O exemplo de Istambul: carta aberta de Rui Marote aos deputados sobre a pesca lúdica

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Fotos Rui Marote, na Ponte Galata, em Istambul.

Na Ponte Galata, em Istambul, visitada por milhares e milhares de turistas, a pesca lúdica é livre. Centenas de pescadores lançam a linha ao Bósforo nas duas margens da ponte, sem decretos nem regulamentos. O repórter fotográfico do FN, Rui Marote, que se encontra em Istambul, expressa a sua revolta perante a intenção dos nossos deputados de regulamentar a pesca lúdica.

“Estou em Istambul e daqui lanço meu grito de revolta. Acabei de atravessar a Ponte Galata onde centenas de pescadores amadores, dia e noite, cultivam esta paixão e se tornam numa atração turística. Quem o visse pela primeira vez, pensaria que se trataria  de um concurso mundial de pesca. A azáfama no Bósforo é constante, com as embarcações num frenesim contínuo, atravessando a ponte. Ao fundo, a Mesquita e o som do chamamento, através dos altifalantes, aos fiéis propaga-se a centenas de metros. Ao lado, o famoso bazar das especiarias, com os seus múltiplos aromas, convida-nos a percorrer esse mercado de odores.

Regresso ao hotel no final do dia. Pesquiso no computador o meu Funchal Noticias e fico a saber das últimas. Estarrecido, salta-me à vista uma iniciativa insólita e chocante: a Assembleia Legislativa, por iniciativa da bancada do PSD, pretende propor uma lei para regulamentar a pesca lúdica na Madeira, com ameaças de estipular coimas elevadíssimas aos prevaricadores.

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Daqui, insisto, manifesto o meu grito de revolta! Já se proibiu  a pesca no molhe da pontinha  e os espaços, no Funchal, já são cada vez mais escassos, limitando-se ao cais da cidade e aos pontões das ribeiras de Santa Luzia e do mercado, na Praça da Autonomia. Aos amantes deste desporto, só resta arrumar as canas, e ao comércio que vende utensílios de pesca, fechar as portas. No mínimo, lamentável.

Quando era rapazinho, no período das grandes férias escolares, recordo com nostalgia a pesca de peneiro na Barreirinha e no Toco e lá conseguia captar umas castanhetas e outras coisas deveras interessantes. Pescávamos meia dúzia de peixes e diziam-nos, tens de ir a lota. A pesca de cana era nas rochas da Barreirinha ou nas rochas da artilharia (Forte São Tiago) e lá caminhávamos munidos de uma cana vieira de uma bóia de cortiça. A linha os anzóis e as chumbadas eram compradas ao lado da sede do Marítimo, no campo D.Carlos I, numa tasca chamada a “Bem Posta”.Ter uma cana de bambu já era um privilégio.

No tempo do Salazar foi criada a lei do isqueiro, hoje cria-se a lei da pesca lúdica: mudam-se os tempos e volta-se à mesma, como diz a canção: “Ó tempo, volta para trás…”

Senhores deputados , há tanta coisa para legislar e com caráter de urgência, em vez de se entreterem contra algumas dezenas de pescadores de cana em toda a ilha.

Estou a ver a Polícia Marítima a ter mais uma tarefa: multar os amantes da pesca lúdica que fazem dsse lazer um passatempo muito saudável. Senhores Deputados, com o devido respeito, “não brinquem connosco!

Por que não uma lei para acabar com os urinóis em via pública e em espaços junto a edifícios públicos, por que nao uma lei de proibição de beatas de cigarros ou de escarrar na via publica…? Estas práticas só criam despesas ao erário que todos os dias despejam litros de criolina nesses lagos da imundície para lavar o rosto da cidade.

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Sou um cidadão do mundo e conheço dezenas e dezenas de países e ninguém tira licença para pescar de cana. Será que os cofres da Região irão aumentar as suas receitas com esta iniciativa peregrina?
Qualquer dia surgirá uma lei para que nos jardins do Campo da Barca e Almirante Reis e no Largo da Feira seja necessário pedir licença para jogar à bisca ou às damas, taxando assim o governo os reformados.

Senhores deputados… desculpem, mas nao inventem! Se queremos fazer da Madeira a Singapura do Atlântico, copiem a lei de proibição de fumar na rua, deitar cinza e beatas no chão, já que neste país do Oriente a mesma está em vigor há mais de 25 anos.

Concluo apenas dizendo, não brinquem connosco!