AF!
Há decisões políticas que nascem para resolver problemas. Outras nascem para os disfarçar. E depois há aquelas que, com uma elegância quase artística, conseguem fazer as duas coisas ao mesmo tempo: parecem resolver, mas sobretudo procuram parecer resolvidas. O recente anúncio de que os professores classificadores passariam a receber um euro por cada resposta corrigida entra, com passo firme e gravata alinhada, nessa nobre tradição da engenharia da aparência.
A ideia, vista de longe, até tem um certo encanto democrático. Um euro. Redondo, simples, facilmente comunicável, pronto a caber numa conferência de imprensa, numa publicação de rede social ou num cartaz de campanha com letras grandes e fundo azul institucional. Um euro é bonito porque não levanta muitas perguntas. É pouco, mas é claro. É quase uma filosofia de Estado: quando não se consegue pagar bem, paga-se de forma fácil de explicar.
O problema é que a simplicidade, em política, costuma ser irmã da maquilhagem. E a maquilhagem, como se sabe, não altera a pele; apenas a torna apresentável para a fotografia. Assim, o valor fixo por questão classificada surge como um daqueles remendos que não escondem o rasgão, apenas o tornam mais fotogénico. À primeira vista, o país inteiro respira de alívio: afinal, os professores estão a ser compensados. À segunda, começa a desconfiar-se de que a compensação foi desenhada com a mesma atenção dada às instruções de um móvel de encaixe: parece completo até alguém tentar usá-lo.
Porque, convenhamos, classificar respostas não é como vender laranjas ao quilo. Há respostas curtas, quase telegráficas, que se resolvem num instante; há respostas que são um romance russo com erros ortográficos, divagações filosóficas e, por vezes, uma criatividade que merecia terapia. Tratar tudo pelo mesmo preço é um triunfo da burocracia sobre a realidade. É a versão educativa do “todos os iguais, todos contentes”, uma espécie de socialismo de tabela que ignora a diferença entre uma pergunta de escolha múltipla e uma composição que exige leitura, releitura, interpretação, paciência e, nalguns casos, uma pequena oração silenciosa.
É aqui que a coisa se torna verdadeiramente deliciosa do ponto de vista satírico. O Estado descobre, subitamente, que o trabalho intelectual afinal existe, consome tempo e merece pagamento. Fantástico. Quase comovente. Só faltou anunciar, em tom solene, que a eletricidade também passa a ser remunerada ao forno, a água ao copo e a paciência ao minuto. Durante anos, muitos professores classificaram sem receber um cêntimo extra, porque a vocação, esse maravilhoso instrumento de exploração mútua, servia de justificativo universal. Agora, de repente, surge o euro por resposta como se tivesse sido inventado o conceito de remuneração. Não é uma política: é uma revelação bíblica com orçamento.
Mas talvez o mais interessante não seja o valor em si. É a estética do gesto. Um euro por questão tem a vantagem política de produzir uma frase irresistível: “os professores vão ser pagos por cada resposta classificada”. Isso soa excelente. Tem ritmo, tem autoridade, tem cheiro de justiça. Ninguém diz, num cartaz, “os professores vão receber uma quantia simbólica, cuidadosamente calculada para transmitir reconhecimento sem desarrumar a despesa pública”. Isso já não vende. Já não cabe numa soundbite. Já não permite que todos se sintam virtuosos ao mesmo tempo: o Governo por pagar, a opinião pública por aprovar, e os professores por serem, finalmente, lembrados.
É também uma medida prodigiosamente útil para a política moderna, porque serve dois públicos distintos com o mesmo pacote. Aos professores, mostra-se uma moeda. Aos alunos, encarregados de educação e sociedade, mostra-se um princípio: vejam como estamos a valorizar quem corrige os vossos exames. É um gesto com a precisão teatral de uma peça em que o protagonista entra em cena para salvar o reino, mas chega sempre com uma espada de brinquedo. O importante não é o peso do metal, é o brilho da encenação.
No entanto, a pergunta inconveniente insiste em aparecer, como aquelas chamadas que ninguém quer atender, mas que continuam a tocar: se o objetivo era ser justo, por que razão se escolheu um modelo que ignora as diferenças entre questões? E se o objetivo era mostrar justiça, não estaremos perante uma versão administrativa da cortina de fumo? O país adora esse género de solução: pequena o suficiente para não incomodar muito, vistosa o suficiente para parecer que mudou tudo. É o equivalente educacional de pintar a fachada de um prédio em risco e declarar a obra concluída.
Há aqui um detalhe quase poético. A discussão pública transforma-se rapidamente numa competição entre perceções. De um lado, o Governo tenta dizer: “não somos ingratos, estamos a pagar.” Do outro, os professores respondem: “não nos confundam com figurantes de uma operação de imagem.” E pelo meio, a sociedade observa, mais ou menos resignada, como quem assiste a uma partida de xadrez em que as peças são feitas de papel e os movimentos parecem racionais apenas para quem os inventou. No fim, todos falam de valorização, mas ninguém parece ter coragem de discutir o essencial: quanto vale realmente o trabalho de avaliar bem, com responsabilidade e sem atalhos?
A ironia máxima é que o Estado só descobre a complexidade do trabalho quando precisa de o pagar pouco. A classificação de exames é, de repente, apresentada como um processo que merece regulação, critérios e compensação. Excelente. Pena que essa epifania chegue sempre no momento em que há uma crise mediática, uma pressão sindical ou uma necessidade urgente de acalmar o ambiente. A justiça, nestas circunstâncias, parece menos um princípio e mais um produto de campanha: aparece quando convém, embrulhada em linguagem técnica e com um preço simbólico que não assusta muito os contadores.
O euro, afinal, é uma cifra com grande poder narrativo. É pouco suficiente para não comprometer, mas bastante para anunciar. É um número que permite ao decisor parecer generoso e ao destinatário parecer contemplado, sem que nenhum dos dois saia verdadeiramente satisfeito. Em linguagem institucional, chama-se compensação. Em linguagem comum, chama-se “ver se passa”. E muitas vezes passa mesmo, porque o cansaço público é um aliado precioso. Após dois ou três dias de indignação, tudo entra no ciclo natural da vida política: comunicado, réplica, contra-réplica, comentário indignado, declaração moderada, e finalmente silêncio. O silêncio é o melhor amigo das medidas medianas.
No fundo, a questão não é apenas se o euro é justo. A questão é o que o euro quer fingir que resolve. Se o trabalho de corrigir respostas varia muito, um valor único tende a ser mais conveniente para a administração do que justo para o professor. Conveniente é uma palavra muito subestimada em política. É o nome elegante da desigualdade organizada. Serve para justificar a uniformidade quando a realidade pede nuance, e a contenção quando o problema pede coragem. O euro, nesse sentido, é quase um manifesto: diz ao país que a valorização existe, desde que não pese demasiado no orçamento nem obrigue a pensar demais.
E talvez seja isso que torna a história tão satírica. Não há aqui um grande escândalo, nem uma tragédia épica, nem um colapso civilizacional. Há apenas uma solução pequena para um problema grande, apresentada com a confiança de quem confunde gesto com reforma. Há um sistema que durante anos tratou o trabalho como voluntariado e depois decidiu remunerá-lo de forma tão parcimoniosa que a própria parcimónia ficou envergonhada. Há, acima de tudo, o velho talento político para transformar uma questão séria num anúncio confortável.
Assim, o país fica a saber que a classificação de exames passou a valer um euro por resposta. Um euro. Nem pouco, nem muito: o suficiente para parecer uma correção histórica, e insuficiente para ser uma. É a matemática emocional da governação contemporânea. Quando não se pode resolver, alivia-se. Quando não se pode valorizar, comunica-se. Quando não se pode ser justo, tenta-se ao menos soar justo. E, no fim, entre a justiça real e a justiça encenada, a segunda leva sempre vantagem na fotografia.
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