não tem dúvidas que “a sociedade deve ser reformulada a este nível. Assim como tivemos uma época de preocupação com as creches, agora também somos forçados a ter uma atenção particular pela componente do envelhecimento da população, em termos de pensar seriamente na construção de centros de dia que estejam adaptados aos novos tempos, mas não aqueles centros que têm uma organização complicadíssima, fazendo com que aqueles que não têm capacidade financeira, estejam sujeitos ao arbítrio da seleção, a tal ponto que as famílias ficam sem soluções. É importante construir creches para a terceira idade num conceito igual às creches para a primeira idade, claro com as devidas adaptações tendo em vista as diferenças”.

Mudar o paradigma da Saúde

Agora que estamos numa fase de lançamento do novo hospital, todas essas situações devem ser equacionadas tendo em vista o que será a Saúde do futuro. Lídia Ferreira afirma que é preciso mudar o paradigma da Saúde, que deve ser orientada em função do doente e não em função do clínico ou da instituição. Hoje, a Saúde tem exigências que não são locais, são internacionais. Antigamente, as pessoas iam a vários médicos e faziam diferentes exames, de diversas especialidades, mas presentemente essa realidade está a mudar e de futuro estará assente numa perspetiva de avaliação única do doente, nas instituições, que depois é alvo de intervenção integrada, o que permite ganhar tempo e poupar dinheiro. O centro passa a ser o doente”.

“É importante deixarmos de ser autistas e ver o que se faz noutros lados”, defende, procedendo as correspondentes alterações de acordo com as especificidades de cada realidade. “Só assim poderemos ter uma mais-valia e não estarmos sempre a cometer erros”.

É preciso reformular a rede de apoio

No que toca ao número de camas, que no futuro hospital será reduzido relativamente ao atual, Lídia Ferreira diz que isso já acontece e as pessoas ainda não se aperceberam. Repare que, hoje, já trabalhamos para internamento, com o número de camas que se anuncia para o novo hospital. Isto porque há muitas camas ocupadas com as denominadas altas problemáticas. E porque é que isto acontece? Lá voltamos ao mesmo, não temos infraestruturas adequadas ao envelhecimento da população, não estamos preparados para a nova realidade. É preciso reformular a rede de apoio, sem dias feriados, sábado e domingos”.

Novo hospital é necessário

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Lídia Ferreira diz que “o Hospital Dr. Nélio Mendonça foi um excelente hospital na altura da construção, mas não está adequado aos tempos, além de que será necessário submeter-se a obras…”

O novo hospital, por isso, deve ter todas esta informação em conta e a delegada sindical do SIM tem uma perspetiva positiva desse enquadramento e dessa preparação para a nova estrutura hospitalar. Em primeiro lugar, não tem dúvidas que “o novo hospital é necessário”, e depois considera que “a comissão que estuda o futuro investimento tem vindo a estabelecer contactos com diferentes diretores de setor da Saúde para que sejam operadas as alterações que entretanto são relevantes, atendendo a que o projeto do novo hospital tem algum tempo e exige adaptações. Nota que há empenho nesse sentido”.

Hospital dos Marmeleiros é um perigo

Para Lídia Ferreira, “o Hospital Dr. Nélio Mendonça foi um excelente hospital na altura da construção, mas não está adequado aos tempos, além de que será necessário submeter-se a obras porque as necessidades não param e a construção do novo hospital leva tempo. O Hospital dos Marmeleiros é um perigo para os profissionais e para os doentes”.


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