Quem percorre a Rua de São Fernando em Santa Cruz encontra um edifício com a entrada emparedada e uma placa com a inscrição ‘PATRIMÓNIO DO ESTADO’ afixada em posição elevada na fachada, junto ao canto superior esquerdo da porta.
Procurando um ponto de observação, avista-se a ruína de um edifício sem tecto, invadido por vegetação, e, sobranceira ao mar, uma bateria semicircular em alvenaria de pedra assente sobre uma escarpa basáltica, dotada de uma esplanada calcetada com parapeito alto e aberturas para artilharia costeira.

É neste estado miserável que se encontra a única estrutura militar de Santa Cruz que chegou até aos nossos dias. Eram três fortes, todos construídos no século XVIII, para defesa da baía: Forte de Nossa Senhora da Graça, no centro da vila, mandado demolir pela Câmara Municipal de Santa Cruz; Forte de São Francisco, a este, arrasado aquando das obras do aeroporto; Forte de São Fernando, a oeste, votado ao abandono há vários anos.
No Tombo Militar de 1865, ficou descrito como situado «num pontal de rocha basáltica, no flanco direito da enseada da vila de Santa Cruz, avançando sobre o mar entre as torrentes ou ribeiras denominadas de Santa Cruz e Boaventura», com duas bocas de fogo, uma casa da guarda que só permitia alojar um fiel de munições e uma guarnição de três homens.
Arrendado na última década do século XIX e entregue à Guarda Fiscal na primeira metade do século XX, o Forte de São Fernando ostenta a lápide ‘Património do Estado’. Tem dono, mas, sem uso, degrada-se progressivamente.
Era importante que a Câmara Municipal de Santa Cruz ou o Governo Regional da Madeira se interessassem por este imóvel, requeressem a sua transferência para o património municipal ou regional e lhe dessem utilidade digna. Ou então, o Estado Português que o venda, com a condição de salvaguarda dos elementos da arquitetura militar. A sua localização e a vista soberba sobre o mar atrairão, por certo, compradores que saberão rentabilizar o Forte. Antes as mãos privadas do que o total esquecimento público.
O destino dado às fortificações transferidas para a Região não tem sido o mais adequado, existindo um claro desleixo na sua manutenção. Prova disso é o Forte de Nossa Senhora da Conceição (no ilhéu da Pontinha) – onde até desapareceu o guindaste ali colocado em abril de 1928, em substituição do original de oitocentos, e, imagine-se, se engendrou a sala de visitas de Zarco –, o de São João ou do Desembarcadouro e o de Nossa Senhora do Amparo em Machico, o do Porto Novo, o Forte dos Louros ou ainda as Fortalezas de Sant’Iago e do Pico, no Funchal. Nenhum destes monumentos tem merecido a devida salvaguarda.
O abandono do Forte de São Fernando é o retrato fidedigno da incompetência do Estado na salvaguarda da sua própria memória. A ruína deste e o estado de outras fortalezas na Região não são apenas fruto do passar dos anos, mas sim o resultado de décadas de desinteresse, desleixo e manifesta incapacidade de gestão por parte das entidades públicas.
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