Os bodes expiatórios

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São dois Estadistas, sobre os quais caem todas as críticas dos Europeus do Sul. Falo de Ângela Merkel e Wolfgang Schäuble.

A Alemanha, desde Bismark, assume um papel difícil na Europa. Em Maio de 1945 tudo terá mudado, com a quase destruição do País. O lobo dorido, virava cordeiro. Há uns tempos a esta parte, tudo parece ter-se desmoronado, graças à sua irresponsabilidade e/ou incompetência sendo acusados de estarem a ressuscitar o lobo mau.

A crise Grega, mal gerida na opinião dos seus delatores, seria a faísca que faria desabar o edifício europeu. Serão assim tão anti-europeístas Merkel e Schäuble? Vejamos. Schäuble, nascido em 1942, chega à política em 1971. Mantém-se no Parlamento há 40 anos. O financiamento opaco do partido – a mesma doença em todo o lado – leva-o a ter de pedir desculpas à Câmara dos Deputados. Acompanha, como Min. do Interior, Helmut Kohl na reunificação. Momento de grande euforia para toda a Nação. Recebeu, em 2012, o Prémio Carlos Magno, distinguiam assim o seu empenho na causa Europeia. Merkel, hábil negociadora, vivia na Alemanha de Leste, no momento da reunificação. Acompanha Kohl e a CDU nessa difícil tarefa. Em 2013 ganhou as eleições.

Merkel e Schäuble lideram um País e, tal como os lideres do Países do Sul, com destaque para Grécia, têm que prestar contas aos eleitores. Governar não é arrastar-se no poder por ganhar eleições sucessivas, é assumir responsabilidades ainda que seja preciso adoptar medidas duras junto dos concidadãos. Merkel teve de fazê-lo várias vezes, sendo a última a recente votação parlamentar em que a opinião pública alemã não estava nada receptiva a aceitar o acordo com a Grécia. A criação da U.E. foi um longo processo de compromissos, onde o aparecimento do euro foi mais um. Aqueles dois acreditam que o euro é o cimento da Coesão Europeia e lutam ferozmente por isso.

Facilitadores, os Povos do Sul, com grandes culpas dos seus dirigentes, esqueceram os compromissos assumidos com a U.E.. As cortinas de fumo com que aqui por baixo se criticava Frau Merkel e os seus apelos à disciplina financeira foram tais que até, em 2012, o minúsculo ex-JM, na célebre coluna do cidadão, se insurgiu contra Merkel. O desvario criticado por Merkel, com resposta no ex-JM, foi potenciado na Grécia. Os dirigentes dos Países do Sul têm de prestar contas ao eleitorado, mas Merkel e Schäuble também. Compreendo o drama do Syriza quando, assumindo o comando de um navio prestes a naufragar em mar tumultuoso, conduzido por outros timoneiros durante a calmaria, tem de defender os seus concidadãos empurrados para a rocha pelas tripulações anteriores.

Admiti, desde o início da crise, que se chegaria a um entendimento, com certeza difícil, com a Grécia. Penso que os media prestarão um grande serviço à Europa e aos Europeus se fizerem sentir aos Gregos que a maior parte dos seus problemas está no seu País e não na Alemanha. O Povo Grego tem um pesado fardo às costas. Maus salários, péssimas reformas, fome e desemprego são os ingredientes com que os eleitos e povo terão de lidar. Porém não podemos esquecer que Merkel tem de congregar à volta da sua liderança, uma opinião pública alemã farta dos gregos, apreensiva com o futuro da U. E. e, pior, os minoritários que querem libertar-se da Europa.

Merkel fez bem distanciar-se da gestão da moeda única, onde o euro grupo e o seu leal Min. das Finanças trataram dos difíceis acordos com a Grécia. Os dois bodes expiatórios crucificados na comunicação social e acusados durante os últimos meses de todos os males mostraram aquilo que é estabelecer consensos. Conseguiram-no, conciliando os estados que discordavam do acordo com os Gregos e, agora, Merkel, face aos refugiados, mostra aos delatores aquilo que vale no combate aos nacionalismos no seio da U.E.