
Muitas críticas às consequências nefastas do neoliberalismo selvagem e da plutocracia que actualmente domina o pensamento dos líderes mundiais, inclusive de organizações como a própria União Europeia, estiveram presentes nas palavras dos apresentadores do livro de Eduardo Paz Ferreira. O lançamento da obra ‘Por uma sociedade decente’, com a chancela da editora Marcador, decorreu esta tarde na Reitoria da Universidade da Madeira, no Colégio dos Jesuítas, e congregou três personalidades de quadrantes políticos diferentes, nomeadamente Francisco Faria Paulino, Ricardo Cabral, vice-reitor da UMa, e Alberto João Jardim.

Ricardo Cabral foi o primeiro a falar, elogiando a “lucidez” de que, considerou, o autor dá conta neste livro, e a sua estatura intelectual. Sublinhou que é particularmente interessante o modo como Eduardo Paz Ferreira explica como a onda neoliberal que se iniciou nos anos 70 do século XX prosseguiu para gerar, no futuro, “anos terríveis” nos quais se acentuaram as operações duvidosas do mercado financeiro, se desregulou a alta finança internacional, e se acentuaram as desigualdades sociais. Temas também aflorados pelos outros apresentadores, que também deram conta do modo como uma globalização desumanizada cavou fossos na sociedade, tornando-a mais parecida com a do passado, em que existiam ricos muito ricos e pobres muito pobres, e quase nenhuma classe média de permeio.
Os ricos, acusaram, não querem partilhar liberdades com pessoas de menores rendimentos. E, com a tendência reducionista dos salários e dos rendimentos dos mais fracos, diminuem também os direitos dos mesmos.
O caso da banca portuguesa e das suas sucessivas recapitalizações por parte do Estado foi abordado, para ilustrar como as políticas neoliberais afectam o todo da sociedade, e não apenas o património dos poderosos. Estes, sustenta Eduardo Paz Ferreira, deveriam ser sujeitos a maior carga fiscal. A regulamentação estatal dos mercados é, por outro lado, essencial, entende este professor de Direito e autor de diversas obras de cariz sociológico, económico ou no domínio da ciência política. Ricardo Cabral considerou o livro “estimulante” na forma como aborda a necessidade de se tomarem políticas públicas que atentem na situação dos mais desfavorecidos, e não apenas das classes dominantes.

Faria Paulino, por seu turno, reflectiu na alegria futebolística portuguesa, a que assistiu na capital, quando a nossa selecção de futebol venceu o Europeu, e saudou-a mas considerou que a mesma também se inscreve “num novo circo romano de glória”, que agrada às populações que tanto necessitam de pão.
Classificando de “sábio e necessário livro” a obra agora lançada na Madeira, considerou que a mesma torna acessíveis “complexas realidades” e o modo como “pouco a pouco começaram a ser destruídas as esperanças a partir da década de 70”, com a ascensão de uma perspectiva sociopolítica mundial que consubstancia “uma mentira vendida com arrogância”, mas na qual, no fundo, a motivação pelo interesse público é pouca: a ideia de que o Estado pouco deve interferir e que os mercados podem auto-regular-se.
“O estado a que chegou o Estado não é bom”, disse Faria Paulino, que referiu que esta obra aborda também a queda do sindicalismo, a ganância do lucro que se sobrepõe à necessidade de quem precisa, e os tempos de confronto que se avizinham, entre os que defendem uma sociedade mais justa e os apologistas do “a cada um a sua sorte”.
O autor, referiu Faria Paulino, interroga-se sobre o modo de fazer das pessoas bons cidadãos, solidários. Paulino aproveitou para criticar o novo presidente da Goldman Sachs, Durão Barroso, ex-presidente da Comissão Europeia, e, voltando a referir-se ao Euro de futebol, defendeu que o contentamento passageiro não deve limitar-se a estas alturas, mas deve rever-se nos muitos “Ronaldos” portugueses que ajudam a impulsionar o nosso país nas mais diversas áreas, inclusive do saber. Terminou lembrando Martin Luther King e a sua afirmação de que o que mais temia “era o silêncio dos bons” e não a maldade dos perversos, pois que essa já é de esperar.

Já Alberto João Jardim considerou Eduardo Paz Ferreira uma personalidade esclarecida cujos livros muito incentivaram a sua perspectiva sobre a política e o mundo, e afirmou que se revê no modelo de revolução pacífica preconizado pelo professor de Direito.
“O autor desafia o pensamento único”, escondido “sob a capa de um pluralismo que já não o é”, disse o ex-presidente do Governo Regional. Criticando o espectáculo representado actualmente pelos grandes poderes, Jardim prosseguiu para demonstrar de que modo a obra de Paz Ferreira denuncia o colapso do Estado Social, criado depois da Segunda Guerra Mundial, e a quebra de qualidade dos dirigentes políticos.
“Com melhores salários teremos mais procura, mais consumo”, e mais crescimento sustentado, defendeu Alberto João, contrariando a tendência de baixos salários preconizada por empresários e gestores políticos.

Para Jardim, o pensamento do autor deste livro aproxima-se da doutrina social da Igreja e das advertências do papa Francisco. Aproveitou ainda este orador para criticar a situação da Europa actual, na qual existe “um controle capitalista sobre a comunicação social”, entre outras instituições.
A obra, salientou Jardim, demonstra que o problema da pobreza não é exclusivo dos países menos desenvolvidos.
Terminou denunciando a plutocracia com a qual convivemos todos hoje em dia. Por seu turno, Eduardo Paz Ferreira agradeceu a forma “generosa” como avaliaram o seu livro e falou da universidade como um espaço igualitário por excelência, capaz de conferir as mesmas competências e oportunidades a todos: “Não podemos continuar a admitir que só os filhos dos políticos sejam políticos, os filhos dos economistas economistas”, e assim por diante, num ciclo dinástico que exclui os mais capazes, referiu.
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