Entrevista a Alberto João Jardim: É um erro histórico andar “aos beijinhos e abraços” com Lisboa

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Veja a entrevista na nossa página do Youtube.

Governou a Madeira durante mais de 37 anos. Deixou o poder a 20 de Abril de 2015. Todos os dias de manhã ou faz uma caminhada de uma hora a pé ou vai nadar ao Clube de Turismo. Em entrevista ao Funchal Notícias, na casa onde nasceu, na Rua do Quebra-Costas -que foi comprada e remodelada pela Fundação Social-Democrata- Alberto João Jardim disse que ainda está a reflectir se deve avançar, ou não, com uma candidatura presidencial.

Queixa-se de falta de dinheiro mas também de uma vaga de fundo “em cada cidade e em cada aldeia” que apoie uma candidatura anti-regime, como a sua. Falta o exército para a tomada da Bastilha. E cita Miguel Torga para resumir o impasse: “O país todo grita mas ninguém se mexe”. Frase que também serve para vaticinar a possibilidade da coligação PSD/CDS se manter no poder a partir de 4 de Outubro.

Não se identifica com Pedro Passos Coelho e não esteve presente no momento do seu discurso, no Chão da Lagoa, para –diz- não pensarem que estaria a subscrever as suas palavras.

Já Miguel Albuquerque ganhou a liderança do PSD mas, segundo Jardim, passado todo este tempo, ainda não conseguiu unir o partido.

Frontal, Alberto João Jardim critica a forma de fazer política “aos beijinhos e abraços” com Lisboa e critica “declarações desastrosas” que Sara Madruga da Costa, cabeça-de-lista pelo PSD, fez, alegadamente relegando o passado do partido. Mas apoia a decisão de PSD e CDS irem a votos separados na Madeira.

Lamenta que Lisboa tenha protelado a decisão de dossiers (por exemplo o subsídio de mobilidade aéreo e marítimo) só porque o anterior governo regional não agradava e havia que esperar por um “do agrado do Dr. Passos Coelho”.

Sobre a saída de Manuel Brito do Governo Regional, não o surpreendeu pois, disse, “o homem só fez patetices”. Critica a obsessão por um novo Hospital para substituir o Dr. Nélio Mendonça quando o que precisa de ser substituído é o Hospital dos Marmeleiros.

Recusa a ideia da Madeira ter uma dívida superior a 6 mil milhões de euros e garante que só não saiu do Governo, em 2011, para mostrar que sabia governar a Madeira na abundância mas também quando não havia dinheiro.

alberto-joao-jardim-09Já escreveu, à mão, mais de 400 páginas, sete anos do seu livro de memórias (período entre 1974 e 1980).

Na entrevista, fala sobre as casas de férias do Governo no Porto Santo, das paródias no bar do Henrique, do actual Governo Regional que é “mais sensível perante a Opinião Publicada”, e do “estado de necessidade” que o levou a assinar o PAEF que qualifica como “um dos mais graves actos coloniais da História”.

Queixa-se que já foi censurado pelo Jornal da Madeira e fala da Fundação Social-Democrata que arrendou um espaço a um empresário chinês, chineses que criticou, há alguns anos por estarem a invadir o comércio madeirense. “Só os burros não mudam”, diz agora.

Sobre o FAMA que, em tempos, ameaçou transformar em partido político, Jardim detectou um “misterioso esmorecimento” desde que começaram as guerras internas no PSD-M (2012). Ao ponto de, recentemente, ter escrito ao presidente do FAMA, Gabriel Drummond, pedindo explicações.

Reitera o seu pensamento sobre a Maçonaria que sentiu chegar em força à Madeira a partir da década de 80. Deixou se ser conselheiro de Estado, perdeu a imunidade e, desde essa data, foi notificado de dois a três casos pendentes na Justiça por causa de ilícitos eleitorais.

Fala das famosas viagens a Bruxelas e do porquê de ter usado a sala VIP. Fala dos filhos e genros no Poder e do desporto. Ainda acredita que a solução proposta em 1998 (clube único) era a ideal para a Madeira.

Diz que Carlos Pereira devia mandar rezar uma missa todos os dias por o Marítimo ter recebido o Estádio dos Barreiros da Região e só se arrepende de ter promovido umas piscinas “sumptuosas”.

Funchal Notícias: Deixou a Presidência do Governo no dia 20 de Abril. Como é que tem sido a sua rotina até hoje?

Alberto João Jardim: Não é muito rotineira. Normalmente, antes de Agosto, fazia uma caminhada de uma hora de manhã. Antes era para me arranjar, ler o Jornal –o Jornal da Madeira que não está grande coisa- tomar o pequeno almoço. Como durmo bem, tenho que acordar sem despertador. Pequeno-almoço, banho, arranjar-se, ler o jornal, uma caminhada de uma hora. Passava-se a manhã nisto. Quando começou a aumentar o calor, em Agosto, comecei a ir todas as manhãs nadar. Passo as manhãs no Clube de Turismo, menos ao Sábado e ao Domingo que fico a dormir. À tarde, normalmente estou aqui [na casa onde nasceu, que foi comprada e remodelada pela Fundação Social-Democrata] ou estou a escrever ou estou a falar com pessoas ou em iniciativas lá fora. À noite, às vezes, tenho jantares ou fico em casa.

FN.: Como é que estão as suas memórias. As inúmeras fotocópias…

AJJ: Comecei a trabalhar em meados de Maio. Em meados de Agosto eu tinha já escrito o que quero deixar escrito sobre o período entre 1974 e 1980. Já tinha sete anos prontos o que significa mais de 400 páginas escritas à mão. Isto significa, em letra de prelo, duzentas e tal páginas. O primeiro volume deverá acabar em 1980 com a morte do Sá Carneiro. Como nunca na vida levei dinheiro por escrever, nem levei dinheiro por falar em televisão, nem por qualquer conferência ou intervenção, dei os meus direitos de autor, gratuitamente, à Região Autónoma, ao Arquivo Regional da Madeira. Em troca, eles funcionam como ‘staff’. Irão fazer a edição e ganhar o dinheiro da edição.

FN: Por esta altura, estaria no Porto Santo, nas casas do Governo Regional e que agora vão ser concessionadas.

AJJ: É uma opção do Governo. Eu nunca poderia fazer isso. Você foi adversário do meu estilo de governar. Está no seu direito. Você sabe que eu tinha muito respeito pela Opinião Pública mas gostava de enfrentar a Opinião Publicada. Quem me conhece sabe que nunca cederia em deixar de fazer uma vida que fiz durante 40 anos, em que tudo estava legal. A própria Provedoria de Justiça foi chamada a pronunciar-se, acho que por iniciativa do PS, se os membros do Governo podiam utilizar, em férias, a casa. No meu caso nem era em férias. Como sabe, tinha um gabinete no Porto Santo onde trabalhava todas as tardes. Aquilo era meias férias meias tardes e isso implicava não se gastar dinheiro em hotéis quando os membros do Governo tinham que ir ao Porto Santo. Claro que há sempre umas invejas medíocres.

alberto-joao-jardim-12FN: Já foi ao Porto Santo este ano?

AJJ: Sou capaz de ir em Setembro. Agora vou com a família dar outra volta e vou no final de Setembro. Para mim é o melhor mês no Porto Santo. Ía normalmente ao Porto Santo em Setembro e, quando os filhos foram estudar, aí é que já não se podia utilizar Setembro. Mas isso das casas… não sou de ceder à Opinião Publicada. Não estou a criticar a opção deste Governo, são livres, podem ser até mais sensíveis perante a Opinião Publicada. Mas é uma opção deles. A minha não era essa.

FN: Nesse tempo no Porto Santo, aproveitava, normalmente, a presença da comunicação social para dar azo a algumas das suas críticas mais contundentes, por esta altura do Verão…

AJJ: Você sabe muito bem que o Político tem que saber aproveitar as oportunidades. A própria transformação da Madeira foi aproveitar as oportunidades. O que não se fizesse numa determinada altura já não se fazia. No Porto Santo, no princípio a minha preocupação era lançar o Porto Santo. Foi na altura em que as aulas da ‘universidade do Henrique’ eram mais acidentadas e mais polémicas. Obrigámos a comunicação social do continente, durante uns poucos de anos, a falar do Porto Santo em primeira página, tais as coisas absurdas que dizíamos e fazíamos. Com um espírito verdadeiramente coimbrão. O que se passava no Bar do Henrique era, nem mais nem menos, do que uma transplantação das paródias das noites coimbrãs. Mas como havia gente que levava a sério o que se dizia ali, nós fartávamos de rir de ver espelhado em primeiro página o que se dizia no Henrique. Depois do Porto Santo estar lançado, vou ser franco, aproveitei a presença de jornalistas, numa altura em que havia menos gente a falar, tanto no continente como aqui, para ir, sempre com um certo humor, dizendo o que pensava sobre determinadas matérias.

FN: Recados externos e internos, para dentro do seu próprio Governo…

AJJ: Um pouco de tudo. Isso é normal em política. Em Portugal, o país nasceu tarde para a Democracia. Tem destas coisas. Ainda se leva muito a sério, como se pertencesse ao domínio do sagrado. Isso era feito com certo espírito de humor porque se tratava de férias. Ainda me dava mais vontade de rir por dentro porque eu dizia aquilo que queria mesmo dizer mas debaixo de um ar de quem está de férias, na paródia.

FN: Outro palco era o Chão da Lagoa. Este ano esteve na festa mas não subiu ao palco.

AJJ: Cheguei um pedacinho tarde. Não quis estar presente nos discursos. Tenho uma orientação e não trago as questões pessoais para a política. Costumo dizer que um estadista não confunde questões de Estado com questões pessoais. Toda a gente sabe que não me identifico com o Dr. Passos Coelho e ele, muito menos, comigo. De maneira que, estar presente no discurso dele era dar a ideia que estava a subscrever aquilo. Também não vou votar noutro partido. Ainda por cima com as listas que apareceram na Madeira. Isto está mesmo feito para ser o PSD a ganhar. Mas isso é uma teoria da conspiração. Não quis estar presente.

FN: Mas não ter subido ao palco pela primeira vez ao fim de mais de 40 edições…

AJJ: No meu último Chão da Lagoa estávamos a comemorar os 40 anos do PSD. Mandei por o bolo de velas no meio da multidão. A minha última frase do palco foi ‘agora vamos apagar as velas, mas eu vou apagar no meio do Povo, quero voltar para o Povo, de onde vim’. Virei costas ao palco e vim cá para baixo apagar as velas. Dava-me um gozo engraçado ver aqueles gajos importantes do PSD, ou que se julgam, todos no palco, espantados, a olhar cá para baixo. Nesse momento foi o meu regresso ao Povo. Quando as coisas são programadas e são feitas no tempo que nós queremos que sejam feitas, não me causa problema nenhum.

FN: Em mais de 37 anos de Governo, nenhum membro do seu Governo foi remodelado a meio do mandato. Tivemos 100 dias de Governo e já houve uma remodelação…

AJJ: São problemas deste Governo que não me dizem respeito. Mas estava-se a ver que, mais tarde ou mais cedo, aquilo ía rebentar.

FN: E rebentou pelo lado que tinha previsto!

AJJ: O homem só fez patetices. Primeiro é membro de um Governo PSD, nunca tendo sido do PSD e tendo sido sempre hostil ao PSD. Depois, dizendo que representava o Governo, vai à publicação de um livro [‘A Herança’, de Carlos Pereira], que é contra o PSD. Depois, um dia dizia que o Hospital era daqui a 20 anos e noutro dizia que era daqui a 7 anos. Havia um dia que não havia dinheiro, noutro já havia. Ainda não percebi esta obsessão do Hospital. É preciso um Hospital novo mas não é para substituir o Hospital Dr. Nélio Mendonça, é para substituir o Hospital dos Marmeleiros. O que é preciso fazer é um Hospital alternativo aos Marmeleiros e não ao Dr. Nélio Mendonça onde está quase tudo feito. Dou-lhe um exemplo: O Hospital de Estrasburgo, que é um dos maiores centros científicos da França, está em edifícios dos séculos XVII e XVIII. Só que vão acoplando o que a medicina moderna necessita. Há mesmo orientações da União Europeia de procurar, na defesa do doente, ter o maior número de serviços e especialidades juntos para tudo ser mais rápido e urgente. Há necessidade de uma nova infraestrutura hospitalar mas é o chamado Hospital de Internamento Prolongado, Hospital de segunda linha, como é o hoje o Hospital dos Marmeleiros. Sei que fizeram comissões, ainda por cima com a preocupação de ser um de cada partido, como se, sendo de um partido, desse logo capacidade para uma pessoa saber pronunciar-se sobre uma coisa destas.

FN: O seu Governo só recuou na construção do novo Hospital porque não tinha a garantia do Governo da República, das fontes de financiamento…

AJJ: A certa altura, o Dr. que saiu agora, não sei como se chama…

FN: ..Manuel Brito

AJJ: Sim. Disse uma frase que eu tive de gozar publicamente. ‘O Governo em três meses, fez mais que os governos anteriores’. Bem, isto é de gargalhada. Pedi aos meus colaboradores anteriores que me dessem a lista dos últimos 10 anos e pespeguei publicamente tudo o que se fez nos últimos 10 anos. O que era uma tontice. O jardinismo tinha sido bom nos primeiros 30 anos mas tinha dado cabo da saúde nos últimos 10 anos. Isto é uma tontice. Criava-se a matava-se a criatura. Toda esta panaceia de declarações desastrosas, estava-se mesmo a ver que isto ía acabar assim. Não me surpreendeu. No primeiro dos meus Governos fiz remodelações porque foi um governo herdado do Eng. Ornelas Camacho. Mas nunca mais houve porque a minha maneira de pensar é esta: Faço o convite para um Governo de Legislatura, 4 anos. Tenho que dar a essa pessoa a possibilidade de trabalhar descansada. Não estar sobre o cutelo de uma remodelação. A não ser que tivesse roubado, pegado fogo ou fizesse qualquer coisa de muito grave. O acordo comigo era de 4 anos. Depois segui sempre uma regra de lealdade para com os meus colegas de Governo que, aliás, sempre foi correspondida por eles que era, um ataque a um membro do governo eu estava sempre na primeira linha a defendê-lo. Havia esta coesão. Aliás, o partido era muito diferente do que é hoje. O partido, na altura, era muito unido. Só em 2012 é que começaram estas confusões que são paradoxais. Em 2011 há umas eleições, o PSD consegue uma maioria parlamentar absoluta –um Governo de legislatura estável- e no dito 2012 há um conjunto de pessoas, depois de se ter metido dentro do partido gente que nem é do PSD, ninguém controla nada e eles foram fazendo. Aliás, em Lisboa foi a mesma coisa, Lisboa está cheia de gente que não é do PSD. E em 2012 é que se dá estas divisões no partido. Um partido que, durante 40 anos, foi um partido unido, alegre, motivado hoje ainda não conseguiram unir. Quando se começa a fazer declarações em que a preocupação não é a oposição nem o colonialismo de Lisboa mas ainda é o jardinismo e o passado, onde eles nasceram e deviam todos se orgulhar, estão a dar cabo da unidade do partido quando é muito urgente se fazer a unidade.

alberto-joao-jardim-01FN: Quantas vezes falou com o Dr. Miguel Albuquerque depois do dia 20 de Abril?

AJJ: Almoçámos juntos, uma vez, antes da posse e outra vez depois da posse. Depois tenho-o encontrado em vários eventos especiais.

FN: Há dois outros assuntos que têm a ver com este Governo mas também com o anterior. Um deles tem a ver com o dossier das viagens aéreas. Este modelo que foi encontrado…

AJJ: Faço-lhe uma proposta, vamos alargar o dossier…

FN: Já lá vamos!

AJJ: Não, é para nem se perder muito tempo. Esse modelo das viagens aéreas, o fundo de coesão, basta ver as datas em que a Assembleia da República aprovou o barco e as viagens aéreas. A maior parte do que foi resolvido pelo Governo da República estava proposto pelo meu último Governo. Pergunto: Quanto custa aos madeirenses isso ter sido deixado resolver só neste Governo, e muitas, bê-a-bá Santa Justa, não está nada concretizado? Quanto é que custou aos madeirenses ter que esperar por um Governo do agrado do Dr. Passos Coelho para, então, se fazer coisas que já estavam tratadas no anterior Governo?

FN: E a maturação da dívida, prazo de sete anos?

AJJ: Mas qual dívida?

FN: O pagamento do empréstimo dos 1500 milhões de euros?

AJJ: Desculpe! A Madeira tem uma dívida? Recuso essa ideia. Não aceito, como presidente do Governo que fui, e como cidadão madeirense que sou, discutir a dívida da Madeira. Só aceito uma solução. A dívida da Madeira foi feito porque, durante cinco séculos e meio, como comprova um estudo pago pela União Europeia, ‘o Deve e Haver das Finanças da Madeira’, essa dívida foi feita para nós sairmos do atraso que resultou de, durante cinco séculos e meio, o Estado central português ter roubado aos madeirenses mais de 50% do valor daquilo que nós produzíamos. E isso explica porque é que no 25 de Abril de 1974 nós somos a Região com PIB per capita mais baixo do país. O meu dever, como governante, era, rapidamente, trazer a RAM ao nível europeu. O meu dever como governante era ir procurar o dinheiro, onde quer que ele estivesse. Só parei com as obras quando deixamos de ter crédito na banca. Deixamos de ter crédito, não porque não tenhamos património, mas porque faltou liquidez à banca. Faltando liquidez à banca, falta ao Governo, pára o Hospital, param as escolas, pára tudo.

FN: Consta a sua assinatura, a 27 de Janeiro de 2012, num documento, que é o plano de ajustamento (PAEF)…

AJJ: Tive de assinar um plano de ajustamento financeiro –que declarei que o fazia em estado de necessidade- porque não tinha outra solução. Mas sempre disse que era uma atitude colonial. Nós somos território português para umas coisas mas não para outras. A dívida da Madeira devia ter sido integrada na dívida nacional. Não tinha nada que haver um plano de ajustamento diferente para os madeirenses. Isso é um dos mais graves actos coloniais da História.

FN: De qualquer forma esse plano foi cumprido à risca pelos seus Governos.

AJJ: O que eu assino é para cumprir. E mais, foi cumprido à risca porque se dizia que o Jardim governa é com muito dinheiro. E essa foi a razão pela qual não me fui embora em 2011. Lembro-me do que se começou a dizer do Dr. Durão Barroso ter ido para presidente da Comissão Europeia. Nessa altura era membro da direcção do Partido Popular  Europeu e fui uma das pessoas que me empenhei para que fosse o Dr. Durão Barroso o presidente da CE. Se eu em 2011 dizia ‘agora passem todos muito bem’, diziam ‘o gajo governou enquanto teve dinheiro, agora que isto está reles vai-se embora’. Disse ‘não, vou ficar’. Fiz uma aposta com o Primeiro-Ministro dizendo, ‘eu cumpro o plano, você não vai cumprir o seu’. Ele reconhece que eu cumpri e eles ainda andam a dar explicações à troika e a troika ainda anda em Lisboa a fazer-lhes perguntas. Sobre o plano da Madeira, a troika já diz absolutamente cumprido, na íntegra. Afinal, o Alberto João sabia governar sem um tostão e sabia governar quando havia dinheiro. Isso aí foi uma questão muito pessoal: Cumprir o que assinei e mostrar que sou tão bom quando há dinheiro como quando não há dinheiro.

FN: Entremos no dossier Presidenciais. Temos candidatos à esquerda e à direita. O Dr. Marcelo Rebelo de Sousa e o Dr. Rui Rio à direita. A Dr.ª Maria de Belém e o Dr. Sampaio da Nóvoa à esquerda. Temos o Dr. Alberto João Jardim ao centro?

AJJ: Só temos candidatos conservadores. Não vejo as coisas assim. Não temos o Alberto João Jardim ao centro. Temos o Alberto João Jardim fora. Para mim temos candidatos do regime. E depois há um tipo que é contra o regime e que está a ver se se candidata ou se toma a decisão de não se candidatar.

alberto-joao-jardim-02FN: Quando é que vai tomar essa decisão? Depois das Legislativas?

AJJ: Espere. Você é pior que os homens da televisão que não deixam a gente chegar ao fim. Como o tipo, Alberto João Jardim, não tem apoio de partidos, não tem dinheiro para o que é preciso… Isto é uma campanha para custar mais de um milhão de euros a toda a gente. Eu nem 100 mil euros tenho na minha conta bancária. Como é que vou fazer uma campanha presidencial?

FN: Mas quando é que vai tomar essa decisão?

AJJ: Se observar os textos que eu venho publicando… o Miguel Torga tem uma frase engraçadíssima que tenho a impressão que foi dita no tempo do Salazar. Ele dizia ‘O país todo grita mas ninguém se mexe’. O que é que isso queria dizer? Os portugueses barafustam, barafustam mas… se você observar os textos que eu tenho feito, tenho dito, ‘sim senhor, os senhores querem mudar isto, querem fazer uma coisa diferente do sistema político em que estamos envolvidos, então organizem-se em cada cidade e em cada aldeia’. Não sou eu que vou por aí fora, feito cavaleiro andante, a ir porta-a-porta a perguntar ‘o sr. quer fazer parte da minha candidatura?’…

FN: Mas o senhor é que diz que quer tomar a Bastilha?

AJJ: Tomar a Bastilha é o título para um programa em que disse aos portugueses: ‘o meu pensamento para Portugal está aqui. Vocês andam a discutir questões de governo e tal. Isso é uma chachada. É preciso começar a mudar nisto. É preciso devolver a Soberania ao Povo. Fazer um referendo’. Depois disse ‘eu faço isto se for eleito, agora não tenho meios para me candidatar’. Agora estou a dizer ‘se os senhores, em cada aldeia e em cada cidade, organizarem uma comissão e digam ‘muito bem, a gente também está todos fartos disto, avance’, muito bem, o Alberto João avança. Agora figuras de D. Quixote, fazer como o Coelho II [José Manuel Coelho que foi candidato presidencial]….

FN: Coelho que teve 38 mil votos na Madeira quando se candidatou…

AJJ: Isso são os votos todos da oposição.

FN: Seria um risco o Dr. se candidatar agora e ter menos do que esses 38 mil votos…

AJJ: Não estou pensando em riscos. Fiz a vida inteira uma vida sob risco. Actuo por convicção.  Acho é que, depois da minha vida político, não devo cair no ridículo de andar com dois pequenos atrás de mim a tocar corneta pelas aldeias de Portugal, a pedir votos. Tomem juízo. Se houver uma manifestação… 80% dos portugueses dizem mal disto tudo, dos partidos, dos políticos. Mas depois de dizerem mal –cá volta o Torga- fazem barulho mas ninguém se mexe. Ficam à espera que sejam os partidos e a comunicação social a ditar, comunicação social que, de uma maneira geral, é dos interesses das oligarquias financeiras que controlam o país. Você ainda me vem com esquerdas e direitas. À esquerda estou eu que estou contra isto tudo. O próprio Partido Comunista é anedótico. Faz um barulhão nas ruas mas depois não quer saber do desemprego. Quer saber é se os que estão empregados têm ainda mais umas vantagensinhas mesmo que seja à custa de mais desemprego. E é isto que é preciso mudar. Você não pode estar num país em que foi arrastado para uma situação financeira em que era preciso tomar medidas. Agora, as medidas foram feitas à custa das classes mais desfavorecidas. Você tem uma Constituição que se diz programática e não garante as pensões das pessoas, que já são miseráveis. Destroi as expectativas de vida de pessoas que trabalharam a vida inteira e que vão ter uma velhice perturbadíssima. Tudo foi destruído. Vai em cima dos salários das pessoas. Mas o que é isto! Isto é uma solução para a austeridade? Isto é, nitidamente, a destruição da classe média.

FN: Isso significa o quê? Que a coligação PSD/CDS corre o risco de perder o poder em Outubro?

AJJ: Não, porque isto foi em toda a Europa. Volto outra vez ao Miguel Torga ‘os portugueses gritam mas não se mexem’. Se vão perder o poder não sei.

FN: As sondagens dão um empate técnico.

AJJ: Para ajudar à confusão. Mas a gravidade do problema é este. Você não concorda com estes tipos mas depois vai procurar uma alternativa e é tudo reles. Nada presta. A lista do PSD na Madeira perdeu os melhores deputados que tinha.

FN: A Madeira tem, neste momento, quatro mandatos. Com esta lista [do PSD] a expectativa é para manter?

AJJ: O Povo que decida. Tem cinco caras novas. A direcção do partido quis assim. Evidentemente que estas caras novas têm de fazer um grande esforço para unir o partido e o eleitorado do PSD. A cabeça-de-lista fez declarações já desastrosas na televisão. Quando ela diz ‘eu não tenho nada a ver com o passado do PSD’ apetece, nós todos que fizemos o PSD e construímos um passado, também dizermos ‘Também não temos nada a ver com a senhora’.

FN: É uma nova geração…

AJJ: Não pode dizer isso. Tem o direito de dizer ‘nós temos uma forma diferente de fazer política’, agora, dizer ‘o que está para trás está tudo mal’, ‘agora vamos andar aos beijinhos e abraços com Lisboa’. Não perceberam que Lisboa só vem ao nosso encontro quando entende que nós vamos entrar em rupturas graves.

FN: É preciso esticar a corda?

AJJ: Sim. É a lição que tenho de 500 e tal anos de História da Madeira. O Dr. Fernão de Ornelas esticou a corda, não andou aos beijos. Quando tirou a prisão que estava no Parque de Santa Catarina –sei isto tudo muito bem porque o meu avó era vereador dele- e pôs nos Viveiros, Lisboa pediu satisfações sobre quem é que o autorizou a mudar a cadeia. Não havia Autonomia.

FN: E não ir coligado cá? Foi uma boa opção?

AJJ: Aí o PSD resolveu bem.Desde a Lei da Colonia, não há uma cultura de entendimento entre o PSD e o CDS. Não é apenas por culpa do PSD. O CDS, muitas vezes, pisou o risco. Aliou-se muitas vezes ao PC e à esquerda mais radical, contra o PSD. Mesmo que houvesse vontade no PSD –suponhamos que o PSD não tinha maioria e precisasse do CDS para governar na Madeira isso seria outra questão- mas um partido que tem maioria parlamentar absoluta não vai a eleições coligado. Não conheço essa solução em qualquer outra parte do mundo.

alberto-joao-jardim-03FN: Foi director do Jornal da Madeira. Enquanto foi Governo o JM manteve-se. Está, neste momento, em reestruturação. Como é que olha para o JM?

AJJ: Já fui censurado, actualmente, no JM. Depois, do Dr. Sérgio, que é o secretário da tutela, ter dito num almoço, no Palácio de São Lourenço, que eu podia escrever quando quisesse. Fui censurado quando quis contestar que o Dr. Brito tinha feito mais do que os Governos todos anteriores. Não foi a redação que me censurou. Foram ordens da administração, que foi dispensada. Deve ser algum ajuste de contas.

FN: Disse que tinha duas noivas caras…

AJJ: Três. O Marítimo, a orquestra e o JM. E lembro-me que o José Manuel Rodrigues deu um grito em pleno pelnário ‘Sr. Dr. estamos fartos das suas noivas’.

FN: De qualquer forma, o JM não podia aguentar na situação como estava…

AJJ: A Madeira tem que ter dois jornais diários. Depois, o JM tem a complexidade da sua ligação editorial que está contratualizada com a Diocese do Funchal. Não sou ninguém para falar sobre as questões da Diocese. Cada um defende a sua fortaleza. E tem a pretensão de defendê-la bem. Tem que haver mais do que um jornal diário embora as experiências novas que vocês [FN] estão a fazer vai levar 4 a 5 anos a se afirmar, embora não tenha dúvidas que o hábito de ler, que é fundamental, vai ser ultrapassado por este novo esquema de comunicação social que vocês estão a criar e em que estou a ser entrevistado. De qualquer maneira, acho que o JM tem de existir. O JM tinha um estatuto editorial e cumpria.

FN: Com um passivo enorme e 48 milhões de euros em suprimentos que os seus governos regionais…

AJJ: A liberdade e o pluralismo de opinião valem o dinheiro todo deste mundo.

FN: É presidente da Fundação Social-Democrata.

AJJ: Não executivo. Não tenho nada a ver com a administração.

FN: Mudou alguma coisa, sei que mudaram os estatutos…

AJJ: Mudaram os estatutos e a administração. O Dr. Miguel Albuquerque já tinha saído da administração. Agora o Jaime Ramos também saiu da administração. Está lá o Dr. Paulo Fontes.

FN: O Estado português fez uma série de questões sobre as fundações, manteve a Fundação Social-Democrata.

AJJ: A nossa é uma das melhores classificadas pelo Estado português.

FN: Também tem uma dívida grande.

AJJ: Tem, mas tem um património que vale mais do que a dívida e isso é um problema.

FN: [Dívida] à volta de 6 milhões de euros.

AJJ: Não chega a esse montante mas, obviamente, que não lhe dizia. O que tenho que lhe dizer é o seguinte. Não vou discutir as operações que se fizeram no passado. Não vou, aqui, me aproveitar para fazer críticas aos que tiveram responsabilidades de gestão anteriores. Mas, agora, a vontade é arrumar a casa, tanto quanto for possível.

FN: Ficou mais clarificado o relacionamento entre o partido e a Fundação?

AJJ: Sim. Até porque havia umas dívidas do partido à Fundação que tinham dificultado a sua vida. Isso está tudo a ser metido na ordem. Aí o relacionamento tem sido excelente. Não há qualquer crítica a apontar.

FN: Está a rentabilizar o seu património, arrendou um espaço, em Santa Quitéria a um empresário chinês que o Dr. criticou há uns anos.

AJJ: Eu não arrendei, quem arrendou foi a Fundação. Critiquei mas costuma dizer-se que só os burros não mudam. Neste momento, se as actuais condições de mercado são estas, então vamos tirar as vantagens possíveis para a fundação, destas condições de mercado. Trata-se de rentabilizar património que não estava rentabilizado e trata-se de se ver livre de património que não era necessário e regularizar a situação com o PSD. Tudo isto está a ser feito.

alberto-joao-jardim-04FN: E o FAMA [Fórum Autonomia da Madeira] que, em algum tempo, chegou a dizer que queria transformar em partido político?

AJJ: Não sou da direcção do FAMA. Tiveram a amabilidade de me fazer sócio n.º 1. Misteriosamente, desde que começaram as confusões internas dentro do PSD, portanto desde a fatídica data de 2012, o FAMA esmoreceu. E mesmo enquanto eu estive no Governo [até 20 de Abril de 2015], o FAMA tomou poucas posições, uma ou duas por ano, e fui eu que tive que dizer ‘preciso que o FAMA tome esta posição porque estamos aqui afogados pelo Estado central, nisto e naquilo’. Já não me lembro quais as questões e em que circunstâncias eram. Mas comecei a ver um certo desleixo naquilo. E então, desde que se começou a entrar aos ‘beijinhos e abraços com Lisboa’, a coisa tinha morrido definitivamente. Posso revelar-lhe em primeira-mão que, como membro do FAMA, escrevi uma carta ao presidente, Sr. Gabriel Drummond, com aviso de recepção, pedindo esclarecimentos sobre se o FAMA existe ou não existe e qual vai ser o futuro. Mas eu não mando no FAMA.

FN: Duas outras instituições. A Maçonaria, por um lado, e a Opus Dei, por outro. Dizia que controlavam…

AJJ: A Opus Dei não tem a força que se possa comparar à Maçonaria.

FN: As guerras financeiras, na banca, não têm estas instituições por trás?

AJJ: O caso do BCP dá-se num momento em que o Governo de Sócrates dá cobertura à Maçonaria para tirar a Opus Dei do BCP e colocar lá uma administração que era mais do agrado do Governo e, dizem, também pertenciam à ‘formiga branca’. Não tem nada a ver com a administração actual. Houve até um ex-emigrante madeirense [Joe Berardo] que fez umas figuras tristes na televisão, que se meteu nisso, gastou um dinheirão a comprar acções que valem hoje cêntimos quando foram compradas a euros.

FN: Então tinha razão quando, há muitos anos, falava do poder da Maçonaria.

AJJ: Na altura diziam que estava louco. Estes impostos que você está a pagar a mais, estes cortes que você levou no ordenado, isto foi uma coisa que começou quando caiu o muro de Berlim no final do Séc. XX [1999] e com o triunfo das ideias neoliberais que vem do tempo do Reagen, nos EUA. Até os anos 70 a banca estava regulada pelo Estado e eu, como social-democrata, entendo que o Estado deve regular a actividade financeira. Sou contra o princípio liberal de que o mercado, por si, faz a felicidade das pessoas e que, se o Estado não intervier, o mercado vai funcionar bem. A actual crise provou exactamente o contrário. Todas estas patifarias de venda de produtos tóxicos, de transferência do risco da banca para investidores e para quem comprava produtos à banca, tudo isto resultou da desregulação que os Estados deixaram fazer no mercado. E porquê? Quem estava interessado nisto tudo era a grande finança. Quando se começa a vender produtos tóxicos aparecem umas coisas que se chamam as empresas de rating, que são pagas pela alta finança. Depois os países do norte e do centro da Europa têm excesso de liquidez. Então pega-se na banca e começa-se a emprestar dinheiro aos países do sul que vão atrás dessa brincadeira. E os países do sul começam a se endividar, em média, 10% acima daquilo que produziam. E depois começam a ir à banca buscar dinheiro mas é para pagar a dívida anterior. Mas o défice financeiro e o défice externo vão aumentando. Portanto, não há dúvida que nós, desde os anos 80, assistimos a uma autêntica falta de vergonha. Foi autenticamente aproveitar a situação. Temo que isto não fique por aqui porque a cirurgia com que se tem dado cabo da classe média destes países. Todos sabemos que quem segura a Democracia e as Liberdades é a classe média. Os intelectuais estão na classe média, as profissões liberais estão na classe média, os pequenos e médios empresários que, em todo o mundo, corresponderão a 70 a 80% da capacidade de emprego. As pessoas têm a mania que são os grandes grupos económicos, as grandes empresas que criam emprego. Estas, à sua escala, procuram reduzir o emprego tanto quanto é possível. Destruição de PME, destruição da classe média. Isto não é o nascer de uma nova sociedade em que há um ‘big brother’ que assenta no poder do dinheiro contra os mais desfavorecidos? Claro que não sou como aquele americano, Fukuyama, que idiotamente falava no fim da História. Não há fim da História. Não é que eu seja marxista. Não sou, embora tenha lido com cuidado Marx, coisa que a maioria dos marxistas não fizeram. A dialéctica social não é uma invenção do Marx. Já Platão, no Banquete, recorria ao método dialéctico para a sua explanação. Não há fim da História, cada síntese transforma-se imediatamente numa tese…

alberto-joao-jardim-05FN: Isto veio a propósito da Maçonaria. Sempre travou a entrada da Maçonaria na Madeira.

AJJ: Quem sou eu.

FN: Com o seu discurso…

AJJ: Atenção! Nunca tomei qualquer decisão política para lixar a Maçonaria. Mas também tive sempre muito cuidado de saber com quem estava a lidar. Comecei a detectar mais a Maçonaria na Madeira pouco depois de estar no Governo.

FN: Anos 80?

AJJ: 79/80. 78 já. Ainda estava na Assembleia quando –é desta mão que está aqui que sai a lei de extinção da Colonia- tinha lido muita coisa sobre isso, também tinha visto as propostas dos outros partidos. Sei muito bem que a proposta do PCP não andava muito longe da minha, embora o PCP não queria criar proprietários, preferia criar umas cooperativas. A gente sabe que, na Madeira, as únicas cooperativas que funcionaram foram as de habitação, e não foram todas. É quando as classes mais conservadoras, as famílias mais conservadoras, que estão contra mim por causa da lei da colonia. Algumas até sonhavam com a independência da Madeira e eu disse ‘não temos condições para a independência, vamos mas é para a Autonomia’. Depois junta-se outro tipo de interesses económicos, estrangeiros, na Região, que eram eles que tinham trazido a Maçonaria para a Madeira. A Maçonaria chega à Madeira antes de chegar ao continente. São dois tipos de Maçonarias diferentes. A que chega aqui é de rito escocês, influência britânica, ao passo que chega mais tarde ao continente via invasões francesas. E aí é a Maçonaria regular, Grande Oriente, Maçonaria de rito francês. Começo a sentir que, pela minha formação, -não sou comunista nem socialista mas também não sou liberal- portanto, sabia como o Povo madeirense tinha sido explorado devido às desigualdades económicas. Não podia pactuar com uma certo número de coisas. Portanto, quando a opção é fazer as obras e os investimentos que vão acorrer aos mais necessitados que são as vias de circulação, a electricidade, a água que os ricos já têm. E quando os ricos dizem ‘não, a gente quer o dinheiro, quer subsídios às nossas empresas, para segurar as nossas empresas e nós é que vamos por a Madeira fertilizada’. Estava-se mesmo a ver, sem a intervenção pública, como é que se iria trazer a Madeira ao nível da União Europeia! O poder da Maçonaria sente-se quando vejo que certos grupos mais conservadores da Região se juntam a certos sectores que estavam mal habituados financeira e economicamente e que desgostam da minha política. O PSD era um partido muito forte, um partido de poder que conseguiu a maioria absoluta durante 40 anos, o que acaba por enfraquecer a oposição. Hoje tenho uma tese: A maior parte das pessoas que vem para o partido é à procura de qualquer coisa…

FN: À procura de tacho!

AJJ: Dizer isto agora parece ridículo, dá a impressão que estou armado em feiticeiro. Mas estava a prever. Quando me diziam que estava a entrar mais gente para o partido dizia sempre ‘gosto mais do sistema inglês e francês em que as pessoas são terrivelmente seleccionadas, quase como na Maçonaria, para poderem entrar para o partido’. Depois dá-se o que se deu. Quem tem mais gajos inscritos é que ganha as eleições. Se calhar com votos de gente que não é do partido. Um partido de poder como era o PSD atraiu muita gente. Grande parte deles não eram sinceros. E quando não se viam servidos acabaram por se rebelar contra o chefe. Quando recorro a gente que não é do partido para cargos públicos, quando afasto gente que é do partido porque se portou mal, etc., etc., evidentemente que se começa a perceber que ser do partido não é, só por si, uma garantia futura.

FN: Mas a abertura à sociedade civil…

AJJ: Um momento! Por outro lado, os partidos da oposição nunca tiveram grandes sucessos porque não tinham quadros. Quem quer entrar num partido não vai para o partido para perder. Vai para um partido que possa chegar ao poder, de uma maneira política, económica, administrativa. Ter algum poder é o móbil da procura de um partido. O que se passou foi que a oposição foi sempre muito fraca porque ninguém a procurava ante um partido de poder durante 40 anos e com maiorias absolutas. Não sei porque levaram tanto tempo a perceber isso, se estavam à espera que eu fosse um cristão novo e que me convertesse a eles. Só ao fim de 30 e muitos anos é que eles se lembram de rebentar o partido por dentro, de chamar à Maçonaria um certo número de pessoas dispostas a trabalhar com eles. É a história recente do PSD.

alberto-joao-jardim-06FN: Perdeu a imunidade enquanto conselheiro de Estado, enquanto presidente do Governo. Havia casos pendentes na justiça. Tem sido incomodado pela justiça depois disso?

AJJ: Os tribunais cumpriram o seu dever.

FN: Depois de perder a imunidade, foi notificado?

AJJ: Fui notificado por causa de dois ou três casos que têm a ver com chachadas. Dizendo que eu disse não sei o quê numa campanha eleitoral no ano não sei quantos. Sei lá sequer o que é que disse. Processos não apoiados em qualquer prova concreta. Fui lá dizer que não sabia nada daquilo.

FN: Dois a três processos?

AJ: Dois a três processos. E todos desta natureza. O que eles chamam de ilícito eleitoral. Nunca abdiquei nunca de exercer o meu dever de informar as pessoas –que é um dever constitucional- e nunca abdiquei do meu dever de livre expressão. O facto de ser presidente do Governo, não estou diminuído dos meus direitos. Se há uma lei tonta que diz que não posso dizer isto e aquilo, a lei é inconstitucional, resolvam lá os tribunais. Não perco tempo com isso.

FN: Não havia um processo antigo do Dr. Loja?

AJJ: Acho que esse está prescrito. Não sei. Perguntei uma vez por esse processo. Não sei. Sabe, não roubei nada a ninguém, não andei à pancadaria, de maneira que são coisas que nem sequer me preocupam.

FN: Viagens a Bruxelas. A oposição ‘pegava-se’ muito consigo por causa dessas viagens ditas secretas. Houve até uma proposta de comissão parlamentar e o Tribunal de Contas pronunciou-se sobre isso numa auditoria que fez às contas da Presidência…

AJJ: Não senhor. A referência que está lá é porque é que eu ía sempre pela mesma agência de viagens. Eu esclareci [o Tribunal de Contas] que não posso ir por uma agência que não tenha uma determinada classificação internacional. Não estou para chegar a um hotel e eles dizerem que não aceitam o ‘voucher’. Não estou para ir dormir para debaixo da ponte. Trabalhei sempre com uma agência que nunca me colocou problema em qualquer parte do mundo. Nem sequer nas idas às comunidades. Nos EUA são complicadíssimos nos hotéis. Nunca tive problemas. Não ía mudar de agência nem ía abrir um concurso para ir a Lisboa, de repente, como sucedeu várias vezes. Foi tudo esclarecido. Também me perguntaram porque é que eu tinha 5 jardineiros na Quinta Vigia. Na altura a minha mulher era directora dos Centros de Juventude e para ela não gastar dinheiro no Centro de Juventude eram os jardineiros da Quinta Vigia que vinham regar cá abaixo. O Tribunal de Contas quando tem dúvidas faz perguntas. Outra pergunta que me fizeram foi porque é que quem fazia os almoços e jantares para as recepções oficiais era a Escola Hoteleira, mesmo antes de estar privatizada. Fazia-o porque a Escola Hoteleira era do Governo e porque era uma maneira de pôr os alunos a praticarem num almoço ou jantar de certa responsabilidade.

FN: Mas continua a viajar, ainda é presidente honorário da Conferência das Regiões Periféricas. Faz-lhe alguma confusão de não usar a sala VIP? O actual presidente parece que não usa e opta pelas low cost.

AJJ: Tenho usado as companhias low cost. Já usava como presidente do Governo. Nos últimos tempos, para Bruxelas, eu ía de low cost, porque havia voos directos. A certa altura, a sala VIP era deprimente. Um gajo estava sozinho. Eu usava a sala VIP pelo seguinte: Sinto-me melhor estar no meio das pessoas. Mas, quando se exerce o poder, tem que se ter uma certa liturgia. A Igreja Católica é uma instituição com mais de 2 mil anos porque tem a sua liturgia. As Forças Armadas são instituições que não mudam com os sistemas políticos porque têm a sua liturgia. O poder tem a sua liturgia. E quem pensar que pode exercer o poder sem essa liturgia vai ver que, mais tarde ou mais cedo, vai pagar por isso.

alberto-joao-jardim-07FN: A propósito de poder. Deixou o poder mas a sua família e os seus próximos estão nas instituições do poder, na Administração Pública. Como é que responde a esse tipo de críticas?

AJJ: Eles estão lá não por serem meus filhos. Fizeram a sua carreira, foram convidados por mérito próprio, quem sou eu para dizer aceita ou não aceita. Não tenho nada a ver com isso. O facto de serem meus filhos e genros não os beneficia nem os deve prejudicar. Pelo contrário, até torna, às vezes, complicada a conversa em família.

FN: Para terminar, o futebol. Temos três equipas da Madeira na Primeira Liga. O União começou, este ano, a ganhar ao seu Marítimo. Não sendo inédito, o que é que isto representa para a Madeira, conhecendo o afecto dos seus governos ao desporto?

AJJ: Esse afecto era um racional. Não estou arrependido nada. A única coisa em que esteja arrependido é que fui, um pedaço, levado. Podia-se ter feito umas piscinas menos sumptuosas. É a única coisa que tenho. Embora aquilo está feito não apenas para quem pratica desporto mas para a população e tem de ter o mínimo de comodidade. Essa coisa de se fazer tudo ‘à rascofe’ para dar um ar de probrezinho… Sou contra isso. Quando se faz, faz-se bem (…) Apetecia-me dizer uma coisa sobre o resultado Marítimo/União mas não digo. Continuo convencido de que eu é que tinha razão quando se deu aquela do Estádio dos Barreiros…

FN: A vaia, a fusão?

AJJ: Estava feita, na última da hora, o presidente do Marítimo rebentou tudo. Estou convencido de que tinha razão. Agora, neste momento, já não é possível fazê-lo. Com as infraestruturas que, entretanto, se fez. Quem não chora não… Mas, o presidente do Marítimo recebeu o estádio dos Barreiros. Acho que ele devia mandar rezar uma missa por mim todos os dias. Depois começa a falar muito e a deitar culpas para cima dos outros. Perdeu com o União para tomar juízo. Mas continuo convencido de que tinha razão. Nós somos uma ilha de 250 mil pessoas. Na Europa, uma orquestra clássica é, em média, uma por um milhão de habitantes. Não estou arrependido da tal noiva cara. A universidade foi um momento alto. A orquestra um momento alto. O conservatório um momento alto. São as pessoas que falam de cultura as primeiras a criticar tudo o que foi feito no domínio da cultura e da educação. Não me envergonho de nada. No futebol, estou na minha.

alberto-joao-jardim-08FN: Mas não se gasta muito no futebol? Ou isso tem retorno?

AJJ: Isso os clubes têm razão. O que nós recebemos de IVA numa transacção, o que recebemos de impostos sobre os ordenados, para a Segurança Social… Grande parte daquilo que é subsídio não fica lá, tem retorno. Não é um tão mau negócio como se diz. Agora, quando falo de clube único, não era em termos financeiros, era em termos desportivos, porque o clube único não era para fazer um Portossantense para andar a viver às esmolas, era para disputar o campeonato nacional. Era, sobretudo, para obter resultados desportivos. 250 mil habitantes num país que tem 10 milhões de habitantes, ter três equipas na Primeira Divisão, estão a gozar comigo. Agora, não se pode dizer ‘vão-se embora’, porque se chegaram lá foi por mérito. Se eu passei uma vida inteira a dizer que o mérito tem de ser reconhecido…

FN: Este ano, é o Marítimo que está mais bem preparado para ir à Europa ou nem por isso?

AJJ: Não sei se algum deles irá à Europa, este ano. Mas isso falamos em Maio.

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