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A FIFA, aquela organização que tanto adora dizer que “não controla governos”, voltou a brilhar na sua arte de neutralidade seletiva. Gianni Infantino, presidente da entidade, disse recentemente, com a máxima sinceridade, que a FIFA não é “o rei do mundo” e que não manda em vistos, fronteiras ou diplomacia. É justo. É bonito. É quase como se fosse uma entidade desportiva, e não uma ONG geopolítica com um logótipo de bola.
Mas aí, outra coisa: Gianni Infantino fez uma palhaçada ao entregar o prémio da paz do desporto a Donald Trump, um homem que, na prática, não deixa equipas estrangeiras entrar no seu país para ganhar o Campeonato do Mundo de Futebol de 2026. Aqui, a coisa fica ainda mais interessante: a FIFA, que não controla governos, agora depende de um presidente americano que bloqueia vistos para fazer o futebol acontecer, agora diz que depende de um presidente americano para fazer o futebol acontecer. Quase como se a neutralidade fosse um “poder opcional” que só se usa quando a conveniência política está alinhada — e quando o prémio é dado por um homem que não deixa os outros ganharem.
O problema é que, para alguns países, a FIFA age com a impotência de um leão sem dentes. Para o Irão, a FIFA diz que “não podemos fazer nada” porque os vistos são problema do governo americano. Para a Rússia, a entidade não teve problemas em tomar uma decisão política forte: a Rússia foi retirada do futebol internacional, e a FIFA não se escondeu atrás da desculpa de que “não controla governos”. Aqui, a organização mostrou que, quando quer, é suficientemente poderosa para punir algumas nações enquanto dá desculpas para outras.
Os fãs de futebol não são estúpidos. Eles conseguem ver claramente o duplo padrão: para os EUA, a FIFA diz “não podemos fazer nada”; para a Rússia, age com rapidez e firmeza. A FIFA, que tanto se ama falar como neutra, revela-se, na prática, como um árbitro que às vezes faz o jogo, às vezes entrega o cartão ao adversário e, outras vezes, só diz que “não pode fazer nada” — e, no meio, ainda entrega um prémio da paz a um homem que não deixa os outros jogarem no seu país.
Em suma: a FIFA quer ser vista como órgão desportivo, não político. Mas, quando convém, age como ator político. E, convenhamos, isso é quase tão impressionante como um guarda-redes que diz que “não é o rei do mundo”, mas, quando o jogo é contra a Rússia, decide que é o juiz, o árbitro e o dono do campo — e, no meio, ainda recebe um prémio de paz de um homem que não deixa os outros ganharem no seu país.
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