Pobreza de afeto – Nuno Lobo Antunes

Imagem retirada do site http://rabiscosdeumaleitora.blogspot.pt/
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A minha maturidade trouxe-me a liberdade de amar e, com ela, perdi o pudor dos afectos.

Em boa medida, esta transformação interior deveu-se ao convívio diário com a morte, no período da minha vida em que me dediquei à oncologia. Não quero que quando chegar a hora de partir o amor tenha ficado por dizer.
Quando um dos meus irmãos morreu, a minha mãe, velhinha de mais de 90 anos, chorava de remorso quando dizia: “eu gostava tanto dele e não tenho a certeza de que ele o sabia”. Estou certo de que essa angústia era injustificada, mas teve uma vida inteira para se certificar de que não haveria lugar a dúvidas.
Hoje acompanho jovens autistas que não têm acesso
a todas as cores do sentimento ou, pelo menos, à sua expressão plena. Muitos parecem viver tranquilos com essa circunstância, embora me pareça que, tal como os daltónicos, a vida os impediu de apreciar todas as matizes do privilégio de existir.
Os afectos permitem o partilhar da humanidade nos breves momentos em que duas existências se tocam, e se sentem extasiadas perante esse encontro. Menos do que isso é ficar a dever algo à vida, enquanto se deixa o ser mais pobre.
Sinto, logo existo, porque, como dizia o poeta, a verdade está nos extremos, porque é no sentimento que ela está.
Nuno Lobo Antunes