Hoje no Funchal para uma conferência esta manhã na Escola Secundária de Jaime Moniz, promovida pela editora Leya, o escritor Domingos Amaral afirmou-se, de moto próprio, como um dos mais modernos e multifacetados ficcionistas portugueses, enveredando por diversos géneros, desde a análise da futilidade social e das aparências à ficção histórica, desde o policial à espionagem, desde a crítica de costumes e da visão da complexidade dos amores e desamores à história de Portugal contada de modo apaixonante. Com um extenso percurso no jornalismo e uma escrita literária clara e fluida, as suas obras têm cativado os leitores e granjeado sucesso ao autor. O delegado de português da ‘Jaime Moniz’, Helder Teixeira, organiza a palestra e a docente Fátima Marques fará a apresentação do escritor, que, amavelmente, acedeu a ser entrevistado previamente pelo FN. Aqui fica o resultado dessa conversa cândida.
Funchal Notícias: Como veio a acontecer a sua opção pelo jornalismo, apesar da escolha académica pela Economia?
Domingos Amaral – A meio do meu curso universitário, com um grupo de amigos, lançámos um jornal da Universidade Católica e foi aí que comecei a escrever muito. Talvez por isso, convidaram-me para fazer um estágio no jornal O Independente, e assim começou a minha carreira jornalística, que se foi prolongando ao longo de décadas, em paralelo com a de economista. Acho que foi uma caminho natural para quem gosta de escrever e ao mesmo tempo de economia.
FN – O Domingos Amaral “brilhou”, por assim dizer, n’ O Independente, do qual suponho que tem boas memórias… pode falar-me um pouco da forma como o marcou a passagem por aquele jornal, que até hoje se mantém uma referência incontornável da produção editorial jornalística portuguesa?
DA – O Independente foi uma excelente escola de formação no jornalismo e na escrita, pois escreviam lá os melhores jornalistas e comentadores. Foi fantástico trabalhar com directores como o Miguel Esteves Cardoso e o Paulo Portas e participar com empenho numa odisseia espectacular do jornalismo português. Nunca mais fui o mesmo, a escrever ou a pensar.
FN – Também manteve diversas colaborações com outros jornais e revistas, em alguns dos quais desempenhou aliás funções de direcção. O jornalismo, e a experiência por ele proporcionada, foi para si uma boa escola para a escrita de ficção?
DA – O jornalismo escrito permitiu-me trabalhar diariamente a minha escrita, o que me ajudou muito a escrever livros. Mas, sobretudo o que recordo são as pessoas com quem trabalhei e os projectos em que participei, em especial O Independente e a Maxmen, onde vivi com grande entusiasmo profissional e pessoal.
FN- O seu primeiro livro, ‘Amor à Primeira Vista’, parece introduzir realmente um interesse pelos bastidores da vida pública, pela corrupção, pelo artificialismo da vida social portuguesa… E é o olhar de um jornalista… Como comenta?
DA – O meu primeiro livro, “Amor à Primeira Vista”, não sendo uma obra biográfica, é ainda muito marcado pela minha vida e experiência profissional no jornalismo. Está cheio de televisão, política, jornais. Aos poucos, à medida que me ia tornando mais escritor e menos jornalista, esses universos foram abandonados nos outros livros, mas ajudaram-me muito a dar o primeiro passo na ficção.
FN – O que determinou também em si o interesse pelo género policial, e a construção de curiosas personagens que investigam ou espiam, como Artur César (da PJ) ou, mais tarde, (o espião) Jack Gil?
DA – Sempre gostei muito de livros policiais e de espionagem, por isso explorei também esses géneros, tentando construir personagens interessantes e credíveis, como os que referiu. Mas, acho que os personagens também crescem depois com a vida que levam e nesse sentido, o Jack Gil, do “Enquanto Salazar Dormia”, é certamente um dos personagens mais fortes que criei, pois alia à sua condição de aprendiz de espionagem, uma humanidade perturbada pela guerra em que se vê envolvido, e uma capacidade para coleccionar amores com mulheres fascinantes, com quem se vai cruzando nesses tempos difíceis da Segunda Guerra Mundial.
FN – Além da intriga contemporânea, também enveredou pela ficção histórica, aliás, em certos casos, como ‘Os Cavaleiros de S. João Baptista’, entretecida de certa forma com a realidade mais recente. Por outro lado,’Quando Lisboa Tremeu’ é um exercício notável de construção de uma narrativa situada no passado e no cenário de um acontecimento – o terramoto – que marcou o mundo, seduzindo os leitores e transportando-os para a Lisboa duma outra época… Interessa-lhe particularmente a ficção histórica, um ‘género’ literário que caiu em desuso durante muito tempo e que foi recuperado de modo quase avassalador em tempos mais recentes?
DA – A ficção histórica, os romances históricos, são uma forma de olhar para a nossa história colectiva, para certas épocas, e isso julgo que é uma das coisas que mais gosto de fazer enquanto escritor. Há épocas fascinantes, momentos essenciais, como o terramoto de Lisboa, por exemplo, que são um palco interessante para um romance. É evidente que o interesse dos leitores pela história existe, mas se não formos capazes de os seduzir com bons enredos e bons personagens, eles desinteressam-se. Em cada livro, o que eu tento é construir um universo que entusiasme quem me lê.
FN – Qual a sua opinião sobre as capacidades do policial e da ficção histórica como forma de entrada dos jovens no mundo da literatura e no conhecimento de múltiplos factos de interesse que melhor os ajudarão a questionar o mundo e a desenvolver a sua capacidade crítica?
DA – Quando somos novos, temos muitos interesses dispersos e por vezes os livros não são a primeira prioridade. Mas, se os escritores fizerem um esforço para conseguir construir boas histórias, com componentes criminais e históricas, por exemplo, julgo que é mais fácil atrair os leitores mais jovens. É a minha experiência, falo com muitos alunos de escolas portuguesas e eles gostam das minhas histórias porque elas misturam um pouco de tudo: história, política, crime, amor, sexo. Acho que isso os atrai e os leva a ler.
FN – Em vários dos seus livros está também presente, além da capacidade descritiva dos cenários, uma habilidade especial no jogo do diálogo entre as personagens… até que ponto pode ser o diálogo (soberbamente trabalhado, também, em escritores de referência como Hemingway) o motor de uma boa narrativa?
DA – Penso que num romance devemos saber misturar os ingredientes, como numa sopa. Tem de haver descrição, narrativa, memória, acção e também diálogo. Por vezes, um bom diálogo, mesmo curto, diz mais sobre os personagens e a história do que duas longas páginas descritivas. As pessoas gostam das personagens a falar, gostam das formas diferentes como falam, daquilo que dizem ou não dizem. Os seres humanos passam a maior parte do seu tempo a falar uns com os outros, e julgo que os meus livros tentam reflectir essa característica.
FN – ‘Assim nasceu Portugal’ conta a história da formação do nosso país de uma forma que, penso eu, seria capaz de cativar muito mais facilmente muita gente nova do que o modo árido como muita da nossa História (ainda) é ensinada nas escolas. Teve uma boa experiência com os seus professores de História? Ou descobriu a verdadeira e fascinante dimensão das lutas pelo poder e pelas intrigas que criam e movimentam países, apenas mais tarde?
DA – Desde criança que gosto muito de história, tanto aquela que aprendi na escola, no liceu ou na universidade, como a que me foi contada, pelos meus familiares; ou lida, em livros que eu sempre procurei ler. É certo que muitas vezes os livros de história tradicional não são tão vivos, mas aos poucos fui construindo a minha própria visão da História e procuro nos meus livros mostrá-la aos leitores. Aquilo que hoje é História, foi um dia a vida de muita gente, que no momento nem sequer sabia que estava a fazer história.
É isso que eu procuro mostrar, no “Assim Nasceu Portugal”. O nosso primeiro rei, Afonso Henriques, tinha os seus amigos, os seus amores, o seu feitio, os seus conflitos humanos e familiares, não foi apenas um grande chefe militar que ganhou muitas batalhas.
FN – As complexas relações entre homens e mulheres, o sexo e o amor e as convulsões que deles resultam nas vidas das pessoas também habitam vários dos seus livros, entre os quais ‘Verão Quente’. Será para sempre inevitável a complexidade desses relacionamentos e das pulsões carnais, e, ao fim e ao cabo, alimentar-se-á dessas paixões a arte e a literatura? Somos todos nós, leitores, ao fim e ao cabo, voyeurs de nós próprios, das nossas fragilidades e da nossa natureza? Fale-me um pouco, a propósito, do que tentou fazer em ‘Já ninguém morre de amor’, uma saga familiar que coloca tanta coisa a nu… E, já agora, porque se dirá que “Já ninguém morre de amor?’ A realidade demonstra todos os dias o contrário… Também em ‘Um casamento de sonho’ se abordam as dificuldades dos relacionamentos amorosos e a forma como indelevelmente nos afectam…
DA – Em quase todos os meus livros há sempre uma vida amorosa muito intensa, de quase todos os personagens. Mas, parece-me que é assim a vida de todos nós, o amor entusiasma, baralha, faz-nos sofrer, mas sem ele não sabemos viver e às vezes também não sabemos viver com ele. É esse o caso em “Já Ninguém Morre de Amor”, a vida de homens da mesma família que não sabem amar mas que morrem de amor sem saber que é disso que morrem.
A vida não é só amor e sexo, mas isso é muito importante e nos meus romances tento mostrar isso, o quanto isso nos faz agir, as emoções profundas que marcam a vida dos personagens. Acho que a arte e a literatura sempre foram sobre isso, e o meu livro “Um Casamento de Sonho” também o é, numa época específica, em que a crise económica também vergasta e destrói o amor e os casamentos.
FN – No supracitado livro faz-se também de modo apaixonante a caracterização dum dos períodos mais conturbados da história recente portuguesa. Do passado mais remoto, a sua ficção move-se, em trabalhos como este, para a modernidade… Há algum período da História nacional ou universal que lhe interesse particularmente e por alguma razão especial?
DA – Há períodos históricos que me interessam mais do que outros. O terramoto, a Segunda Guerra Mundial, o nascimento de Portugal, a revolução. No futuro, poderei escrever sobre outros momentos, mas de vez em quando regresso ao presente, como foi o caso de “Um Casamento de Sonho”. Só que, para ser sincero, prefiro os romances históricos, sinto mais liberdade para criar um universo de personagens original, que não seja parecido com aquele em que vivemos.
FN – Os portugueses são muitas vezes definidos como um povo de “brandos costumes”, mas na realidade a violência e a intriga de muitos momentos da História do nosso país desmentem-no. Como se construiu essa imagem do português vulgar e desinteressante, esse olhar semi-simpático, semi-medíocre de nós mesmos?
DA – Acho que essa ideia dos brandos costumes foi vincada mais fortemente durante o Estado Novo. Salazar gostavam muito de o dizer e isso era também uma forma política de controlar o país e a opinião pública. Agora, é verdade que em certos momentos a história de Portugal é menos bárbara do que a de outros países e isso abona a nosso favor.
FN – O futebol é uma paixão bem portuguesa e que inclusive já abordou em livro, na sua múltipla actividade de jornalista, escritor, cronista. Faz a apologia do negócio do futebol, bem pago, bem remunerado com altos salários a jogadores e técnicos. Não é um mundo também muitas vezes pouco transparente e que distrai os cidadãos das coisas verdadeiramente importantes? Como se explica a paixão pelo futebol?
DA – A paixão pelo futebol não se explica, vive-se. Aconteceu-me, desde pequeno que adoro o jogo e tudo o que nele existe. Sim, há áreas pouco claras, há uma enorme indústria de espectáculo, mas tudo isso tem uma razão de ser, é preciso compreender que o fenómeno é mundial. Além disso, Portugal é francamente bom em futebol, para um país tão pequeno. Em quantas indústrias temos o melhor jogador do mundo, grandes treinadores, uma selecção campeã de Europa?
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