Banco de confiança leva família rica à ruína

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Filhos de família ricas empregam-se agora para tentar sobreviver à crise. Foto Teresa Gonçalves

À primeira vista, esta história tem todos os ingredientes para uma produção cinematográfica. A diferença é que a ficção domina o cinema enquanto o caso que o Funchal Notícias dá agora eco não só é verídico como os seus protagonistas atravessam presentemente momentos de grandes dificuldades económicas quando deveriam estar a viver desafogadamente com os rendimentos de uma vida de trabalho próspero.

Durante décadas, não souberam o que era a privação económica. O trabalho de uma vida na poderosa África do Sul deu-lhes desafogo financeiro e uma vida de grande convívio social. Políticos, empresários e tantos outros, madeirenses e continentais foram bem acolhidos por esta família e desfrutaram das generosas receções realizadas nos jardins da mansão do casal. Neste preciso momento, passaram da abundância à total ruína financeira. Contam os tostões para sobreviver. Dizem-se enganados pela banco da sua confiança que usou as poupanças de toda uma vida para saldar os problemas financeiros que tinha sem lhes dar cavaco. Mais grave: acusam o banco de os levar a assinar documentos, onde as letras miudinhas da papelada não era explicada e, à confiança, assinaram de cruz. Resultado: hoje, até a própria vivenda no Funchal está hipotecada.

 A solução foi reclamar junto da justiça portuguesa para reaver as poupanças. Os processos correm trâmites em tribunal no Funchal. Enquanto isso, há que sobreviver a pulso: o marido, acamado, conta com a ajuda da segurança social e do serviço domiciliário; os filhos empregaram-se num bar para sobreviver à tragédia e a nossa interlocutora passa dias de vazio e de nada, a rezar a Deus para que se faça justiça. É conhecida de tantos ilustres que desfilaram pela África do Sul mas hoje sofre no anonimato.

Acede a contar a sua história ao Funchal Notícias com a condição do anonimato do seu nome, bem como dos destinatários dos litígios bancários. É tudo muito melindroso. Do alto dos seus 70 anos, aprendeu a conhecer gente e a lidar com melindres. Os desgostos valentes da última década atingiram-lhe a alma. Quase que diríamos que não chegaram ao rosto: pele clara, poucas rugas, olhar claro e uma convicção nas afirmações que deixam antever a mulher de negócios que era. De vez em quando, os olhos enchem-se de lágrimas, mas recupera da comoção e promete lutar por aquilo que diz ser seu. Não vai dar tréguas ao banco bem conhecido dos madeirenses que lhe vendeu “gato por lebre”. A crise pôs a descoberto as engenharias fraudulentas do banco e dos seus gestores e como eram usadas as poupanças dos seus clientes. Nem em África, onde a criminalidade grassa, são capazes de tão obra prima de aldrabice ao cidadão que vive do seu trabalho. E tudo isto aconteceu antes mesmo de surgir o declínio do Espírito Santo, com outra instituição bancária de aparente confiança desta praça.

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Aos 16 anos, a nossa interlocutora deixa o Funchal rumo à África do Sul na companhia dos pais e irmão. Corria o ano de 1960. Quando lá chegou, assume que ficou deslumbrada com a grandeza do país e a comparação à Madeira não se fez esperar: “Perante aquele mundo, eramos um pontinho no Atlântico”. Já tinha casado no Civil e o marido fez-lhe depois companhia. O pai trabalhava numa firma ligada à distribuição de banana junto dos negócios comerciais de emigrantes portugueses. O marido começou a trabalhar como barman num hotel pertencente a uma família judia. Ela cuidava da casa e dos três filhos que entretanto deu à luz. Depois, o marido fez parte de uma sociedade hoteleira até que passou a ser o proprietário de um investimento do género. Foi nessa altura, que esta mulher optou por trabalhar ao lado do marido. Em 1984, já eram proprietários de três hotéis e cinco estabelecimentos de venda de bebida ao público. No fundo, devido à lei seca africana e às restrições à venda do álcool, a opção por uma unidade hoteleira tinha pouco a ver com a vocação para a gestão de hotéis mas sim a ponte para a comercialização da bebida a copo.

Na década de 80, os negócios e a vida corriam muito bem a esta família de madeirenses de grande prestígio na África do Sul. Por isso, compraram uma grande vivenda, em Boksburg, da qual ainda são hoje proprietários e onde reside um dos filhos que se recusou a regressar à Madeira. “Os nossos lucros eram todos metidos na Madeira.” Também em 1984, já tinham adquirido uma bela vivenda no Funchal que a pagaram a pronto, onde reside atualmente. Também chegou a ter negócios de restauração no Funchal. “Tínhamos uma vida muito boa. Não nos faltava nada. Viajámos meio mundo. África nada tem a ver com Portugal. Como comerciante, a vida lá era muito mais fácil. Tudo aquilo que está definido no papel cumpre-se sem problemas e não há letras pequeninas nos documentos para enganar os empresários. Nunca soube o que foi aldrabice a empresários até vir para Portugal”.

Bela mas perigosa. Aliciante mas insegura. Pujante mas com a criminalidade a tirar o sono dos cidadãos. Assim era e é ainda a África do Sul. Por isso mesmo, a instabilidade sul-africana levou esta família a regressar à terra natal. “Era o medo paralisante de perder a vida”, conta-nos, como acontecia com tantos outros emigrantes madeirenses, baleados nos seus negócios. “Chegámos a ser várias vezes assaltados, mas de noite. Nunca quando havia gente nos negócios.”

Após 2000, foi o regresso à Madeira na companha do marido e de dois filhos, um deles sul-africano, adotivo. Uma filha já estava cá. O outro filho preferiu continuar, residindo na mansão dos pais e gerindo um hotel da família. Mas eis que, quando tudo tinham para usufruir de uma vida mais desafogada na Madeira, veio primeiro a doença do marido que, com o tempo, foi recuperando, ainda com graves sequelas cerebrais. Mas o pior estava para vir: o logro da banca. “Tinha, não era cem por cento mas mil por cento, de confiança no meu banco, no Funchal, com quem trabalhava há mais de 20 anos. Aconselharam-nos a juntar as poupanças que tínhamos dispersas em bancos no estrangeiro e concentrámos tudo só naquele banco. Abrimos, entretanto, negócios de restauração. É certo que o comércio local nada tem a ver com a África do Sul. Estamos a falar de milhões e milhões de consumidores, o que torna qualquer negócio à partida lucrativo, e não alguns milhares como se verifica na Madeira. Isto aqui é uma miniatura do que se passa em África”.

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Ainda assim, todos estavam motivados, pese embora o problema de saúde do chefe da família. Mas, o passo mais fatal  foi “ter posto os ovos no mesmo cesto”. É que a situação do banco foi-se agravando com a crise financeira portuguesa, entre outros investimentos ruinosos feitos pelo próprio banco, e os administradores foram buscar às poupanças dos clientes liquidez para manterem as portas abertas. “Ou seja, para salvarem o banco, desgraçaram a vida dos seus clientes. Como eu, há muitos emigrantes na África do Sul aflitos porque perderam tudo neste banco. Agora, estamos a lutar nos tribunais para reavermos o que por direito já nos pertencia”.

Não fala de valores. Apenas “um montante muito considerável”. De resto, “o banco nunca deu à família uma única justificação”. Em consequência, o presente é de incerteza e de grande preocupação: “Neste momento, estou a viver das ajudas de amigos. Nunca pensei que um dia iria abrir o meu porta-moedas e não ter um tostão. A reforma do meu marido dada pelo Estado português é mínima mas é o que permite pagar a água e a luz, caso contrário, nem isso tínhamos. Os meus bens estão numa situação incerta. Já não sou dona do suor do meu trabalho de 45 anos na África do Sul…” Um testemunho, acompanhado de muita comoção e incredulidade perante “tão grande castigo”.

A revolta desta mulher não se faz esperar: “Compreendo a crise que Portugal está a atravessar. Mas não aceito a aldrabice dos bancos aos clientes. O governo deveria ter interferido para assegurar as poupanças dos clientes. Afinal, onde está a tutela do supervisor da banca?”

Os filhos vão lutando na Madeira, como empregados de um bar que arrendaram. Mas é sabido que as pequenas empresas atravessam dificuldades crescentes. Olha para trás, e recorda: “Não havia madeirense que chegasse à África do Sul e não fosse bem recebido na nossa casa. Tínhamos grandes laços de convívio com todos. Cheguei a dar receções no meu jardim para 500 pessoas. Nunca tive manias de grandeza e de ostentação. Em África, todos trabalhamos para viver e não gostamos de parecer ou de ostentar marcas.”

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Apesar da situação problemática atual, esta mulher de 70 anos, confessa que tem “muita fé de que a verdade será exposta. A justiça demora mas não tarda”, acredita. O seu dia a dia agora “é nenhum”, conta-nos com evidente tristeza. Tem nos filhos o grande apoio e ela própria ajuda o marido, acamado há anos, e agradece o apoio da segurança social. “Tinha empregados para tudo e agora somos nós a fazer de tudo”.

Voltar à África do Sul está fora de questão. “A situação está feia, a vida está muito cara e as pessoas nem se atrevem a levar os filhos a um centro comercial com medo. O atual presidente nada tem a ver com os princípios de Mandela , é ditador. Já não é uma terra para emigrantes ou para os jovens começarem o seu futuro naquele país”. Também reconhece que a Madeira não oferece agora condições para quem vem à procura de um começo de vida. “Penso que vamos ultrapassar esta crise. Mas se tivermos governantes corruptos, nada feito”.

Está contente com a viragem política que se assiste na Madeira. “Já deveria ter acontecido antes. Vão encontrar dificuldades mas já tiveram tempo de aprender ao longo de todo este tempo.”

Como ex-empresária de sucesso que já foi, considera que o sucesso da Madeira passa por alguns pontos: “A burocracia é um entrave enorme para todos, quer para os locais quer para quem vem de fora; os impostos são demasiado altos e ninguém aguenta; há que criar possibilidades de crescimento; toda a Madeira deveria ser uma zona franca, o que facilitaria muito a economia madeirense; emagrecer o governo, porque é uma máquina demasiado pesada e com muitos vícios. Na África do Sul, vi os grandes ou os governantes a cumprirem horários e a trabalharem para auferir o seu ordenado. O português gosta muito da aparência e da fotografia. No estrangeiro não se faz roupa de marca para se exibir”

Após a entrevista, esta mulher regressa à casa, um bem que o banco também se encarregou de hipotecar, sem saber o amanhã. Mais uma tarde pela frente: auxílio ao marido, limpezas da casa e olhar para o céu com a eterna pergunta: “O que terei feito para receber tão pesado castigo?”

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