Jogar ao gato e ao rato com a censura era enorme divertimento, recordam colaboradores do ‘Comércio do Funchal’

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Foi bastante animada a pré-apresentação para a imprensa do colóquio sobre o ‘Comércio do Funchal’. A mesma realizou-se hoje ao final da tarde na galeria ‘Porta 33’, à Rua do Quebra-Costas, antecipando, para os jornalistas, alguns dos temas que amanhã estarão em debate neste espaço cultural madeirense, no evento intitulado ‘Uma conversa sobre o jornal cor-de-rosa”, e que se realizará sexta–feira, a partir das 18h30, contando com a presença de José Pacheco Pereira, comentador político e historiador, que fará a apresentação; Nuno Guerreiro, jornalista, que fará a moderação; e os jornalistas e/ou colaboradores do Comércio do Funchal Vicente Jorge Silva, José Manuel Barroso, Vítor Rosado e Ricardo França Jardim.

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Logo desde o início a apresentação do evento à imprensa converteu-se, ela própria, num pequeno debate, deixando bem patente o entusiasmo com que os intervenientes recordam os seus tempos de juventude, nos quais movimentaram a opinião pública a nível nacional em torno de temáticas das quais muito pouco se falava no tempo do salazarismo, num jornal de esquerda produzido numa região ultraperiférica. Um periódico algo atrevido para a época, de tendência esquerdizante mas não sectária, no qual muitos se interessavam por colaborar e que constituiu um verdadeiro marco na sua época, sendo lido nos sítios mais díspares do país, desde universidades a quartéis.

Vicente Jorge Silva falou dos primórdios do jornal, nascido de um encontro improvável entre o contrabaixista Artur Andrade, figura marcante do panorama cultural madeirense, e que por sua vez teve um outro encontro improvável com João Carlos Veiga Pestana, então proprietário do título do jornal. Artur Andrade, que se encontrava ligado a Vicente e a Vítor Rosado através de uma agência de publicidade na qual todos colaboravam, teve a ideia de ‘alugar’ o jornal, que era então publicado só uma vez por ano por Veiga Pestana, só para manter o título.

Um dia, Artur chega ao café Apolo, onde estava um grupo de amigos, e, conversa puxa conversa, resolveu-se fazer um semanário. O título foi, pois, alugado a Veiga Pestana por 900 escudos por mês.

Era um jornal feito por jovens, na casa dos 20 ou até menos, que abordavam as mais variadas matérias, inclusive culturais, desde o cinema à literatura, além do desporto, da economia e da política.

Os colaboradores riram-se bastante, recordando o tempo em faziam uso de vários heterónimos para assinar as peças, “pois éramos poucos, e queríamos dar a ideia de que éramos mais”.

Sobre as razões de o papel em que era impresso o jornal ser cor-de-rosa, as versões entre os intervenientes na palestra que amanhã decorrerá são divergentes, e dão “pano para mangas”. Vicente Jorge Silva diz que a cor poderia ser importante para distinguir o jornal. Ao princípio, pretendia-se fazer um jornal cor de salmão, um pouco à moda do Financial Times, mas não havia na Madeira nessa cor; havia, isso sim, cor-de-rosa, e assim acabou por ser essa cor a utilizada.

Pacheco Pereira, por seu turno, destacou a enorme importância do jornal cor-de-rosa ao nível nacional, dizendo que se tem dedicado à tarefa de “salvar papéis”, e em todos os espólios do final da década de 60 do século passado, aparecem colecções do Comércio do Funchal.

“Tenho várias colecções” do jornal, revelou. A partir de 1968 para a frente, nos espólios documentais com os quais se tem deparado, “não há nenhum” onde o irreverente jornal funchalense não esteja presente.

Tal, em seu entender, tem a ver com a circunstância de ele poder ser lido na legalidade, nesse tempo, e ter interesse no âmbito do processo de radicalização da esquerda a partir de finais do anos 60. Só o ‘Comércio do Funchal’ e o ‘Tempo e o Modo’ eram lidos naquela altura e reflectiam o pensamento de esquerda. Só que o Comércio do Funchal, apesar da tendência esquerdista, nunca se tornou sectário, “a não ser talvez numa fase final”, acolhendo no seu seio múltiplas manifestações do pensamento de esquerda à data, que se repartiam por um verdadeiro mosaico.

O Comércio do Funchal, disse, tinha enorme penetração nos meios universitários e revelava um Portugal inteiramente diferente daquele que era vulgarmente aceite à época.

Todos os intervenientes concordaram em que uma tal experiência só poderia ter ocorrido no Funchal naquela época, em que os jovens jornalistas conviviam com as autoridades da Junta Geral e veiculavam, por palavras suas, o desejo de maior descentralização e autonomia para a Madeira que já existia mas que aquelas autoridades não podiam manifestar de viva voz. Um sentimento que a esquerda não soube capitalizar e que foi rapidamente aproveitado pelo PSD de Alberto João Jardim, e adoptado como bandeira, face ao centralismo da República. A seu modo, o Comércio do Funchal foi, no seu tempo, um verdadeiro arauto dos desejos de autonomia numa região periférica.

Quem escrevia no Comércio do Funchal convivia de igual modo com os censores, que frequentemente até eram pessoas com as quais se davam bem, consequência de a Madeira “ser uma aldeia”, toda a gente se conhecer e manter relações de proximidade. Teria sido muito mais difícil, concordaram os palestrantes, que uma tal experiência pioneira e inovadora em jornalismo pudesse ter ocorrido no continente.

O jornal, revelaram, sofreu diversas suspensões, uma das quais na sequência das matérias publicadas no jornal sobre o Maio de 68 em Paris. Agastado e pressionado pelos jornalistas para deixar a reportagem sair, o censor acabou por passar para as mãos dos mesmos os carimbos, dizendo-lhes que os aplicassem nos textos e o deixassem em paz… A reacção em Lisboa, no entanto, foi de escândalo: tais abordagens escritas sobre assuntos que punham em causa a autoridade não podiam ser veiculadas dessa maneira!

A suspensão durou até Salazar ‘cair da cadeira’. Depois, prosseguiu a actividade do jornal que serviria de plataforma de lançamento para nomes grandes do jornalismo e da literatura portuguesa como Vicente Jorge Silva ou o poeta José Agostinho Baptista. Mantiveram-se as conversas e os contactos de proximidade entre os jornalistas e representantes locais do poder do antigo regime de então, como Rui Vieira, Agostinho Cardoso (tio de Alberto João Jardim) ou Alberto Araújo (que foi director do Diário de Notícias do Funchal). As coisas chegavam ao caricato de os jornalistas lhes apelarem para que ajudassem a fazer voltar o jornal ser publicado, aquando das suspensões, uma vez que não devia ser permitido a Lisboa desautorizar os censores locais, que tinham permitido a publicação das polémicas reportagens…

O Comércio do Funchal sobreviveu muito à base de assinaturas, e a dada altura, dois terços delas eram de pessoas do continente. Recortes do mesmo chegavam a ser afixados em placares controlados por jovens oficiais de tendências de esquerda nos quartéis durante o período marcelista, como se fosse uma espécie de ‘jornal de parede’.

Os oradores riram-se bastante, em conversa descontraída com os jornalistas que os ouviam, contando que lhes divertia imenso protagonizar um jogo do “gato e do rato” com a censura.

“Foi um enorme divertimento”, disseram José Manuel Barroso e Ricardo França Jardim. Entretanto, a imprensa reaccionária exigia que os jornalistas do Comércio do Funchal fossem encarcerados…

Pacheco Pereira recordou ainda que, na época, alguns nomes que mais tarde se tornaram conhecidos em democracia, como Nuno Rogeiro, eram de extrema-direita e simpatizantes do salazarismo. E interrogou-se sobre o porquê de ser um pecado ter, nesses tempos de juventude, pertencido à extrema-esquerda (como é o caso dele próprio) mas não à extrema-direita…

O Comércio do Funchal, acentuou, nunca se tornou sectário da multiplicidade de grupos de esquerda, e foi uma voz importantíssima na oposição em Portugal, em geral, e na história da extrema-esquerda, em particular.

Por tudo o que ouvimos esta tarde, podemos afirmar que vale certamente a pena assistir ao debate que acontecerá esta sexta-feira, pelas 18h30. São muitos episódios contados na primeira pessoa por quem protagonizou um marco da história política e jornalística da Madeira e do país de então.