Porque não sou monárquico

icon-gabriel-pita-opiniao-forum-fnNo dia 5 de Outubro de 1910, encerrou-se um capítulo importante da História de Portugal. Após 767 anos de regime monárquico, foi proclamada a República.
Durante a primeira experiência do novo regime, 1910-1926, a comemoração desta efeméride congregava uma plêiade de personalidades que haviam combatido pelo triunfo da República nos finais da Monarquia, a que se juntava muito povo, apesar de cada vez mais desiludido com as promessas anunciadas e não cumpridas. Depois, com o advento da Ditadura Militar, legalizada pela Constituição de 1933, só os mais convictos da grandeza dos ideais republicanos e os mais corajosos se atreviam a comemorar esse dia.

O Salazarismo, embora mantendo a forma republicana do Estado e iludindo os monárquicos com palavras e atitudes dúbias com respeito à possibilidade de restauração da Monarquia, para assim os manter afastados da liça política e contentar os partidários desse regime que haviam aderido ao Estado Novo, justificava o seu autoritarismo com a instabilidade política e social da I República. Humberto Delgado, um dos tenentes do 28 de Maio de 1926 e salazarista convicto até a década de 1950, escrevia em 1933: “O povo soberano pela boca do seu soberaníssimo parlamento, cuspia, falava, berrava na grande fábrica da destilação da saliva, que era S. Bento. (…) Eu julgava o parlamento uma assembleia de homens e fui deparar com uma súcia de garotos dizendo piadas de sol uns aos outros, num barulho indecente, próprio de praça de touros ou de taberna. E era aquilo a soberania do povo!” (Da Pulhice do Homo Sapiens, pp.102-103).

Após 1974, com a restauração da democracia, o 5 de Outubro voltou a ser comemorado com dignidade, nos primeiros anos com entusiasmo, depois cada vez mais como um ritual. Hoje, para além das comemorações oficiais, vai transformando-se num ritual, pretexto para um dia de lazer. A falta de cultura política, o descrédito das instituições e dos políticos e a lei da vida que vai remetendo para o esquecimento o que vai passando, contribuem para explicar o fraco entusiasmo com que se comemora hoje o triunfo do regime democrático.
Respeito aqueles que continuam a aspirar pela restauração da Monarquia mas não tenho dúvidas sobre a superioridade do ideal republicano, mesmo se a Presidência da República em Portugal comporta uma despesa maior que a manutenção da casa real espanhola, por exemplo.

Nesta sociedade globalizada, em que a soberania popular vai sendo cada vez mais substituída pela soberania dos grupos financeiros, até um dia que ainda espero que chegue, não nos tirem a possibilidade de escolher os nossos governantes e de expulsá-los do poder se julgarmos necessário. A existência duma família privilegiada a nos governar, com um séquito de famílias também hereditariamente privilegiadas, é uma aberração do passado, comporta uma visão elitista da sociedade com a qual não posso concordar.

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Caricatura de R. Bordalo Pinheiro a propósito da eleição dum deputado republicano pelo Funchal em 1882, in semanário António Maria 30-11-1882.