Venezuela: Há pessoas a alimentar os filhos com o pó do café que tiram do lixo

Foto: Filas para adquirir produtos em Supermercados- Venezuela
Foto: Filas para adquirir produtos em Supermercados- Venezuela

Um dia depois do presidente Venezuelano, Nicolás Maduro, ontem, 4 de Outubro, ter anunciado que não haverá referendo para revogar o seu mandato e que a prioridade nacional é recuperar a economia, não realizar eleições, o Funchal Notícias conseguiu chegar à fala com dois emigrantes madeirenses que se encontram há mais de 30 anos naquele país e que relataram situações graves de fome e de insegurança. “Já passamos por situações complicadas e desde que estamos na Venezuela, já lá vão mais de 30 anos, que vivemos momentos difíceis. Só que actualmente a situação em Caracas e em todo o país é demasiado complicada. Temos medo de sair de casa e há muita fome. Só quem tem muito dinheiro é que consegue ter para comer”, conta ao FN um emigrante madeirense que pede anonimato por questões de segurança.

Segundo este emigrante os preços de tudo, nomeadamente, bens de primeira necessidade, como pão, açúcar, leite, farinha, carne, aumenta de semana para semana e não há matéria-prima para fazer nada. “O ordenado mínimo de agora não dá para comprar a cesta básica para alimentar uma pessoa. Há muitas famílias a passar fome. “Temos uma empregada de limpeza que vai ao nosso lixo e tira o pó do café que nós fazemos na máquina para ferver em água e com isso alimentar os filhos e os sobrinhos”, revela.

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Foto: Caracas. wikipédia

Este mesmo emigrante explicou ao FN que não consegue arranjar açúcar para casa há mais de três semanas, não há e mesmo que tenham muitos bolívares é impossível de arranjar. “Nunca vi isto assim, é de chorar, mas não podemos sair daqui, temos aqui tudo, casa, família e temos de sobreviver com o que conseguimos arranjar”, conta.

A situação é grave também com os medicamentos. “Apesar de termos alguns recursos económicos vou à farmácia e não consigo os medicamentos que precisamos. Há um doente acamado na família que precisa de uma medicação semanal, que não pode falhar e neste momento, não estamos a conseguir encontrar em lado nenhum de Caracas. Não sabemos o que fazer”, desabafa.

O relato de outra família emigrante madeirense, também com mais de 30 anos de Venezuela, não é mais animador. Aceitaram falar ao FN também de forma anónima por medo de represálias por parte do Governo, “temos negócios e se abrimos a boca amanhã podemos ficar sem nada”, dizem com receio. “Este país tem tudo para dar certo, é rico, mas está mal gerido e agora o que temos mais medo é da insegurança. Já fomos assaltados no último ano por duas vezes. Temos medo de sair de casa, de levar as crianças à escola de ir ao supermercado. Olhamos para todos os lados com desconfiança e cada passo que damos temos de ter quatro olhos”, explicam.

Foto: Blog- tiremaosvenezuela
Foto: Blog- tiremaosvenezuela

Esta família continua a trabalhar todos os dias, nos arredores de Caracas, e tenta fazer a sua vida normal, contudo, confessa que depois das três da tarde já têm de ir para casa porque o medo impera em cada esquina. “Estamos no trânsito e o coração está sempre aos pulos, a pensar que a qualquer momento, podem nos assaltar, nos matar, a escalada de violência é tremenda”, revelam, acrescentando, que como há muita fome começa a confundir-se “a fome e o vandalismo”.

Crianças mendigam à porta dos estabelecimentos para que lhes matem a fome 

De acordo com os relatos que foram feitos por estes dois emigrantes ao FN há um aproveitamento dos “bandidos para assaltar em nome da fome. Mas quem realmente tem fome, que são os verdadeiros pobres, agora mendiga nas ruas. “O que mais se vê agora é crianças a pedir à porta dos bares, dos restaurantes, dos cafés, mas não pedem dinheiro como antigamente, mendigam para que lhe matemos a fome. “Senhor por favor tenho fome, consegue arranjar um pouco de pão para comer, para mim e para os meu irmão que está lá fora”, é o que mais tenho ouvido nas últimas semanas”, revela.

Foto: Bairro arredores de Caracas
Foto: Bairro arredores de Caracas

Estes dois relatos são apenas um desabafo de uma comunidade que tem medo de falar mas que define muito os sentimentos de quem trocou há muitos anos a Madeira por um “el dourado chamado Venezuela”.  “Sei os riscos que corro, mas alguém tem de falar e muitos pensam como eu porque aqui na nossa Venezuela falta tudo e isto é um país que precisa de ser mudado”, declara.

De referir que actualmente na Venezuela falta tudo pão, farinha, arroz, leite, açúcar, sal, carne, produtos de higiene pessoal, nomeadamente, pasta dental, champô, fraldas, medicamentos e muitas outras coisas.

Foto: Wikipédia
Foto: Wikipédia- Avenida Francisco de Miranda

Há também filas enormes, nos supermercados, “parecem bichos a procura de tudo mas as prateleiras estão vazias, não há nada. O que mais acontece, neste momento, é as pessoas a trocaram um produto pelo outro, se um amigo tem açúcar e eu tenho farinha trocamos e assim vamos suportando este calvário”, desabafam.

Os filhos, nascidos na Venezuela, estão cada vez mais desanimados com o seu país e com o governo e ponderam sair em breve do país e procurar um futuro melhor noutra pátria.

Instigados a comentar o facto de estarem pessoas a morrer por falta de medicamentos nos hospitais as nossas fontes revelam que é verdade, “quem não tem seguro de saúde e tem de ir para os hospitais públicos está sujeito a morrer, porque lá não há nada. A parte da saúde privada ainda se vai aguentando, já com muita dificuldade para encontrar medicamentos, equipamentos e materiais clínicos, mas quem não tem dinheiro morre e todos os dias morrem muitos”, asseguram.