“A Alegria do Amor” – A nova Exortação do Papa Francisco

padre-marcos

Numa das suas primeiras viagens apostólicas, o Papa Francisco anunciou a vontade de fazer sentar toda a Igreja num sínodo sobre a família. Manifestou, também, a vontade de reformar os procedimentos, tendo em vista a declaração de nulidade dos matrimónios. Os novos procedimentos entraram em vigor no dia 8 de dezembro de 2015. Uma grande revolução.

Depois de ouvir o sentir do povo cristão, através de um questionário enviado para todas as paróquias, o Papa reuniu, no Vaticano, os padres sinodais, bispos do mundo inteiro, sacerdotes e leigos, ao longo de dois grandes encontros. Depois de aprofundar, com liberdade, questões doutrinais, morais, espirituais e pastorais, o Papa publicou a Exortação pós sinodal sobre a família, “A Alegria do Amor” (AA).

Estamos diante de um manual de amor; um grande documento, formado de nove capítulos, trezentos e vinte e cinco pontos, que jamais pode ser reduzido à uma ou outra questão. Percebe-se de imediato uma nova linguagem cheia de esperança, fruto de grande experiência e de conhecimento da realidade. A doutrina não muda, mas há uma revolução na disciplina, na pastoral, na aplicação da doutrina como meio de salvação e não como pedra atirada às pessoas. Surgem expressões importantes como “acompanhamento”, “discernimento” e “integração”. Há caminho para todos. A chave de leitura é a misericórdia. Cai por terra a mentalidade de que faz falta uma norma geral e abre-se caminho ao discernimento, diante de situações diversificadas. O Papa responsabiliza a consciência de cada um e chama a atenção para a formação das consciências. A Exortação abre caminhos novos, ainda não definidos, e que necessitam de amadurecimento e da consciência de que a Exortação é também uma continuação e não uma ruptura com o passado. É antes, um convite a continuar a caminhar e a pedir uma verdadeira conversão pastoral.

A exortação irá tratar de variadíssimos temas sobre a família: o olhar sobre a realidade atual; aos aspetos mais doutrinais e bíblicos; o olhar de Cristo sobre o amor, o matrimónio e as fragilidades, a preparação para o matrimónio, a vida e o amor do casal, o nascimento e a educação dos filhos, a transmissão dos valores e da fé; e as questões pastorais para acompanhar, discernir e integrar a fragilidade. A Exortação abre enormes desafios a todos nós e à pastoral da Igreja.

Diante de um documento tão vasto e rico, quero, por agora, sublinhar três pontos.

O primeiro é reafirmar que o caminho da Igreja é sempre o caminho e o olhar de Cristo.  Diz-nos o Papa que duas lógicas percorrem toda a história da Igreja: marginalizar ou reintegrar. O caminho da Igreja é o caminho de Cristo, é o caminho da misericórdia e da integração (AA, 296). Surgem frases fortes como esta: “O caminho da Igreja é o de não condenar eternamente ninguém; derramar a misericórdia de Deus sobre todas as pessoas que a pedem com coração sincero” (AA, 296). Falamos de uma Igreja-mãe que acolhe e ama todos os seus filhos e que para cada um, em qualquer que seja, a situação em que se encontra, há sempre um caminho.

O segundo ponto é um convite a ler a Exortação. Como seria bom que os namorados, os noivos, os casais pudessem ler juntos esta exortação. Convido-os, particularmente, a sentar-se e ler juntos o capítulo quarto, sobre o amor no matrimónio. Uma página por dia. Devagarinho. Este capítulo é o núcleo de todo o documento. O Papa medita sobre o amor, a partir do hino da caridade, de São Paulo (1 Cor 13). Fala da paciência, do saber controlar impulsos e não deixar que a ira tome conta do nosso coração ou do nosso agir.  Aprender a capacidade de aceitar o outro. Aprender a olhar para o amor não apenas como sentimento mas como ação. Fazer o bem ao outro. O Papa cita São Inácio de Loyola: “o amor deve ser colocado mais nas obras do que nas palavras” (AA, 94). No amor não há lugar para o ciúme ou para a inveja. O verdadeiro amor aprecia os sucessos alheios. Amar é ser humilde e não dominar o outro ou humilha-lo. A lógica do amor é a lógica do serviço e não do domínio. Amar é também tornar-se amável, o amor não é agir de forma rude, quer nos gestos ou atitudes, quer nas palavras. Nunca terminar o dia sem fazer as pazes em família. Aprender a capacidade de perdoar o outro. De perdoar-se a si mesmo. Aprender a confiar no outro. A crescer um com o outro. Viver alegrias e ser forte diante dos desafios e das crises. Dizer “com licença”; “obrigado”; “desculpa”. Três palavras que nunca podem faltar num matrimónio e dentro da família. O casal e o valor do diálogo: “reservar tempo, tempo de qualidade, que permite escutar, com paciência e com atenção, até que o outro tenha manifestado tudo o que precisa de comunicar” (AA, 136); “Muitas vezes um dos cônjuges não precisa duma solução para os seus problemas, mas de ser ouvido” (AA, 136); “É importante a capacidade de expressar aquilo que se sente, sem ferir” (AA, 139). Importante no diálogo “é ter algo para dizer; e isto requer uma riqueza interior que se alimenta com a leitura, a reflexão pessoal, a oração e a abertura à sociedade. Caso contrário, a conversa torna-se aborrecida e inconsistente” (AA, 141). Aprender a viver o prazer, o desejo, as emoções, a alegria e a ternura (AA, 147-152). Num mundo com tanta violência doméstica, não poderia faltar uma palavra sobre a violência e a manipulação. O amor exclui todo o género de submissão. O Papa fala também do amor ao longo do tempo. Fala das mudanças físicas e da beleza inalterável dos que amamos. Do sim que se renova a cada momento e a cada etapa da vivência a dois.

Finalmente, o terceiro ponto: a educação dos filhos e a transmissão de valores e da riqueza da fé. Um dos grandes desafios do tempo presente é a educação e também um sim à educação sexual, no contexto de uma educação para o amor, para a doação mútua (AA, 280). Na vida e na missão da Igreja, é também importante o anúncio e a transmissão da fé. Para os pais não é fácil educar no meio de vidas feitas de horários e correrias e da complexidade do mundo atual. “Apesar disso, a família deve continuar a ser lugar onde se ensina a perceber as razões e a beleza da fé, a rezar e a servir o próximo” (AA, 287). Os pais são os primeiros e os melhores catequistas para os seus filhos. “É fundamental que os filhos vejam de maneira concreta que, para os seus pais, a oração é realmente importante” (AA, 288). Os pais devem ajudar a amadurecer e a desenvolver a fé dos seus filhos. Isso acontece com sinais e gestos simples, como uma mãe que ensina os filhos pequenos a enviar um beijo a Jesus ou a Nossa Senhora. Como é bom para os filhos os pais que confiam em Deus, que O procuram, que precisam d’Ele. A  fé ilumina e liga todos os acontecimentos da própria família (AA, 317). A vivência da Eucaristia, em família pode ajudar muito no caminho do amor. Uma família que se alimenta da eucaristia e reza unida, permanece unida e unida vive as alegrias e as tristezas, próprias da vida.

Termino com as palavras do Papa: “Querer formar uma família é ter a coragem de fazer parte do sonho de Deus, a coragem de sonhar com Ele, a coragem de construir com Ele, a coragem de unir-se a Ele nesta história de construir um mundo onde ninguém se sinta só” (AA, 321).

Muito podemos dizer sobre “A Alegria do Amor”. Ficam estes três pontos para criar a vontade de a ler, de refletir nela e de a concretizar.


Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.