Quando a confiança vai a leilão

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FOTO Rui Marote

Nos últimos dias, a população foi informada de que a antiga Farmácia Confiança, na Rua Fernão de Ornelas, vai a leilão. Depois deste rótulo pesado que recai sobre o tradicional espaço, é fácil perceber-se o que pode ter acontecido: renda elevadíssima, pagamentos oficiais nem sempre a tempo e horas às farmácias, a incontornável crise e o cerrar de portas. Depois, depois fica nas mãos do leiloeiro a ver quem dá mais. E assim vai a confiança a leilão…

Todos se lembrarão da figura tutelar e até maternal da antiga proprietária da Farmácia Confiança, conhecida familiarmente como a “Dra Ângela”. Houve tempos em que ir à farmácia era como que consultar um segundo médico de família, em que o farmacêutico era uma espécie de amigo de todas as horas, sempre disponível para orientar os problemas das famílias. E quantas vezes emprestar o remédio a quem poucos recursos tinham. A “Farmácia da Dra Ângela” Fernandes eram assim.

O FN bem se recorda das gentilezas e desvelos da Dra Ângela e dos respetivos funcionários, quase tão antigos como a casa. No coração da cidade, a Farmácia Confiança inspirava isso mesmo, confiança, fidelidade e segurança. Tratava-se de um espaço de saúde que transitou da mãe para a filha e que sempre foi gerido pelos princípios do rigor e da qualidade. Bem nos lembramos das advertências da Dra Ângela quando indicava um medicamento para resolver um problema momentâneo, naquele estilo “low profile”, sereno mas firme.

Mudaram-se os tempos. Os problemas de saúde da conhecida proprietária terão esgotado as suas forças, entre outros encargos. A Farmácia foi vendida a outro titular. Mais jovem e empreendedor. Porém, o negócio foi assumido já com valores à partida muito, muito elevados. Continuou a simpatia do gerente e das funcionárias mas os tempos passaram a ser definitivamente diferentes: encargos pesados, acumulação de dívidas e o fechar de portas quando a situação se tornou insustentável.

Hoje, a Farmácia Confiança, em vez de simpatia e confiança, tem letreiros na porta a anunciar “leilão”. Não deixa de ser triste este destino, sobretudo para os funchalenses que têm memória de um passado recente de genuína confiança.


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