O horror de Paris narrado por uma sobrevivente

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Testemunho de Isobel Bowdery, uma jovem sobrevivente dos atentados terroristas de Paris, publicado ontem no facebook.

“Nunca acreditas que te pode acontecer. Era só uma sexta-feira à noite num concerto de rock, a atmosfera era tão feliz e todos dançavam e sorriam. E quando os homens entraram pela porta da frente e começaram o tiroteio, pensámos ingenuamente que era tudo parte do espectáculo. Não foi só um ataque terrorista, foi um massacre. Dezenas de pessoas foram atingidas a tiro mesmo à minha frente. Poças de sangue encheram o chão. Gritos de homens crescidos que seguravam os corpos das suas namoradas mortas atravessavam o pequeno espaço musical. Futuros demolidos, famílias despedaçadas. Num instante. Chocada e só, fingi estar morta durante mais de uma hora, estendida entre pessoas que olhavam para os seus entes queridos imóveis, Sustendo o fôlego, tentando não me mover, não chorar – não dar àqueles homens o medo que gostariam de ver. Tive a incrível sorte de sobreviver. Muitos outros não a tiveram. As pessoas que tinham estado lá exactamente pelas mesmas razões que eu  – divertir-se numa sexta-feira à noite – eram inocentes. Este mundo é cruel. E actos como este supostamente são expoentes da depravação dos seres humanos e as imagens daqueles homens circulando à nossa volta como abutres hão-de me assombrar para o resto da minha vida.

O modo como apontaram meticulosamente e fuzilaram pessoas à volta da área onde as pessoas se encontravam de pé, e no centro da qual eu estava, sem qualquer consideração pela vida humana. Não parecia real. Esperava a qualquer momento que alguém me dissesse que era só um pesadelo. Mas ter sido uma sobrevivente deste horror permite-me lançar alguma luz sobre os heróis. Ao homem que me confortou e arriscou a sua vida para tentar cobrir o meu cérebro enquanto eu soluçava, ao casal cujas últimas palavras de amor me permitiram continuar a acreditar que há bem no mundo, ao polícia que conseguiu salvar centenas de pessoas, aos completos estranhos que me apanharam na estrada, me levantaram e consolaram durante 45 minutos em que acreditei realmente que o rapaz que amo estava morto, ao homem ferido que eu tomara por ele e que, ao aperceber-me de que ele não era Amaury, me abraçou e disse-me que tudo ia ficar bem apesar de ele próprio estar sozinho e assustado, à mulher que abriu as suas portas aos sobreviventes, ao amigo que me ofereceu abrigo e foi comprar roupas novas para que eu não tivesse de usar este “top” manchado de sangue, a todos vocês que me enviaram mensagens de preocupação e conforto – vocês fazem-me crer que este mundo tem o potencial para ser melhor. Para nunca deixar isto acontecer outra vez. Mas a maior parte disto é para as 80 pessoas que foram assassinadas dentro daquela sala de espectáculos, que não tiveram tanta sorte, que não puderam acordar hoje e a toda a dor que os seus amigos e famílias estão a atravessar. Lamento tanto. Não há nada que possa resolver a dor. Sinto-me privilegiada por estar lá com os seus últimos suspiros. E acreditando sinceramente que me iria juntar-lhes, prometo que os seus últimos pensamentos não estavam nos animais que causaram tudo isto. Estavam a pensar nas pessoas que amavam. Enquanto estava caída no sangue de estranhos e esperava que uma bala acabasse com os meus meros 22 anos, lembrei-me de cada face que alguma vez amei e segredei amo-te, uma vez e outra, reflectindo nos expoentes da minha vida. Desejando que aqueles que amo soubessem quanto, desejando que soubessem que não importa o que me acontecesse, continuassem acreditando na bondade das pessoas, em não deixar aqueles homens ganhar. A noite passada, as vidas de muitos foram mudadas para sempre e cabe-nos a nós sermos pessoas melhores. Viver as vidas que as vítimas inocentes da tragédia sonharam mas tristemente não poderão agora nunca preencher. RIP anjos. Vocês nunca serão esquecidos”.