Patrocinadores da seleção não são admiradores

AF!

A notícia de que Portugal poderá perder cerca de 40% das receitas comerciais com a eventual saída de Cristiano Ronaldo tem sido apresentada, por alguns, como mais uma demonstração da dimensão única do capitão. E, de facto, é. Mas não é a demonstração que muitos querem vender.

Cristiano Ronaldo foi — e continua a ser — uma marca global. Um jogador que, durante mais de duas décadas, transformou a camisola de Portugal num produto com alcance planetário. A sua imagem vende, gera audiências, atrai atenção e cria valor. É natural que patrocinadores queiram estar associados a esse fenómeno.

Mas convém não confundir as coisas.

Os patrocinadores não são instituições de caridade. Não financiam a Seleção Nacional por amor a Cristiano Ronaldo, por gratidão pelos golos marcados ou por saudade de tempos gloriosos. Estão lá porque há retorno. Porque há visibilidade. Porque há audiências, vendas, campanhas e milhões de impressões. Estão lá porque o negócio compensa.

Quando deixar de compensar, procurarão outra face. Outro nome. Outra história para vender.

Uma questão de mercado

A eventual perda de receitas comerciais não é, por si só, uma prova da insubstituibilidade desportiva de Cristiano Ronaldo. É sobretudo uma medida do seu poder de marketing. E esse poder é imenso — provavelmente incomparável no futebol português —, mas não equivale ao valor de uma Seleção inteira.

A FPF tem contratos assegurados até 2030, o que significa que a saída de Ronaldo não provocará necessariamente um colapso imediato das receitas. Mas é ingénuo pensar que a sua ausência não deixará marcas. Menos camisolas vendidas no estrangeiro, menor exposição internacional, menos interesse espontâneo de marcas que antes viam em CR7 um atalho para o mercado global: tudo isso conta.

O problema começa quando se transforma uma realidade comercial numa tese quase nacionalista. Como se Portugal fosse Cristiano Ronaldo. Como se, sem ele, a Seleção deixasse de representar o país, de ter valor ou de merecer investimento.

Os outros também representam

Bruno Fernandes representa Portugal. Vitinha representa Portugal. João Neves, Nuno Mendes, Rúben Dias, Diogo Costa e tantos outros representam Portugal. Têm mérito, valor desportivo e, para muitos adeptos, uma ligação emocional tão legítima como qualquer outra.

A diferença é que não têm — ainda — a mesma máquina mediática. Não têm a mesma escala global. Não vendem camisolas com a mesma facilidade em Tóquio, Nova Iorque ou Riade. Mas isso não os transforma em figuras secundárias nem reduz o seu papel na Seleção.

Há uma diferença fundamental entre valor comercial e valor desportivo. Cristiano Ronaldo é uma marca gigantesca; a Seleção Portuguesa é uma instituição. Uma marca pode ser rentável, pode ser substituída por outra quando o retorno muda. Uma instituição representa um país, uma história e uma comunidade que não se resume a um único nome.

O fim do romantismo

No mundo dos negócios, a lealdade dura, em regra, enquanto dura o lucro. Não é uma frase cruel; é uma constatação. As marcas não têm memória afetiva. Têm metas, orçamentos e estratégias.

Se amanhã surgisse outro jogador português capaz de gerar o mesmo alcance, as mesmas audiências e o mesmo retorno financeiro, os patrocinadores não ficariam paralisados pela saudade de Cristiano Ronaldo. Mudariam de camisola. Escolheriam o novo rosto. Fariam contas e avançariam.

Isso não apaga o que Ronaldo deu ao futebol português. Pelo contrário: confirma a sua dimensão. Poucos atletas na história do desporto conseguiram transformar uma seleção num produto global tão reconhecível.

Mas também não transforma patrocinadores em admiradores. Nem valor comercial em valor nacional.

Portugal perde, com a saída de Cristiano Ronaldo, um ativo comercial extraordinário. Não perde, por isso, a sua identidade. E quem confunde as duas coisas está a olhar para o jogo apenas pela publicidade que aparece nas bancas.


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