Novo programa de matemática semeia o pânico nos alunos e nos professores

Exames-1O novo programa de matemática de 10.º ano de escolaridade está a deixar em polvorosa alunos e professores. Sem qualquer exagero, o FN constatou que está mesmo instalado um clima de pânico na comunidade docente pela extensão e complexidade do novo programa, ditados pelo ex-ministro da Educação Nuno Crato. Mas não é só neste ciclo de estudos (secundário) que está a suscitar muita preocupação: a reforma do programa da matemática já vem do I ciclo, com muitas vozes críticas, e este ano serão obtidos resultados no exame final de 9.º ano.

Nesta opção curricular que se resume a um regresso ao que de menos bom tem o passado, com destaque para muita abstração, cálculo e demonstrações, a par de um programa manifestamente extenso, o resultado tem sido este: alunos a saírem a chorar dos testes, uma sucessão de resultados negativos, professores à beira de um ataque de nervos porque estão atrasados no cumprimento dos programas, pais sem saberem como ajudar os educandos e a busca desesperada de explicadores para salvar a nova educação da matemática. Ainda assim, os problemas persistem.

O problema é de âmbito nacional: há bem pouco tempo, a Associação  dos Professores de Matemática já fez saber que, no ensino secundário, os professores se queixam de um atraso de 3 semanas no cumprimento do programa, com a agravante de estes docentes nunca faltarem às aulas.

matemática 1

Retrocesso e violação de normas europeias

As consequências estão à vista: desautorizados pela hierarquia, obrigados a cumprir um programa impraticável, pressionados pelo tempo, a alternativa que resta aos professores tem sido “dar a matéria a correr e pedir aos alunos que estudem em casa”, que o mesmo é dizer, procurem apoio, porque as aulas não reservam tempo para o esclarecimento de dúvidas, o treino necessário e a consolidação dos saberes. Paradoxalmente, a Lei de Bases do Sistema Educativo sublinha que os curricula devem preparar o aluno para o espírito crítico e para uma consciência cívica ativa. Mas as questões persistem e são reiteradas pelos próprios professores de matemática ao FN: “Como, com este programa? Como adaptar os conteúdos aos diferentes ritmos das turmas? É um retrocesso em termos pedagógicos e viola as diretivas europeias (vide os estudos da EACEA-Education, Audiovisual and Cultural Executive Agency) que apelam ao desenvolvimento do espírito críticos dos alunos”. Basta ler os relatórios sobre a avaliação e refletir sobre o seu conteúdo”.

Um drama que vem de longe

Como é do domínio público, a matemática sempre foi um problema no ensino português. Goste-se ou não, tenha-se jeito ou não para ela, a matemática, que tanta falta faz à vida de um cidadão esclarecido, sempre foi mal-amada por um número significativo de estudantes. A “falta de bases dos alunos”, conforme nos relata um professor de matemática do ensino secundário, “é normalmente a causa número um do insucesso. A isto acresce uma tremenda falta de hábitos de estudo, espírito de sacrifício e treino diário da matéria. Depois, no ensino secundário, o problema agudiza-se e, grande parte dos alunos que tem recursos económicos, ou então cujas famílias fazem um esforço acrescido, lá vão contornando as dificuldades com explicação. Alguns alunos, também por isso mesmo, desligam a atenção das aulas, porque sabem que vão perceber a matéria com o seu explicador. E é esta bola de neve que se vai avolumando e que se torna mais problemática com reformas absurdas e desfasadas da realidade concreta”.

A esta “matriz sociológica” da matemática e das notas, é dado agora o golpe de misericórdia: um programa inexequível, o desespero de alunos e professores e os alertas no sentido de alguém pôr um travão neste estado de coisas, porque estão a ser prejudicados milhares de alunos cujo sistema de acesso à universidade os obriga não só a passar como a ter boas notas: “Não são os pais nem os professores que exigem boas notas aos alunos mas o sistema criado de acesso ao ensino superior, que seleciona os melhores, isto é, quem notas mais altas tem. Depois, é padronizar os testes e as aulas tendo por base os exames nacionais”, observa um professor de matemática do II ciclo.

Hand doing math homework
Hand doing math homework

A obsessão com os rankings

O FN sabe que alguns professores de matemática de uma escola secundária do Funchal já fizeram chegar uma carta aos Governo Regional e da República a alertar para este problema, apelando a uma intervenção urgente, sob pena de ser impossível cumprir o programa estabelecido. Recusam-se até a cumprir com este programa. Entretanto, a estas vozes juntam-se outras, a nível nacional, que têm vindo a alertar o novo Ministro da Educação para corrigir a matriz curricular. Porém, ainda não há sinais de inverter o rumo das coisas. O novo ministro, ainda em estado de graça, mexeu nos exames, suspendeu algumas provas, mas não tocou ainda na componente curricular.

Esta questão assume uma maior gravidade pelo facto de os estudantes terem exame nacional de matemática no 12.º ano de escolaridade e as médias contarem para o seu ingresso na universidade. Mas não só. Os famosos rankings anuais das notas, com cada escola a não querer ficar mal na fotografia, é outra “espada” que pesa sobre as escolas e os professores, levando mesmo alguns responsáveis a tomarem atitudes muito discutíveis, tendo por base os resultados dos rankings. Por exemplo , o FN foi informado de que há um estabelecimento de ensino secundário, no Funchal, onde se criou uma turma de elite de 10.º ano, isto é, só alunos com um historial de 5 (avaliação máxima do III ciclo), justamente já tendo em perspetiva uma boa posição no panorama nacional da avaliação das escolas.

Apesar de a matemática estar a suscitar maior inquietação neste momento, também não são menos preocupantes, segundo relatam ao FN outros docentes, os resultados dos estudantes ao nível da física-química e biologia, igualmente alvo de reforma programática. Nos exames, tem sido uma autêntica “descida aos infernos”, com uma sucessão de escolhas múltiplas a confundir até mesmo os alunos mais estudiosos cujas avaliações baixam drasticamente. Os resultados estão à vista, com notas finais de exame muito baixas, já para não falar na frequência, mesmo com auxílio da explicação.

Perante este clima de descontentamento, vem-nos à memória um texto simples mas profundo do imortal Sebastião da Gama, designado “O poeta beija tudo”, e que, com a devida vénia, se publica para reflexão geral.

O poeta beija tudo, graças a Deus… E aprende com as coisas a sua lição de sinceridade…

E diz assim: “É preciso saber olhar…”

E pode ser, em qualquer idade, ingénuo como as crianças, entusiasta como os adolescentes e profundo como os homens feitos…

E levanta uma pedra escura e áspera para mostrar uma flor que está por detrás…

E perde tempo (ganha tempo…) a namorar uma ovelha…

E comove-se com coisas de nada: um pássaro que canta, uma mulher bonita que passou, uma menina que lhe sorriu, um pai que olhou desvanecido para o filho pequenino, um bocadinho de sol depois de um dia chuvoso…

E acha que tudo é importante…

E pega no braço dos homens que estavam tristes e vai passear com eles para o jardim…

E reparou que os homens estavam tristes…

E escreveu uns versos que começam desta maneira: “O segredo é amar…”