As canções

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Não  se  pode  comparar  ninguém  com  ninguém. Cada  qual  é  quem  é  por  seu  próprio  modo  de  ser,  único  e  incomparável,  como  qualquer  elemento  ou  acidente   da  Natureza, ser  vivo,  animal  ou  planta,  ainda  que,  à  custa  duma  geminação,  se  possa  determinar  uma  paridade  entre  criaturas  da  mesma  espécie.  Vivendo  em  comunidade,  de  uns  para  os  outros  transitam  correntes  de  informação  que  se  vão  assimilando,  sobre  as  quais  os  criativos  vão  construindo  seus  produtos,  sem  que  por  isso  se  tenha  permanentemente  que  evocar  as  nascentes,  quando  o  que  interessa  é  o  rio,  a  força  dum  caudal  que  gera  novas  e  diferentes  energias  e  virtudes. E  o  rio,  embora  beba  na  nascente,  apenas  cresce  e  se  avoluma  graças  às  afluências  que  o  vão  alimentando  durante  o  percurso.  Assim  são  as  canções.

As  canções  são  rios  que  atravessam  o  mundo, onde  a  música  se  cumula  de  palavras  significativas,  levando  seus  recados  aos  povos,  recados  que  falam  de  anseios,  alegrias  e  descontentamentos,  amores  e  desamores,  virtude  e  libertinagem, revoltas  e  medos,  dores  e  espantos,  juventude  e  morte: crónicas  de  vida  e  sentimento. Enorme  caudal  que  se  compõe  da  história  de  todos  nós,  em  cada  voz  que  canta,  em  cada  poema  que  expressa,  em  cada  música  que  sublima. A  extensa  variedade  de  formas  com  que  o  canto  se  apresenta  reflecte  um  manancial  criativo nem  sempre valorizado  pelos  mais  desatentos, contido  em  soberbos  hinos, grandiosas  gestas,  sumptuosas  cantatas, bucólicas  baladas, trovas  de escárnio e  maldizer,  de  lamento,  de  amor  e  de  ninar,  de  protesto  e  intervenção.  Em  cada  uma  destas  formas   há  sempre  um  momento  de  vida  intensamente  sentido  à espera  de  ser  partilhado. O  suporte musical  que o  transporta  favorece  a  atenção  do  povo  que dele  se apropria  e lhe  concede  a  sua  própria  voz. Sendo  um  acto  íntimo  e  libertador  de  grande   amplitude tem  assim  uma  função  salutar e  ao  mesmo  tempo  agregadora  duma  sociedade  que  se  identifica  pelo  mesmo  modo  de  sentir. Guy Erismann,  através do  estudo  da  canção,  concebe ser possível  «fixar os  traços  essenciais  e  permanentes  das  linhas  do  coração  e  da  vida.»

«Canção,  canto  ou  encantamento»  é  a  deriva  do  latim «cantione»  e  é  um  modo  simples  e  imediato  de  expor  também  o  sentimento  estético  que  reside em  cada  ser  humano,  as  mais  das  vezes  embotado pelo  desgaste  cotidiano.  A Literatura  salvaguarda  este produto artístico nos  seus  Cancioneiros e são  conhecidos  o português  de  Garcia  de  Resende; o  de Baena, primeiro  em  língua  castelhana; o  de  Francesco  Petrarca  e  a  compilação  de  músicas espanholas  da  Renascença,  Vilancicos  a  duas,  três,  quatro  e  cinco  vozes, reunidos no Cancioneiro  de  Upsala, chamado  assim  por estar a  salvo  nesta  cidade sueca. Sabe-se  que a Poesia  nasceu   neste  lugar  do  canto,  entre  violas  e  alaúdes  e  continua  a  dever  à  música  a  sua  raíz  rítmica,  o  encantamento  dos  sons,  e  à  palavra  que  disto  se  não  dissocia,  os  respectivos  eflúvios  e  sentidos  mais  profundos.

Grandes  canções  marcaram  importantes épocas  da  História  dos países,  durante  períodos  de  conflitos  políticos  e  lutas  populares. E cada país  tem no seu panorama  musical,   formas tradicionais  de  canção com  características  próprias,  como  a  Jota  espanhola , o  Fado  português, a  valsinha  musette  francesa,  ou  o  Pagode  e  Samba  brasileiros.

A História  da  Canção  coincide  com  a  História  da  Comunicação, pela  palavra poética,  pela  música,  excelentes  criadores  e  interpretes foram  seus protagonistas  e há  canções  de  há  cem  anos  que  ainda  hoje  se  ouvem  com  enlevo  e  comoção.  “Le  Temp  des  Cerises”, escrita  em  1866 por  Jean- Baptiste  Clément,   é  associada  à  Comuna  Francesa  de 1871. “Grândola Vila Morena”,em 1975, marcou,  pela  voz  de  José  Afonso, o  tempo  libertário  da  Revolução  Portuguesa.

Chego  agora ao  limite  desta  página  que me obriga a ficar  por  aqui, mas  ainda  me deixa    evocar, por  razões  óbvias, dois  cantores-poetas  contemporâneos  que a veleidade de alguns  impensados  pretende  comparar. Entre  Bob  Dylan  e  Leonard Choen  não  conta  nenhuma  distância. Nem  a  distância  dum poema,  nem  a  distância  do  tempo. O  mérito  de  cada  um  está  na  história  por  eles  traçada  no  tempo  certo das  nossas  emoções. Leonard Choen  num expressivo  discurso  no momento  em que  recebeu  o  prémio Príncipe  das  Astúrias  disse: «Eu  não  sei  onde  está  a  Poesia. Se  eu  soubesse  ia  lá».  Espantoso  vaticínio  que  me  faz  pensar que  o  poeta  vai  já  a  caminho.


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