Nova antologia de autores da Madeira reúne inéditos

Livros

Um grupo de intelectuais e académicos madeirenses lançou mãos a um projecto que visa divulgar a nova poesia de autores madeirenses ou que aqui residam há bastante tempo, em primeiro lugar, e, acessoriamente, a poesia de autores açorianos, cabo-verdianos e canários, colocando-os em diálogo com a nossa realidade poético-literária. Trata-se de uma antologia que deverá ocupar vários volumes, e que está a ser coligida e coordenada pelos docentes universitários Thierry Proença dos Santos e Leonor Coelho, da Universidade da Madeira e pelos autores Irene Lucília, José de Sainz-Trueva e Ana Margarida Falcão (esta última também uma professora reformada da UMa).

O objectivo, conforme apurámos, é o de dar sequência às antologias ‘Cadernos Ilha’, implementadas já há muito tempo pelo falecido poeta José António Gonçalves.

“No fundo é também facilitar a muitos jovens poetas, que não têm a possibilidade de fazerem edições de autor, a oportunidade de aparecerem”, realça José de Sainz-Trueva, um dos impulsionadores da ideia, que surgiu no decorrer de um convívio entre um grupo de amigos, todos eles pessoas ligadas à vida cultural madeirense.

O primeiro volume já está praticamente pronto, e será apresentado pelos antologiadores à Direcção Regional dos Assuntos Culturais (DRAC), no decorrer de uma reunião na próxima semana, na qual será discutida a hipótese da sua publicação – que seria a todos os títulos desejável.

Este volume inicial reúne, na realidade, uma plêiade de poemas inéditos dos mais variados autores, entre nomes confirmados e outros que estão ainda a procurar afirmar-se na cena literária.

Como poetas, figurarão neste primeiro volume Isabel Aguiar, Irene Lucília Andrade, Filipe Camacho, João David Pinto Correia, Fátima Pitta Dionísio, Ana Margarida Falcão, João Dionísio, Maria Fernandes, Carlos Nogueira Fino, Rui Guilherme Gabriel, José Laurindo Goes, José António Gonçalves, Teresa Jardim, Lília Mata, Laura Moniz, José Viale Moutinho, Carlos Nó, Tiago Patrício, José de Sainz-Trueva, Eurico de Sousa, Ângela Varela e Dinarte Vasconcelos.

Os poemas apresentados são, por outro lado, complementados por notas críticas da autoria de Gaia Bertoneri, Manuel Frias Martins, Manuele Masini, António Fournier, Kurt Millner, Irene Lucília, Ana Margarida Falcão, Marco Livramento, Ricardo António Alves, Ernesto Rodrigues, José Tolentino Mendonça, Alessandro Granata, Mary O’Malley, Leonor Martins Coelho, Thierry Proença dos Santos, Rui Guilherme Gabriel, Ana Isabel Moniz, Cristina Almeida Ribeiro, Marcelino de Castro e Ana Salgueiro Rodrigues.

“Trata-se portanto, de académicos, críticos, jornalistas e poetas… Há ainda um texto de abertura da autoria do poeta madeirense José Agostinho Baptista, e o posfácio será pedido a Onésimo Teotónio de Almeida [conhecido autor açoriano e professor na Brown University, nos EUA]”, informou-nos José de Sainz-Trueva, que acrescentou que serão incluídas ainda no livro notas biográficas acerca de cada um dos poetas representados, e ainda dos autores das notas críticas.

Segundo declarou José de Sainz-Trueva ao Funchal Notícias, a equipa de antologiadores tem a noção de que existe muito mais material inédito que poderia ser incluído em futuros volumes, na prossecução desta antologia.

“Alguns poetas poder-se-ão manter, em possíveis volumes seguintes, dada a produção que continuam a ter – caso da Irene Lucília ou do Carlos Nogueira Fino, por exemplo – mas daremos também lugar a outros que não entraram agora. Um exemplo é o caso do falecido José Baptista Fernandes, que deixou alguns poemas na posse da Laura Moniz. Numa próxima antologia, estou a pensar que se poderão incluir os seus poemas, juntamente com os de outros autores”, refere Sainz-Trueva.

Artes

O poeta e também director do Museu de Arte Contemporânea do Funchal sublinha a intenção dos envolvidos neste projecto incluírem em volumes futuros a obra de poetas açorianos: “Além de publicarem muito e de terem uma editora própria, têm uma actividade muito grande relativamente a esta área, e que é pouco conhecida da parte dos madeirenses, como nós também somos pouco conhecidos por lá… É esta ‘ponte’ que se vai estabelecer agora, na qual o Onésimo Teotónio de Almeida e outras figuras são importantes, que poderá tornar-se um projecto interessante e com pernas para andar. Eu estou com expectativas de que isso efectivamente acontecerá”.

Já relativamente à inclusão neste projecto de autores de Cabo Verde e Canárias, o nosso interlocutor considera-a fácil, na medida em que vários autores de destaque daquele arquipélago deslocaram-se em tempos à Madeira para participar em colóquios promovidos pela Câmara Municipal do Funchal, e dinamizados pela saudosa Maria Aurora. Repescar esses contactos e reactivar ligações com associações culturais cabo-verdianas, afiança, não será difícil. Mas Trueva não perde tempo e quer propor já o início deste trabalho com açorianos e cabo-verdianos ao grupo, dada a aplicação que é necessária para desenvolver a compilação de antologias deste tipo. “Isto dá muito trabalho”, frisa. Mas confessa o entusiasmo no empreendimento e o gosto que teve em conhecer o trabalho de novos autores, como, por exemplo, Teresa Jardim, Filipe Camacho, Tiago Patrício, Dinarte Vasconcelos, Rui Guilherme Gabriel…

A estes conjuntos de poemas foram, revela, dados pequenos títulos. Nomeadamente, no caso de Isabel Aguiar, ‘Poliedros’; no de Irene Lucília, “Sombra sobre os muros”; no de Filipe Camacho, ‘Pequena Digestão’; no de Fátima Dionísio, “A inominável cintilação dos pássaros”; no de João Dionísio, “Uma oferta real para Maria Lordelo”, no de Ana Margarida Falcão ‘Diário de Viagem’; no de Carlos Nogueira Fino, ‘Cinco Poemas Crioulos’, no de Rui Guilherme Gabriel, ‘Corretã sobre Cisterna’; no de Laurindo Goes ‘A Penas Poemas’; no de José António Gonçalves, ‘Doze Inéditos’; no de Teresa Jardim, ‘Jogos de Adivinhação’; no de Lília Mata, ‘Palavras’; no de Laura Moniz, ‘Horto do Tempo’; no de José Viale Moutinho, ‘Ilha: Veredas’; no de Tiago Patrício, ‘Funchal 1979’; no de José de Sainz-Trueva, ‘Gatos e Outros’; no de Eurico de Sousa, ‘Talvez estas janelas’; no de Ângela Varela, ‘Sem Retorno’, e, finalmente, no de Dinarte Vasconcelos, ‘Poemas para o Dia Seguinte’.

Ana Margarida Falcão, pelo seu lado, considera que nesta antologia “há material bastante bom”. Aos autores participantes foi pedido um máximo de dez poemas, que não excedessem o espaço de uma página. Ou um total de poemas que não excedesse dez páginas, no caso de haver poemas individuais que ocupassem mais do que uma página. Na prática, cada poeta que figura na antologia terá direito a cinco folhas, mais uma para a apresentação e nota crítica (ou, mais propriamente, uma nota de leitura, dado que se partiu do princípio de que ninguém iria escrever sobre poemas de que não gostasse, pelo que não se trataria propriamente de uma crítica) que lhe é destinada. “Penso que o resultado será um volume bem razoável”, congratula-se.

Conforme apurámos, a DRAC já manifestou interesse nesta antologia. Em princípio, serão Sainz-Trueva e Thierry Santos a reunir com os responsáveis da Direcção Regional dos Assuntos Culturais.