Estepilha, corrigir exames nacionais nunca foi tão moderno — nem tão desastroso

AF!

A digitalização dos exames nacionais foi vendida como um passo em frente, daqueles que fazem os decisores sorrir em conferência de imprensa e falarem em “modernização” com a solenidade de quem acabou de descobrir a roda. O problema é que, na prática, a inovação saiu da sala antes de o sistema entrar. O resultado está à vista: professores a tentar corrigir provas num labirinto digital, alunos à espera de notas e um país inteiro a fingir que isto é apenas uma “fase de adaptação”.

Há qualquer coisa de poeticamente português nisto. Sempre que uma reforma promete simplificar, o efeito imediato é multiplicar as dores de cabeça. A ideia era agilizar a correção, reduzir papel, tornar o processo mais eficiente e, quem sabe, mostrar que o Estado também consegue andar de smartphone na mão. Mas a realidade tratou de lembrar que, em Portugal, muitas vezes o digital funciona como o analógico, só que com mais ecrãs, mais passwords e muito mais paciência a arder.

Os professores classificadores, esses heróis discretos do costume, ficaram presos num sistema que parece ter sido desenhado por alguém que nunca corrigiu um exame na vida. Houve atrasos, falhas de acesso, documentos em falta e uma sensação geral de que cada clique podia abrir a porta errada. Em vez de uma plataforma de apoio, nasceu uma espécie de escape room pedagógica, onde o objetivo não é sair com vida, mas simplesmente conseguir abrir o exame certo.

E depois há a parte deliciosa do discurso oficial, que merece sempre um lugar de honra no museu nacional do improviso. Quando o caos aparece, a resposta é invariavelmente tranquilizadora: está tudo sob controlo, os prazos mantêm-se, nada de alarmismos. É um clássico. Se os professores não conseguem aceder às provas, se os manuais não aparecem e se o sistema tropeça em cada esquina, isso não é desorganização — é “um desafio logístico”. A burocracia portuguesa tem esta elegância: quando falha, não falha; “enfrenta constrangimentos”.

No meio disto tudo, os alunos são convidados a confiar num processo que, noutros tempos, já seria motivo de reunião urgente, inquérito e meia dúzia de explicações pouco convincentes. Mas como o assunto é educação, e a educação costuma ser tratada como um problema sazonal, a indignação dura o tempo suficiente para dois comunicados e um debate televisivo. Depois segue-se em frente, com sorte, até ao próximo episódio da série “Agora é que vai ser”.

A melhor parte é que ninguém parece verdadeiramente surpreendido. Já aprendemos a viver com a ideia de que a inovação no serviço público tem sempre um custo extra: tempo, nervos, clareza e, no caso dos exames, confiança. A tecnologia entrou para simplificar, mas encontrou a tradição nacional da solução provisória, do remendo funcional e da esperança religiosa de que “amanhã já está melhor”. Muitas vezes, não está. Mas isso também não impede ninguém de anunciar que está.

No fim, o que esta história mostra é simples: não basta digitalizar por digitalizar, tal como não basta chamar “reforma” a uma mudança se o resultado for o mesmo problema com outro nome e menos papel visível. A modernização é ótima, desde que venha acompanhada de testes reais, planeamento, apoio técnico e a pequena extravagância de ouvir quem vai usar o sistema. Sem isso, o que se apresenta como avanço acaba por parecer uma versão premium do costume: mais caro, mais complexo e igualmente caótico.

 

Se a Norma foi entregue depois da data prevista às equipas coordenadoras do exames nas escolas, se até horas antes do exame chegavam folhas, às prestações, para adicionar ao caderno de respostas do aluno e se a opção da versão do exame era colocada numa folha solta, não podem ficar admirados que alguém tenha agrafado as folhas ao caderno ou que os cadernos que não estavam agrafados, as folhas tenham sido trocadas… Se nem houve o cuidado de ver se as imagens que estavam nos exames, também estavam nos livros de exercícios que [alguns] alunos tinham acesso

 

Quando o Estado decide inovar, os professores é que pagam a fatura!


Descubra mais sobre Funchal Notícias

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.