
As semanas do Natal e de Fim de Ano foram escassas em peixe espada-preto na praça do Funchal e nas peixarias das grandes superfícies. Durante alguns dias, foi mesmo impossível encontrar o produto fresco para venda.
Em resultado de a procura estar a superar a oferta, os preços dispararam para valores considerados proibitivos para muitos consumidores.
Apesar de a pesca tradicional registar épocas baixas, os clientes mais fiéis da espada estranharam a pouca quantidade daquele peixe de carne branca dos mares da Madeira, assim como os preços inflacionados que estão a ser praticados nos locais de venda.
O FN esteve esta manhã na praça do Mercado dos Lavradores e constatou as dificuldades de abastecimento e os efeitos que a situação está a ter no preçário. Entre os cinco comerciantes que dispunham de peixe espada-preto para venda ao público, o valor fixava-se apenas a um cêntimo abaixo dos 9 euros ao quilo.
O pescado em comercialização era fresco, reportando-se a uma remessa de apenas 300 quilos deitada à Lota esta quinta-feira, último dia do ano, por uma embarcação.

Na origem da situação de escassez estará a época de Festas e a suspensão da ida ao mar por parte dos cerca de 15 espadeiros regionais, logo em meados de dezembro. Ao que apurámos, as capturas realizadas até essa altura foram na sua quase totalidade escoadas para empresas de transformação de pescado a um preço acima da média, o que terá agradado os armadores dos barcos de espada ao ponto de darem então por encerrada a safra de 2015.
A verdade é que se a situação foi vantajosa para os barcos, que com menos horas de faina garantiriam um rendimento superior, o mesmo já não pensam os pequenos comerciantes. Alguns deles encaram a atual tendência, em que as fábricas compram a totalidade do pescado capturado diariamente, como nefasta para a concorrência e sobrevivência das pequenas empresas de venda direta ao público.
E não se trata apenas da espada, alertam. O mesmo está a acontecer com a ‘ruama’ (chicharro e cavala) com as capturas a serem açambarcadas pelas fábricas, fruto de acordo negocial com os armadores. Como resultado, o que vai à lota para arrematação é reduzido, obrigando os pequenos comerciantes a negociar revenda com as empresas de transformação de pescado, a preços e a horas por elas definidos e que não agradam.
Alguns defendem, inclusive, intervenção oficial no sentido de que se possa garantir pelo menos uma quota de 25% do total das capturas para leilão, a fim de garantir a sobrevivência das empresas de menor dimensão.

Daí que alguns dos comerciantes não estejam otimistas quanto ao futuro do negócio e do dinamismo da própria Praça do peixe do Mercado dos Lavradores. Quem por lá passa, depara-se com um cenário preocupante. Muitas são as bancadas vazias, uma tendência que tem vindo a agravar-se nos últimos anos. Os clientes já não são o que eram, fruto da concorrência das grandes superfícies e das mudanças de hábitos do consumidor regional.

No entanto, o local continua a ter adeptos, turistas sobretudo, que gostam de levar nas imagens o exotismo das espécies capturadas nos mares da Madeira e a perícia dos homens que amanham o pescado.
Por estes dias, os emigrantes costumam ser clientes assíduos na Praça do peixe. Vêm matar saudades do ritual do Mercado e dos sabores da gastronomia caseira.
Se em mente está o rolo de espada frito em cebolada ou o filete, não há preço que assuste nem quantidade que deixe de ser justificada. “Venho todos os anos à Madeira por altura do Natal e levo sempre um carregamento de espada para casa. Tanto a mulher, como os filhos e netos, todos ingleses, adoram este peixe. Preferem o filete. Eu sou mais pelo rolo frito”, sublinhava Emanuel Diniz, radicado há 44 anos no País de Gales, Reino Unido, enquanto aguardava que lhe arranjassem cinco esguios exemplares.
E o preço, perguntámos, a calcular já os cerca de 100 euros investidos na compra? “É um pouco caro, mas compensa, porque é fresco do nosso mar. Não há sabor igual.”
Em frente, o comerciante concorda com um sorriso aberto, garantindo a normalização do fornecimento já a partir das próximas semanas com o regresso dos espadeiros ao mar, após a interrupção do Natal e Fim de Ano.
Quanto aos preços mais competitivos, a incógnita permanece. Dependerá da evolução do mercado e dos valores que vierem a ser definidos entre os agentes económicos, quer por via direta ou em licitação.
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