Memórias da ‘Felisberta’ e da Rua das Pretas

Rua das Pretas

Luís Rocha, com Rui Marote

Quem, de entre os funchalenses, não se lembra do sabor dos bolos da confeitaria Felisberta? Só os desafortunados que, tendo nascido em tempos mais recentes, não puderam imprimir tão edificante memória nas suas papilas gustativas, Quem os provou, ficou com uma referência para a vida. Sim, já lá vão quase quarenta anos, e o autor destas linhas ainda deles se lembra, bem como dos singulares atractivos do lugar. Não é que a confeitaria situada ali nas proximidades da igreja de São Pedro fosse um estabelecimento luxuoso ou espampanante. Mas era tradicional e acolhedor, o nome pintado em grandes letras como que manuscritas sobre a porta, os mostruários envidraçados de madeira pintada a dar um charme ancestral, a emoldurarem os bolos que olhos gulosos contemplavam ansiando que o pai os comprasse.

Mal se transpunha o umbral da porta da Felisberta, e um cheiro delicioso invadia-nos as narinas. Eram as diferentes variedades de doces a competir entre si pela nossa atenção. O tipo de impressões que fica gravado profundamente na mente de uma criança, que nos acompanha e aquece nos momentos mais solitários. Um pouco como a recordação dos primeiros Natais.

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A Felisberta, nos dias de hoje: a memória escorre-lhe das parede descascadas. Um cenário desolador.

 

Hoje, na Rua das Pretas, aquela que foi uma loja de referência no Funchal durante tantos anos, definha. No interior ainda é possível divisar as montras de outrora, onde as crianças cobiçavam avidamente os famosos bolos. O letreiro com o alegre nome ainda se consegue discernir sobre a porta, Mas o aspecto é fúnebre, de abandono, a lembrar o passado remoto de uma infância perdida, Ninguém se interessou por preservar ou revitalizar este património. Sim, porque o património de uma cidade é feito de muitos pequenos nadas, e esta confeitaria era muito mais do que um nada, era um marco na cidade e na memória colectiva.

Segundo apurou o Funchal Notícias, o actual proprietário do espaço é um advogado residente no continente, de nome Carlos Encarnação. É genro de Silvestre Pestana, empresário madeirense que, entre outras propriedades, possuía estufas situadas perto da zona do aeroporto, em Santa Cruz.

Mas a Felisberta não foi a única confeitaria existente na Rua das Pretas: uma outra ainda também construiu uma reputação. Tratava-se da Íris, que era famosa não só pelos bolos, mas também pelas suas cassatas de gelado.

Ali houve em tempos bastante comércio. Além do Centro Comercial de São Pedro, pequeno mas que na altura parecia enorme.

Entre outras lojas no local, havia uma alfaiataria, que entretanto desapareceu; uma residencial, ‘Funchal à noite’; mais tarde, um estabelecimento de restauração com o pretensioso nome de ‘Paraíso Imperial’; lojas de electrodomésticos e muito mais.

Resta hoje ainda uma lavandaria, que vai resistindo. Hoje, lamentavelmente, a Rua das Pretas é uma amostra das consequências desastrosas da crise económica internacional e do desvario das finanças regionais, com falências e desemprego: uma rua deserta, com a maioria das portas encerradas, por onde os jovens passam sem fazerem ideia que, em tempos, outros da idade deles ali iam em peregrinação satisfazer a gula numa das confeitarias lá existentes. Numa rua vibrante de vida, de movimentação. O absoluto contrário do ‘cemitério’ que é hoje.