O último discurso de Cavaco Silva da Casa Real

joao-abel-torres

Nada melhor do que começar o ano com a última mensagem de Ano Novo de Cavaco Silva. Diz o povo que mais vale tarde do que nunca. É tão sábia e certeira a voz do povo!
Pena é que Passos Coelho já não esteja em S. Bento para ouvir as Janeiras, visitar presépios ou ver Cavaco trucidar a última fatia de bolo-rei em Belém.
Temo que, para além do próprio bolo-rei, Cavaco não deixará saudades a quase 10 milhões de portugueses, mais coisa, menos coisa. As sondagens, aliás, são muito claras e só provam que os portugueses o consideram o pior presidente de sempre.
Em todo o caso, uma coisa é certa: pelo menos um português ouvirá a homilia – a senhora dona Maria Cavaco – por dever de respeito conjugal ao seu Aníbal, e, com sorte, o seu costureiro, muito imparcialmente condecorado no 10 de junho, por dever de eterna gratidão..
No essencial, foi “Um homem de liberdade, um lutador, um homem de coragem”.
Não, não é uma referência a Cavaco Silva. Desculpem-me os cavaquistas desapontados!
No essencial, Cavaco foi um homem a quem se reconhecem as melhores ações, particularmente as da SLN. Contrariamente a Cavaco, Eanes afirmou que as suas “ações de merecimento”, não as da SLN, se processaram sempre em instituições que são, basicamente, “conjuntos de pessoas que coordenam esforços para alcançar um fim que a todos eles interessa”. Sobre o general Ramalho Eanes, ao atribuir-lhe o Grande Colar da Ordem da Liberdade, a máxima condecoração portuguesa, assim falou Cavaco: “em reconhecimento da grandeza do seu carácter e dos serviços que prestou para que Portugal seja hoje uma pátria de liberdade e democracia”, palavras que poucos, mesmo muito poucos, ousariam aplicar a Cavaco. Claro que ao atual presidente também está reservada condecoração. Da minha parte, apostaria no produto português e na sua valorização, sugerindo uma medalhinha em tradiconal cortiça.
Entre muitas outras, uma diferença fundamental entre Cavaco e Eanes é que Ramalho Eanes nunca se queixou do que a República lhe pagava no final do mês, nem das sérias dificuldades que tinha em geri-lo. Para os mais esquecidos convém lembrar que o ponto mais alto do mau uso do microfone aconteceu-lhe em 2012, quando o Governo de Passos foi aos bolsos dos pensionistas e Cavaco prontamente se queixou: “Tudo somado, o que irei receber do Fundo de Pensões do Banco de Portugal e da Caixa Geral de Aposentações, quase de certeza não vai chegar para pagar as minhas despesas, porque eu também não recebo vencimento como Presidente da República.”
Seria boa ideia, à semelhança do que aconteceu em 2000, pelos 15 anos da sua liderança do PSD, Cavaco comemorar num jantar no Jardim Zoológico de Lisboa acompanhado dos seus parentes e amigos mais próximos. Um dia disse ao Expresso algo verdadeiramente profético, para não dizer autobiográfico, era “chegado o momento de difundir um grito de alarme sobre a tendência para a degradação da qualidade dos agentes políticos”. Com efeito, foi o único político que se considerou não político, o que (bem se vê) é absolutamente consistente com os 30 anitos que esteve na vida política! Se ainda dissesse que nunca foi dos bons, vá que não vá…
O que nos vale é que Cavaco é um homem de fé e ainda vai a tempo de salvar-se, estando já a tratar da transladação do seu cadáver político de Belém para um convento dominicano, o do Sacramento, em Acântara, onde irá expiar os seus pecados à maneira dramática de um Frei Luís de Sousa. Esperemos que faça voto de silêncio e de absoluto retiro, para o bem do próprio e de todos nós. A título de curiosidade, é de referir que parte da história deste edifício conta- -se através da vida e da obra Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett. Só estranho (mas é cá uma curiosidade minha) o facto de a casa das irmãs missionárias do Espírito do Santo traçar fronteira com as futuras instalações de Cavaco. Será pela afinidade religiosa dos edifícios, presumo.
Já quanto ao zelo da Austeridade e da poupança, convém recordar que as obras de restauro, iniciadas já em 2015, custarão “apenas” 475 mil euros, o que por si só é já um edificante exemplo! De acordo com a Presidência da República, a escolha foi feita com base em critérios de funcionalidade do espaço e a solução que se afigurava a “mais económica possível”, o que nos deixa, pela certa, muito mais descansados e convencidos, sobretudo se pensarmos que nos últimos sete anos, a Presidência de Cavaco Silva apresentou um orçamento de funcionamento médio anual superior a 16,3 milhões de euros, tendo as despesas da Presidência da República representado praticamente o dobro do Orçamento da Casa Real de Espanha (que é de apenas 8,4 milhões de euros) e que inclui o rendimento atribuído pelo Estado espanhol a vários membros da família real. Depois destes desvarios, afinal quem é a realeza ou se trata como tal?
Porém, nisto de presidentes reformados principescamente Cavaco não é caso único, nem mesmo o que terá o “retiro” mais caro como gabinete de trabalho. Recorde-se que há dez anos, o restauro da Casa do Regalo para servir de gabinete a Jorge Sampaio custou “somente” 746 mil euros, em 2005, 486 mil euros e mais 260 mil no ano seguinte, também, como se vê, a pensar nas contas do país. Ainda assim, o anterior Presidente da República foi mais comedido em despesas. Cavaco Silva, invariavelmente, teve sempre um nível de despesa muito acima do seu antecessor, Jorge Sampaio. Entre março de 1996 e março de 2006 teve um orçamento médio anual de 12,1 milhões de euros, gastando em média menos quatro milhões de euros por ano do que o atual Presidente. Seja como for, alguém falou em despesismo ou “gorduras” do Estado? Será que este nosso mau hábito de entronização e de manutenção de reinados e honrarias pagas por um país de pobres e desempregados faz algum sentido? Não será tudo isto despudoradamente elevado para a dimensão e nível de rendimento dos portugueses, para mais na crise que hoje vivemos?
A única, indiscutivelmente única virtude que ainda consigo encontrar, no meio de tanto desperdício bacoco, subserviente e feudal, é a reabilitação de imóveis de valor histórico e cultural, o que, de resto, deveria ser objeto de investimento, sempre que possível, independentemente do usufruto de ex-presidentes. Só para se ter uma ideia, se o dinheiro fosse aplicado no ensino, e não num caprichoso escritório apenas para um cidadão privilegiado, chegaria para recuperar toda a cobertura do Conservatório Nacional, oferecendo condições de dignidade à mais antiga escola de música do país, que hoje acolhe mais de 900 alunos por ano.
E, sem mais assunto de momento, aproveito para desejar aos caros leitores um 2016 feliz, na certeza de que, pelo menos grande parte dele, decorrerá já sem Cavaco, sem a sua “divina” certeza de nunca se enganar ou as suas raras dúvidas, sem os seus inéditos dias de reflexão em cenários e previsões “astrológicas”, sem os seus nada convictos apelos ao diálogo “a uma só voz” ou inconsequentes “eu avisei”, o que inquestionavelmente, tudo reunido e obliterado, será um extraordinário “upgrade” para o país, independentemente de quem o substitua.


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