Francisco Oliveira deixa Porto Santo para liderar o Sindicato dos Professores da Madeira

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Francisco Oliveira é o candidato do acordo da atual direção do SPM.

Francisco Oliveira é o candidato que se assume a substituir Sofia Canha à frente do Sindicato dos Professores da Madeira. Este professor de português no Porto Santo, anuncia que vai agora mudar de vida para abraçar o projeto sindical a tempo inteiro e cuidar dos cerca de 3 mil professores associados do SPM. A única lista até agora apresentada – prazo termina no final deste mês – assegura que combina experiência sindical e irreverência.

Funchal Notícias – Por que razão avançou com esta candidatura?

Francisco Oliveira – Houve uma conjugação de circunstância que fizeram com que a minha candidatura surgisse de forma natural: a saída da coordenadora anterior, Sofia Canha, a minha excelente relação com os outros elementos da direção executiva, o trabalho que vinha desenvolvendo no Centro de Formação nos dois últimos anos, a minha disponibilidade física, psicológica e familiar para me dedicar a este projeto, a minha convicção de que estou preparado para lutar pelos direitos dos professores e educadores da RAM, e, evidentemente, o mais importante, o convite dos elementos da direção executiva cessante, que acharam que eu poderia estar à altura de liderar a equipa nos próximos três anos.

FN – Quem é a sua equipa e quais os critérios que o levaram a convidar estes profissionais?

FO – Como já disse, eu é que fui convidado pelos elementos da direção executiva cessante que manifestaram disponibilidade para continuar, as minhas colegas e amigas Margarida Fazendeiro, Adelaide Ribeiro, Jackeline Vieira, Lucinda Ribeiro e Cristina Gonçalves. Além delas, a equipa é constituída por um grande número de professores de todos os ciclos de ensino e de várias escolas de toda Região, para que todos os sócios se sintam representados. Destaco o nosso mandatário, Henrique Amoedo, e os candidatos a presidente da assembleia geral, André Escórcio, a presidente do conselho fiscal, Cristina Trindade, e aquele que assumirá a responsabilidade da comunicação e divulgação de todo o SPM, Nélio Sousa.

FN – Qual é que acha ser a mais-valia da sua candidatura?

FO- Esta candidatura não vale por mim, mas pela equipa que, no seu todo, combina experiência sindical com irreverência, o que permitiu elaborarmos um programa simultaneamente seguro, desafiante para toda a equipa e de esperança para todos os associados do SPM.

FN – Falemos de projeto: o que tem para oferecer aos professores associados do SPM?

FO – Temos muito para oferecer aos sócios do SPM: em primeiro lugar a coragem para enfrentar todos os desafios com frontalidade e a força para lutarmos pela defesa dos direitos dos professores e educadores; em segundo, temos a convicção firme de que somos uma equipa coesa e bem preparada para realizar os objetivos a que nos propomos. Em termos mais concretos, podemos garantir que vamos prestar muita atenção ao que se passa nas escolas, nomeadamente às questões que mais têm afetado os docentes: emprego, instabilidade profissional, avaliação, burocratização da atividade docente, adiamento da aposentação e alterações das suas condições, contagem integral do tempo de serviço, degradação das condições de trabalho e problema da indisciplina em todos os níveis de ensino. Por outro lado, vamos valorizar os momentos de convívio e de descontração entre os professores.

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O candidato pretende estar mais presente nas escolas da Madeira.

FN – Como analisa o sindicalismo na Região? E o papel do SPM?

FO – O que se passa na Região não é diferente do que acontece no resto do país e até da Europa: por um lado, o ataque generalizado aos direitos dos trabalhadores, o que leva muitos a crer que perder direitos adquiridos é natural e inevitável, por outro, a perda do poder de compra devido à austeridade desenfreada e irracional levaram alguns a pensar que a luta sindical não valia a pena e que o melhor seria prescindir dos sindicatos. No entanto, é inegável que, se não fossem os sindicatos, os trabalhadores estariam em condições bem piores. Por isso, nós continuaremos a lutar com todas as nossas forças e a fazer do SPM uma referência do sindicalismo da Região, como tem acontecido desde a sua fundação. Os quase 3000 sócios do SPM não só merecem isso, mas desafiam-nos a não baixarmos nunca os braços e a lutar com convicção por aquilo a que têm direito.

FN – Como analisa a situação atual do ensino e dos professores? Indique os três principais problemas.

FO – As políticas economicistas têm levado a que a educação, em geral, e os professores, em particular, se vejam confrontados com condições muito difíceis, que acabam por prejudicar profundamente os alunos e as sua famílias. O nosso projeto, de que já citei alguns aspetos, tem como objetivo o combate aos principais problemas dos professores e, consequentemente, do ensino. É difícil destacar apenas três problemas de tantos outros, estando todos eles de tal modo intrincados e condicionando-se uns aos outros. A esse propósito, parece-me acertada a síntese de José Pacheco, que recentemente passou pela Madeira, quando afirmou, numa entrevista ao DN Madeira, que “é importante cuidar do professor, cuidar da sua formação, do seu estatuto, dar salário digno e dar-lhe autonomia […] é preciso reconfigurar as escolas”.

FN – Como comenta o facto de alguns sindicalistas optarem depois por projetos políticos?

FO – É tão natural aceitar convites para projetos políticos depois de experiências em sindicatos como ao contrário. Eu tive convites para a política, que recusei, e aceitei este para o SPM. Se for eleito, mudarei de vida: deixarei de dar aulas para me dedicar de corpo e alma a este novo desafio. Qualquer cidadão tem o direito de escolher o que lhe parece certo em cada momento para se realizar e ser útil à sociedade. Procurar desafios novos é próprio do ser humano, a mudança é essencial a quem não quer estagnar. “Ser descontente é ser homem”, disse Fernando Pessoa no poema “Quinto Império” de Mensagem. Além disso, o trabalho de um sindicalista tem muito de político, pelo que é natural que a experiência de dirigente sindical seja valorizada pelas forças políticas e potenciada por quem a tem em novas funções de serviço à sociedade. Na natureza, nada se perde, tudo se transforma; na nossa vida, acontece algo idêntico: nenhuma experiência se perde, todas nos transformam e melhoram.

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Um continental que tem o Porto Santo e a Madeira no coração.

FN – É mais um continental que adotou a Madeira no seu coração?

FO – Se não sou portossantense ou madeirense, serei de onde? Saí de casa aos onze anos, estudei em várias cidades, cheguei à Madeira em 1992 e ao Porto Santo em 1996; quatro quintos da minha carreira como professor foram passados no Porto Santo, dei aulas na Madeira, a minha esposa é madeirense, os meus filhos são porto-santenses; mais de noventa por cento dos meus amigos vivem na Madeira ou no Porto Santo; a única casa que tenho é no Porto Santo, comprei-a há quase vinte anos; no continente, restam-me a família e três ou quatro amigos e todos me tratam por madeirense ou porto-santense, conforme o gosto de cada um. Alguém sabe dizer-me de onde sou? Se não souberem, não faz mal, porque o meu espírito de ilhéu não me engana, nem pretende enganar ninguém. Não só tenho o Porto Santo e a Madeira no coração mas na própria vida. O SPM será mais uma prova de que a Região Autónoma da Madeira não é adoção, é realização pessoal; aqui está quase tudo o que me é essencial.