Botica Inglesa: uma história feita de alquimia e paixão

botica inglesa farmácia
O edifício construído por Jayme de Abreu. Na esquina, a icónica Botica Inglesa. Ao lado, a mercearia do Gomes.

* RUI MAROTE (fotos)

Podia ter sido apenas uma feliz oportunidade de negócio. Mas cedo se tornou uma espécie de paixão. No centro desta história estão a Botica Inglesa, uma das farmácias mais antigas do Funchal, e o seu fundador, Jayme Polycarpo de Abreu, homem que dedicou mais de 60 anos de vida ao serviço do bem estar e da saúde dos funchalenses.

Atualmente, o espaço é gerido por outros empresários, mas o edifício, ao cima da Avenida Zarco, na esquina com a Rua Câmara Pestana, continua na família e guarda ainda testemunhos do caráter empreendedor deste madeirense que, apesar da sua infância e juventude longe da ilha, nos embalos de uma educação britânica, teimou em regressar à terra natal e aqui dar provas do talento para os negócios.

A Botica Inglesa foi o seu grande projeto de vida. Uma paixão, na verdade, expressa na resposta que um dia deu a quem a quis comprar: “Como posso vendê-la se não tem preço?”.

Tudo terá começado há cerca de cem anos, quando Jayme Polycarpo de Abreu acabado de chegar à Madeira é contratado para trabalhar na farmácia Dois Amigos, onde permanece à frente da gerência durante uma década. À conta da sua competência, o negócio prospera e o jovem, à beira dos 30, ousa pedir sociedade ao então proprietário. Paulo Aragão não aceita e o que poderia ter desanimado foi, pelo contrário, o incentivo para se instalar por conta própria. Num pequeno rés do chão, no Largo da Igrejinha, Jayme de Abreu abre então pela primeira vez as portas da Botica Inglesa. Tempos depois constrói o atual edifício que fica concluído em 1939 e para onde transfere definitivamente a farmácia.

botica inglesa farmácia
Caixa de primeiros socorros para empréstimo aos consultórios médicos.

“f.s.arte” – Faça-se segundo a arte

Nos dias que correm, são já poucos os que recordam o prestígio e a inovação que a Botica Inglesa trouxe ao Funchal, a partir dos anos 40 do século passado. Para além dos ditos medicamentos de receita, ali produziam-se pomadas, emulsões, cápsulas, tónicos e xaropes únicos, de fabrico próprio, muito procurados por clientes e médicos. São desse tempo a loção capilar JPA, mais tarde “Aida”, a pomada inglesa para afeções dermatológicas que chegou a ser exportada para o continente, e o Total Tónico, um composto vitamínico ao qual era adicionado um pouco de vinho Malvasia. A farmácia teve mais de 20 funcionários.

Dr. Belmonte, Castro e Abreu e Leite Monteiro eram exemplos de clínicos que só prescreviam receitas oficinais aviadas na Botica Inglesa. A expressão “f.s.arte” – Faça-se segundo a arte – surgia sempre ao fim da exaustiva lista de substâncias.

Ao contrário do que agora acontece, em que os medicamentos são produzidos por grandes laboratórios e comercializados massivamente, há cerca de 80 anos a arte farmacêutica envolvia uma mistura de segredos de alquimista e de precisão técnica. Eram as chamadas farmácias de oficina onde os manipuladores, pessoas de grande engenho e perícia, preparavam os compostos, de acordo com as especificações dos médicos, e criavam produtos de marca própria, distintos dos da concorrência.

Um microscópio de outros tempos.
Um microscópio de outros tempos.

A Botica inglesa, ou English Chemist como ainda mantém o letreiro, chegou a ter cinco manipuladores na cave. O trabalho era intenso, atendendo à precisão que se exigia na manipulação de substâncias químicas e à larga carteira de clientes. Mas a qualidade nunca foi descurada, sob o olhar atento e conhecedor dos senhores Lubélio e Canha, homens da máxima confiança do empresário.

Quem era Jayme Polycarpo de Abreu?

Não tinha propriamente formação na área. Foi o que se chama de autodidata. Nascido em 1885, no Funchal, passou a infância e juventude na colónia britânica de Trinidad, à guarda de uns tios, e estudou contabilidade em Londres. O espírito estudioso e o facto de dominar a língua inglesa facilitaram o acesso aos livros técnicos, complementando toda a experiência adquirida na farmácia Dois Amigos, onde aprendeu os segredos dos medicamentos antes do advento das grandes farmacêuticas.

Jayme Polycarpo de Abreu botica inglesa
O fundador da também conhecida English Chemist.

Além disso, detinha uma visão empresarial pouco comum à época. Todos os anos viajava, levando consigo filhos e netos, pelas cidades do país e da Europa. Eram verdadeiras experiências de prospeção e pesquisa sobre o que de mais inovador se fazia lá fora. Adorava viajar de barco, chegando a cumprir um périplo de dois meses por África, a bordo do Santa Maria. Também se aventurou num cruzeiro por todas as ilhas do arquipélago dos Açores, no Carvalho de Araújo.

Homem austero mas cordial, até aos seus 80 anos Jayme de Abreu era o primeiro a chegar à farmácia, depois da passagem matinal pela barbearia. Às 8h55 em ponto deixava entrar os funcionários e cinco minutos depois abriam-se as portas ao público. À tarde, por volta das 17h30, fazia um intervalo para ir a casa jantar. Regressava depois à farmácia para encerrá-la às 19h30. Entre a residência, na Rua Conde Carvalhal, e o centro da cidade, deslocava-se de autocarro. Factos curiosos que marcaram rotinas ao longo de 60 anos.

jayme polycarpo de abreu botica inglesa
Jayme de Abreu na companhia dos filhos e da esposa, Maria Joana de Abreu, na residência à Rua Conde Carvalhal.

Espólio à espera de ser conhecido

Estas e outras memórias são contadas na primeira pessoa por Martim Diniz, neto do fundador da Botica Inglesa e atual proprietário do edifício. Martim Diniz, cardiologista sobejamente conhecido da nossa praça, acompanhou o avô em algumas destas viagens e recorda, com humor, as inúmeras visitas e contactos com técnicos e farmacêuticos, tantos quantos as farmácias encontradas.

Mas nem ele nem o irmão seguiriam as pisadas de Jayme de Abreu. Seria Jaime Policarpo Júnior, tio materno de Martim Diniz e filho do empresário, a formar-se em farmácia e a assumir o negócio após a morte do patriarca, em 1972. A farmácia ficaria nas mãos da família até 1995, ano em que seria trespassada.

Martim Diniz guarda memórias felizes e objetos da antiga Botica Inglesa.
Martim Diniz guarda memórias felizes da antiga Botica Inglesa, a sua segunda casa.

O edifício, na sua globalidade, continua porém pertença de Martim Diniz. Mantém a traça original, apenas com ampliação da zona do terraço. O valor sentimental que nutre pelo local é grande. Não só porque foi construído pelo seu avô materno, mas também pelas memórias de infância e juventude. Nos pisos superiores da Botica Inglesa funcionavam os consultórios do seu pai, o dr. Raul Diniz, e do tio, Álvaro Diniz. Daí que a opção pela medicina, explica, tivesse acontecido naturalmente, desde tenra idade.

Dos tempos da Botica Inglesa do avô restam vários equipamentos e objetos que guarda com carinho. Almofarizes, microscópio, balança de precisão, caixas de transporte de medicamentos e de primeiros socorros, escarradeiras, potes e inaladores encontram-se na sua posse à espera de um dia contarem a história de um Funchal pacato, familiar, antes da chegada dos gigantes da indústria farmacêutica.

BOTICA INGLESA 001
Pequenos objetos usados no alívio das gripes e constipações.

Muitos outros objetos antigos, de grande valor, estarão ainda adormecidos nas instalações da farmácia. Confrontado com a possibilidade de aquele espólio poder um dia ser inventariado e apresentado em espaço museológico, Martim Diniz diz-se recetivo a colaborar com as entidades competentes nesse sentido.

A Botica Inglesa e o seu fundador são parte importante do património sócio, económico e cultural da cidade. Manter vivas estas memórias seria uma forma de garantir a preservação de um espólio único e promover novos nichos de atração científica, cultural e turística.