Uma solução de confiança e de futuro

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Já a crise das dívidas soberanas faziam o seu agressivo percurso contra as pessoas, contra os estados e contra tudo o que pudesse questionar a capacidade de decisão e de enriquecimento majorado das grandes instituições financeiras mundiais, – os “mercados” -, quando o presidente de uma dessas instituições declarava ao mundo que aquele era o momento em que o capitalismo derrotaria definitivamente o socialismo e que, essa, era a vontade de Deus…

Deus, que não tem andado muito ocupado com estas questões da finança, da política, e afins, foi chamado ao discurso para tentar credibilizar a pia e submissa intenção dos plutocratas de cumprir esse desígnio divino, garantindo dessa forma que, com a vontade e a insaciabilidade de sempre, os pobres seriam cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais, e muito mais, ricos. Adivinha-se a “harmonia” de tal desiderato e o indispensável e empenhado tributo de que ficaria credor o responsável por tão reconfortante e definitiva dissolução da angústia dos poderosos.

Estamos a dias de, na sequência das eleições legislativas nacionais de 4 de Outubro, termos uma solução governativa a que o PR dê guarida e podermos, então, retomar o percurso, há muito interrompido, de, com os portugueses, todos eles, construirmos uma sociedade equilibrada, justa, solidária e determinada na criação de riqueza, na redução do desemprego e apostando, como sempre deveria ter feito, na qualificação, na investigação, na inovação, na modernidade, em suma.

Mas, talvez por que possa não estar tão assegurado o teíficado triunfo do tal capitalismo sobre o infernizado socialismo, assiste-se, na sociedade portuguesa, a uma excitada troca de argumentos sobre o que, em matéria de formação de governo, podem, ou não, propiciar os resultados eleitorais e as apocalípticas consequências que dessas escolhas podem resultar. Ou seja, em vez de, serenamente, deixar que as instituições funcionem cumprindo a Constituição e a lei, o que seria normal e aconselhável, procura-se, sem vergonha, diria, influenciá-las, condicioná-las e colocá-las ao serviço de sectores fragmentados da população e não, como se imporia, ao serviço do País e dos seus filhos.

A má consciência de quem, durante cinco anos, contradizendo uma história de entendimento entre o PS e o PSD que, garantindo a sua autonomia ideológica e programática, sempre souberam colocar em destaque o que era essencial para a preservação do regime democrático, da sua consolidação, da sua evolução, da sua modernização e do seu insubstituível papel na edificação de um Portugal de futuro e com futuro, a má consciência, dizia, de quem marginalizou o PS, de quem o ignorou, de quem o não quis enquanto parte das soluções a adoptar, resulta agora numa procura, sem regras e sem decoro, do PS como elemento último, mas indispensável, da estratégia de manutenção do poder dessa direita, custe isso o que custar nos domínios das promessas feitas, das impossibilidades que se tornaram possíveis, das linhas vermelhas que verdejaram, dos perigos que deixaram de ser, das sombras negras que clarearam, da tempestade que redundou em bonança.

Tenhamos calma. A última palavra tem-na o PR, nos termos da Constituição da República Portuguesa, e será ele, portanto, quem avaliará as soluções de governo com que será confrontado, no momento certo, pelos partidos políticos que, na Assembleia da República, entretanto, lançam os alicerces do edifício político que, com estabilidade, dê ao País as condições necessárias para ser governado e poder corresponder eficazmente aos muitos desafios com que está comprometido.

Estamos a dias de sermos capazes de afirmar, sublinhando, os nossos compromissos internacionais,- todos eles -, particularmente os que resultam da nossa qualidade de parte de pleno direito na União Europeia e na zona Euro e com as obrigações daí resultantes, mas no orgulho de sermos iguais, e não aviltados pela diferença da pequenez territorial e da insuficiência de recursos, a que teremos de corresponder com trabalho e mérito, sem complexos.

E é este o desejo que, tenho a certeza, partilho com os meus concidadãos.

Post-scriptum

O subsídio de mobilidade continua a suscitar, felizmente bem, episódios de denúncia, reações de incompreensão, atitudes de revolta, manifestações de inconformismo. Perante isso, o governo regional propagandeia-o, no seu regulamento e funcionamento, e a comunicação social ecoa e amplifica a despropositada publicitação, atendendo ao imerecido objecto – os termos e condições em que tal subsídio é atribuído aos cidadãos madeirenses, ou aí residentes – de tal prática.

A Portaria em vigor, urdida em Lisboa com a colaboração do governo regional, tem o objectivo primordial de humilhar madeirenses e de os obrigar a apanhar, do chão, a esmola que, de forma displicente, arrogante e carregada de má vontade, para lá foi atirada do cimo da carroça onde foi a contragosto desenhada.

Funchal, 14 de Outubro de 2015