PS fica sozinho ao querer adaptar plano da ACIF ao turismo da Região

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Fotos: Rui Marote 

O PS pretendia brilhar hoje na Assembleia Legislativa Regional com a sua apresentação de um projecto de resolução que recomendava ao Governo Regional a adaptação urgente do plano estratégico para o turismo da RAM elaborado pela ACIF-CCIM, de modo a ser possível a sua adopção pela Região, como estratégia do destino Madeira. Mas o ‘tiro’ ter-lhe-á saído pela culatra, uma vez que não conseguiu de modo nenhum colher a concordância da restante oposição – e o PSD aproveitou-se disso mesmo para denegrir a proposta socialista.

O líder parlamentar socialista, Jaime Leandro, bem fez a apologia da razão de ser da proposta do seu partido. Repetiu insistentes críticas do seu partido ao Governo de Miguel Albuquerque, que, na opinião do PS, muito prometeu e pouco cumpre. E, nesta matéria de turismo, tão importante para a economia da Região, um ano depois do governo regional ter entrado em funções, muito pouco se sabe sobre o que quer realmente para o sector.

“Não há estratégia para o destino Madeira” – criticou. “Também na área do turismo nada se faz, passado um ano de Governo”. Apesar de admitir que houve uma melhoria na actividade turística da RAM, atribuiu esse período mais favorável à instabilidade política nos países do norte de África, aos conflitos regionais no Magrebe e no Médio Oriente, que têm afastado as pessoas de destinos tradicionalmente muito concorridos.

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Francisco Nunes, do PSD, pôs o dedo na ferida: o documento estratégico da câmara do comércio do Funchal para o turismo não passa disso mesmo, dum documento orientador, dum diagnóstico para o turismo. Considerar, como assevera o dito estudo, que a Madeira, em quatro anos, tem potencial para aumentar os postos de trabalho no sector do turismo de seis mil para nove mil, tem alguma credibilidade? Além do mais, o documento da ACIF não leva em conta a negociação do Contrato Colectivo de Trabalho para o sector da hotelaria, não leva em consideração a opinião dos sindicatos, não ouve outras entidades. Uma perspectiva que seria enfatizada pelo deputado social-democrata Carlos Rodrigues, após os outros partidos da oposição parlamentar se terem pronunciado.

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José Manuel Coelho, do PTP, considerou que o plano estratégico para o turismo tem de ser mais amplo, devendo ser auscultados os sindicatos, os taxistas, os profissionais que trabalham relacionados com o sector do turismo em múltiplos aspectos. Uma opinião partilhada pelo comunista Ricardo Lume, que inclusive apontou baterias à ACIF pela maneira como tem contribuído para prejudicar a qualidade do serviço na hotelaria, ao insistir na manutenção de condições deficitárias para os profissionais da hotelaria, que inclusive a acusam de não querer negociar melhores condições de trabalho para aqueles profissionais e de impedir a actualização de salários.

Por seu turno, o deputado Gil Canha classificou de absurda a pretensão de que um governo fosse buscar a sua estratégia para o turismo, algo de grande responsabilidade, a um estudo da ACIF.

Rodrigo Trancoso, do Bloco de Esquerda, foi mais conciliador, dizendo que se há algum mérito nesta proposta do PS, é o de levar os deputados à constatação de que deve ser ouvido um amplo conjunto de entidades sobre esta matéria do turismo, para que se consensualize e se articule a actuação dos diferentes intervenientes com responsabilidades e papéis a desempenhar.

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“Há que haver responsabilidade para unir esforços e ouvir todos os responsáveis, não apenas os empresários”, defendeu. “O turismo é demasiado importante para criar guerras artificiais”.

Já o deputado centrista Lino Abreu declarou, numa outra perspectiva, que este estudo da ACIF é sério, deve ser tomado em consideração e merece credibilidade, embora o seu partido entenda que não deve ser o único factor a nortear a estratégia do Governo Regional.

“O que não é serio”, opinou também, “é que o Governo Regional prometa um plano para o sector, e depois, passado um ano, não faça nada”.

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foto LR

Neste sentido, denunciou que ninguém sabe, concretamente, qual é a estratégia do Governo Regional para a promoção do destino turístico Madeira na Bolsa de Turismo de Lisboa, que agora se inicia.

“O que há é navegação à vista, a olho”, passado um ano. Algo muito criticável, no seu entender, porque era erro que era insistentemente apontado ao Governo anterior, de Alberto João Jardim.

Jaime Leandro bem tentou insistir que o documento da ACIF “era um bom ponto de partida” para a estratégia governamental que se pretende, mas foi atacado pelo social-democrata Carlos Rodrigues, que acusou mesmo o PS “de fazer o servicinho da ACIF”, evitando ouvir municípios, economistas, sindicatos, associações culturais e recreativas e toda a restante panóplia de intervenientes.

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foto LR

“Em vez de apelar ao Governo para que leve em consideração certos objectivos estratégicos”, criticou, o PS prefere apresentar um simples estudo feito por outrém, ao invés de propor as suas próprias soluções para o que acha que está mal. “Faça algum trabalho”, desafiou ao partido de Jaime Leandro.

Entretanto, a sessão plenária de hoje teve outros momentos dignos de nota. Como por exemplo os ataques de Jaime Filipe Ramos (PSD), no período de antes da ordem do dia, ao governo da República, e por extensão, ao PS. Para o deputado social-democrata, o orçamento de Estado favorece o arquipélago dos Açores, facto relacionado, em seu entender, com a realidade de ainda este ano ocorrer um acto eleitoral na região onde o PS é governo.

Outro aspecto, e não de somenos importância, que foi abordado no período de antes da ordem do dia foi a recorrente falta de medicamentos na farmácia do hospital. O Bloco de Esquerda foi particularmente crítico deste aspecto, denunciando a ruptura sistemática de retrovirais, medicamentos essenciais para o tratamento de doentes com HIV, que inclusive já foi denunciada por um organismo nacional, e que compromete o tratamento das pessoas.

Também os doentes cancerosos já se viram afectados pela falta de medicamentos, nomeadamente os doentes que padecem de esclerose múltipla. “É quase uma fatalidade”, disse Roberto Almada, esta situação de faltas recorrentes de medicamentos, que afecta no dia-a-dia até os doentes internados. O Bloco apresentou um protesto contra esta situação, que pretende que seja votado favoravelmente pelos deputados.

Sílvia Vasconcelos (PCP) corroborou a intervenção de Almada, reforçando que “medicamentos desta importância não podem faltar”, dada a gravidade de que se reveste uma ruptura de stock.

Também José Manuel Coelho considerou uma “clamorosa injustiça” que os “senhores do betão e do alcatrão, acantonados no PSD”, tenham “sugado o dinheiro todo”, não deixando verba suficiente para a Saúde.

O deputado independente Gil Canha, adoptou nesta matéria uma abordagem irónica, questionando como é possível que “nesta terra onde corre o leite e o mel”, nesta “Singapura do Atlântico”, haja um hospital com uma farmácia que não tem medicamentos? Não é possível, asseverou ironicamente.

Patrícia Spínola, da JPP, denunciou pelo seu lado também toda uma série de insuficiências nos serviços de saúde, um assunto “que não é novo, é recorrente”, apesar do Governo Regional, já com um ano de exercício, “ter assegurado que ia resolver tudo”.

“O problema apresenta-se também na área de cuidados continuados e nos centros de saúde”, apontou.

Vânia Jesus, do PSD, admitiu que é necessário inverter esta situação, mas garantiu que a Secretaria Regional da Saúde está empenhada em arranjar forma de adquirir os medicamentos mais directamente, por forma a não estar tão dependente de fornecedores, atrasos nos transportes ou morosidade de procedimentos. De qualquer forma, considerou que é necessário apurar responsabilidades e arranjar melhor sustentáculo do ponto de vista logístico.

Mário Pereira, do CDS, fez uma intervenção na qual procurou passar a ideia de que nada disto é da responsabilidade de médicos nem de gestores, nem de farmácias. “Não se trata de incompetência do sector”, garantiu o deputado, que é também médico ortopedista. O problema, considerou, é o subfinanciamento do sector da Saúde na Madeira pelo Governo Regional.

Por outro lado, já no período da ordem do dia, o PCP apresentou um projecto de resolução recomendando a elaboração de um Plano Regional de Prevenção e de Combate à Violência contra a Pessoa Idosa.