
António Costa, segundo a direita radical, que de social-democrata já muito pouco ou nada tem, recebeu “de bandeja” um país com contas equilibradas, cofres cheios, uma economia em vertiginoso crescimento e os rasgados louvores dos mercados e de toda a máqina especulativa.
Maria Luís Albuquerque que o diga, depois de ter recebido tanta estralejante beijoca e cúmplices abraços dos seus pares e compinchas no Parlamento Europeu. Se o recorde de intercâmbios salivares não está no Guiness, desconfio que ficou lá muito perto, o que, verdade seja dita, deverá ter deixado muitos admiradores da senhora dona Luís muito enternecidos. Afinal, afetos à parte, os manda-chuvas da Troika e do FMI sabem bem agradecer aos alunos exemplares do evangelho neoliberal. Imagino que a esta hora Vítor Gaspar Zen esteja a roer-se de inveja, no seu conhecido registo “slow motion”.
Por outro lado, os portugueses tão felizes e agradecidos pelas maravilhas que Passos Coelho obrou num dos piores momentos da sua História, não poderão em circunstância alguma deixar de reconhecer nele o Grande Estadista que foi. Que Deus nos livre e guarde de tamanha ingratidão. E, claro, como esquecer o Enorme Estadista Cavaco, os seus “Eu avisei.”, as suas reflexões em datas para ele aparentemente irrelevantes, como o 5 de outubro, os seus guturais apelos ao diálogo e à concertação, os seus azedos recados seguidos de discursos violentos, de divisão e crispação, a roçar mesmo uma visão enviesada da democracia? Como esquecer o seu elogio às vaquinhas dos Açores, às cagarras e à banana da Madeira, certamente num patriótico exercício de promoção turística de Portugal no mundo.
Quem poderá deixar de estar eternamente grato ao amuo da submarina novela do irrevogável, com a consequente perda de milhares de milhões (“Piners”, como diria Jorge Jesus) e posterior promoção a vice, a modos que como recompensa pelo brilhante exemplo de estabilidade governativa.
Como admitir, perguntará a extrema-direita, uma opção de Frente de Esquerda incompatível com a Globalização, a Europa e o Euro, ou dever-se-á dizer, portuguesmente falando, o cêntimo?
A título de curiosidade, e antes que me esqueça, o país está tão bem que dos 5000 refugiados que viriam para Portugal só 50 aceitaram! Devem ter julgado que estavam a chegar ao Sri- -Lanka.
Mas, pior que isso, como conceber uma Frente de Esquerda incompatível com o empobrecimento, com menos e mais precário emprego, com a destruição do Serviço Nacional de Saúde, com o esvaziamento do Estado Social e com a venda a pataco e privatização manhosa de tudo quanto ainda valha a pena conservar na alçada do Estado?
Havendo lucros, os privados encarregam-se de abotoar-se com eles. Havendo prejuízos, o Estado paga. Haverá forma mais equilibrada e ética de fazer negócios com os anéis do país? Para o “Ronaldo” das negociatas da TAP e do Novo Banco, Sérgio Monteiro), a resposta é claramente negativa. Mais dia, menos dia vai ser contratado para vender o Taj Mahal a Dias Loureiro ou a Oliveira e Costa.
E, como não dizê-lo, que saudades vamos todos ter da proverbial predisposição para o diálogo que o anterior governo sempre mostrou para com a oposição e para com os parceiros sociais! Em todo o caso, as palavras negociação e concertação andaram sempre, invariavelmente, a par da palavra diálogo, sobretudo quando se tratava de direitos e garantias… a abater.
Ah, que me esquecia da palavra coerência! Então não foi também Passos Coelho que considerou o Programa de Ajustamento mal desenhado, mas, por outro lado, reclamou o mérito de ter cumprido com êxito o mesmo Programa mal desenhado? Mais, não foi Passos quem afirmou que o Programa de Ajustamento era o seu próprio programa de governo?
Isto, sim, como salta à vista, é consistência no discurso e na ação! Numa palavra: coerência.
Que o diga a Constituição, por três vezes violada, e o testemunhe a Democracia sob a constante ameaça de ser suspensa, citando Manuela Ferreira Leite, nunca se hesitando em fomentar alarmismos a nível nacional e internacional, apenas por taticismo político.
Alguém sabe ou se lembra, em regime democrático, de um governo mais dialogante que este? Pensando melhor, mais capacidade de diálogo talvez só mesmo aquele senhor comissário que espancou muito irmamente uma família após um jogo de futebol em Guimarães…
Aos mais velhos este governo chamou, muito respeitosa e solidariamente, “geração grisalha”, nunca se furtando a patrocinar saudáveis conflitos geracionais. Quanto aos jovens, incentivou e empurrou meio milhão para um exílio forçado, a que demagogicamente chamou “novas oportunidades” e novos desafios, para depois criar um ridículo programa chamado “Vem!” destinado ao enormíssimo número de meia dúzia.
Mas, voltando às virtudes a perder de vista do governo da Coligação que tantas saudades deixa aos mais radicais entre os radicais, quem não reconhecerá a importância de termos conseguido fazer chegar a dívida pública a uns muito razoáveis e competentes 130% do PIB, e a gastar a austera quantia de 360 milhões de euros do erário na renovação da frota automóvel, vulgo “carros pretos”, quando tanta solidariedade e caridade são necessárias para comprar uma cadeira de rodas a quem se vê confinado a uma cama e a quatro paredes de sofrimento e exclusão?
Também, pronto, com tantas contas a darem-lhe cabo dos nervos não é de admirar que Passos Coelho (para alguns saudosos dos tempos da Velha Senhora, infelizmente muitos, uma espécie de Salazar reencarnado) se tenha esquecido de pagar a Segurança Social. Um homem, afinal, não é de ferro. Além disso, Cavaco, ao que parece não avisou, nem o padrinho Ângelo Correia o alertou.
E, já agora, de quem foi a ideia de uma ação de despejo litigioso da Grécia da zona euro? Sim, a quem devem os gregos dar palmadinhas nas costas, que não seja a Passos Coelho?
Não, não são só os portugueses que lhe são devedores de tamanhas benfeitorias, os gregos também têm de se pôr na fila.
Quem se esqueceu do seu profético “Que se lixem as eleições!”. Primeiro estava o superior interesse do país e o convicto ir “além da Troika”. O sentido do dever e dos mais elevados desígnios nacionais estava acima da vontade de mais quatro anos de “tacho” para amigos e clientelas. Estaria naquelas palavras uma premonição?
Certo, certo é que, embora não se tivessem lixado de todo as eleições, a maioria absoluta foi inapelavelmente às urtigas, o que, basicamente, acabou por ser uma e a mesma coisa.
Em suma, não fora a competência e visão de Passos Coelho e Paulo Portas e a direita radical ou extrema-direita, como se quiser, não se poderia ogulhosamente regozijar da criação de uma sociedade ideal de baixos salários, reduzidíssima proteção social, reformados e pensionistas a terem de escolher entre a receita a aviar ou o pratinho de sopa para enganar a fome, condenados à caridadezinha ou ao assistencialismo, grandes empresas lucrativas versus trabalhadores submissos, quase a ter de pagar para trabalhar, desempregados de longa duração na nova profissão chamada “estagiário”, a alimentar-se de desespero, tudo isto concorrendo para mais 10% de milionários, em contraponto com a circunstância de uma em cada três crianças só fazer uma refeição por dia, curiosamente na escola.
Que falta nos fará um governo máquina-trituradora de sacar impostos e cortar vencimentos e pensões, quando cerca de 1500 dos “boys” nomeados pelo anterior governo receberam subsídio de férias, beneficiando de um regime de exceção ao cumprimento do OE 2012.
Que falta nos fará a alteração da relação de forças sociais através da destruição da legislação laboral, privatização e concessão dos serviços públicos, entrega das funções do estado a privados: saúde, ensino, segurança, energia, correios, transportes, água, lixo, portos e aeroportos.
Que falta nos fará, em face da alteração do quadro institucional, humano e material, a visão de um Estado manietado e submerso pela iniciativa privada em todos os domínios, restando-lhe cobrar impostos, coimas, taxas e penhoras coercivas e preventivas, tendo mesmo havido casos em que famílias inteiras ficaram sem a única moradia de que dispunham, e todo o tipo de esbulho para pagar juros das dívidas e rendas a privados?
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