Coesão Social na Educação: dois possíveis cenários

Jesus Maria Sousa

Dando seguimento ao exercício de projeção no futuro, iniciado no artigo anterior que girou em torno de políticas neoliberais, aqui estou eu para refletir sobre dois possíveis cenários num outro contexto de políticas sociais. A pergunta é a mesma: Como será a Educação daqui a 10 anos?

Mergulhemos então em 2025, tão jovens e fortes como neste momento.

Em 2025, livres do diktat da Troika e recuperada a autonomia política, os cidadãos portugueses voltam de novo a partilhar, aliviados, de um sentimento de pertença e inclusão, sabendo que a sua voz passou a ser ouvida nos assuntos públicos. O País começa, aos poucos, a sair do empobrecimento a que o votara o pagamento da dívida externa. No entanto, os mais capazes já tinham debandado para outras paragens mais atrativas, para fugir à fome e ao desemprego. Outros buscaram no cultivo do solo uma solução, procurando lugares isolados e inóspitos para viver. O Estado e o próprio mercado convergem agora na retoma dos direitos do cidadão no acesso a bens e serviços sociais básicos, procurando corrigir situações de diferenciação e injustiças gritantes, com o apoio de redes comunitárias sem fins lucrativos.

Neste cenário, a escola é vista como o lugar privilegiado de integração social e de aprendizagem de hábitos de participação e cidadania. As metodologias de ensino-aprendizagem tiram partido das visitas de campo, do contacto com as populações, sendo o trabalho de grupo estimulado para o debate em torno de questões do quotidiano. Para além de ensinar matérias, cabe também ao professor uma militância política e social. Deve, por isso, estar disponível para trabalhar em bairros problemáticos e regiões vulneráveis, resultantes do período de crise, procurando apoiar grupos sociais minoritários e automarginalizados. Deve igualmente trabalhar com jovens e adultos que tiveram de desistir da escola para sua sobrevivência.

Tendo em vista o objetivo político prioritário de levar a educação para todos, mesmo que em locais mais recônditos do território nacional, foi preciso arregimentar, de um dia para outro, um elevado número de docentes, depois de a A3ES (Agência de Acreditação e Avaliação do Ensino Superior) ter encerrado quase todos os cursos de formação de professores. Mobilizado para locais com más condições de habitabilidade e salubridade, este professor, com pouca formação académica, tem de fazer de tudo um pouco: alfabetizar, ensinar, aconselhar a comunidade, participar de tarefas domésticas, sanitárias e agrícolas. A grandiosidade da missão que lhe é reservada absorve cada minuto do seu dia, não lhe restando tempo para a fruição de bens culturais, como ler um bom livro, por exemplo. A cultura e o modo de vida elitista, de um passado bem longínquo, são anulados por uma cultura genuinamente popular. Neste cenário, o professor proletariza-se, com reflexos no seu estatuto social.

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Num outro cenário de coesão social, onde todos têm igualmente acesso a serviços como a educação, saúde e segurança social, respira-se um ambiente de grande confiança no futuro, pois são asseguradas já as necessidades básicas, através de emprego estável e de aposentações dignas, geradoras de um consumo moderado. A economia cresce a olhos vistos. Em termos de planeamento urbano, procuram-se esbater os desequilíbrios territoriais criados na década anterior: pretende-se que as cidades sejam mais homogéneas, melhorando a qualidade de vida dos bairros degradados, e integrando as pessoas oriundas de grupos sociais guetizados.

Neste cenário, presta-se o devido tributo à Educação e à escola, pois todos reconhecem os benefícios, também de ordem económica, que um povo educado traz à sociedade em geral. Por isso, o Estado proporciona todos os meios ao seu alcance para que a escola pública continue a desenvolver o seu papel de resgate e mobilidade social, centrando-se essencialmente nas dimensões cívicas e interpessoais, com relevo para os valores da liberdade, autonomia, responsabilidade e solidariedade, não descurando nunca o espírito crítico na construção das identidades socioculturais, pela conscientização do valor social de cada um. Treina-se na escola pública o diálogo e a participação de cada um nas decisões coletivas, tendo em vista o bem comum.

A estratégia política de coesão social passa também pela aposta na Formação Profissional, nas Segundas Oportunidades ou Novas Oportunidades, a quem não gozou da escolarização no tempo próprio. A disciplina de Necessidades Educativas Especiais (NEE) torna-se obrigatória em todos os planos de formação de professores. Nesta arquitetura social, o professor ganha cada vez mais prestígio, mais respeito e consideração, sendo ouvido para qualquer decisão que envolva a comunidade onde se encontra inserido. É-lhe reconhecido agora o estatuto de cientista social, ator, sujeito, ao mesmo tempo técnico e político, sendo corresponsável pela construção de uma sociedade mais justa e solidária.

Uma nota final: na técnica de Scenario Planning não existem bons ou maus cenários, apenas cenários plausíveis que podem eventualmente ocorrer e para os quais devemos estar preparados.