AF!
Há frases que resumem um sistema inteiro melhor do que qualquer relatório, qualquer comissão parlamentar ou qualquer PowerPoint com gráficos coloridos e promessas de “reforma estrutural”. A de George Monbiot é uma delas. No fundo, ele descreve a cadeia alimentar fiscal com uma simplicidade quase cruel: os pobres da classe média pagam impostos, os ricos pagam contabilistas, os muito ricos pagam advogados e os ultra-ricos, esses, parecem viver num nível de sofisticação em que a própria lei já vem com serviço de concierge.
A classe média, coitada, é a única que ainda acredita que o imposto é uma obrigação sagrada, paga em dia, sem truques e sem malabarismos. Recebe o ordenado, olha para o recibo, suspira, e lá vai mais uma fatia para o Estado, como quem entrega um bilhete sem contestação à entrada de um espetáculo em que não pediu para entrar. Já o rico, mais prudente, não paga propriamente impostos; paga consultoria. E a consultoria, como se sabe, é essa forma elegante de dizer “vamos ver como é que isto pode parecer legal sem custar tanto”.
Depois entram os muito ricos, que já não jogam ao mesmo jogo. Eles não perguntam “quanto devo pagar?”, mas antes “como é que isto desaparece da vista sem fazer barulho?”. Nessa altura entra o advogado, que não é apenas um advogado: é uma espécie de tradutor oficial entre o património e a legislação, entre a fortuna e a fiscalização, entre o “tenho isto tudo” e o “formalmente, talvez não pareça”. E, claro, nos andares de cima da pirâmide surgem os ultra-ricos, uma categoria tão acima do comum mortal que já nem lhes basta blindar rendimentos — precisam de blindar narrativas, influências, acessos e, quando possível, decisões políticas. Porque pagar impostos é para quem não teve tempo de contratar a equipa certa.
O melhor disto tudo é que o discurso oficial continua a dizer que o sistema é equilibrado, justo e transparente. Só que, na prática, o equilíbrio parece ser o de um barco com um lado cheio de iates e o outro ocupado por pessoas que ainda estão a tentar perceber porque é que a retenção na fonte não falha nunca. A transparência, por sua vez, é bastante seletiva: o salário do trabalhador vê-se ao pormenor, a fortuna do milionário já aparece em camadas, fundos, holdings, fundações e outras peças de um puzzle tão complexo que até o fiscal da repartição precisa de mapa, bússola e lanterna.
A piada final é que a classe média continua a ser tratada como se fosse rica demais para receber ajuda e pobre demais para receber respeito. Paga, reclama baixinho, faz contas ao fim do mês e ainda ouve que “é preciso apertar o cinto”. Já os grandes fortunados apertam pouco e soltam muito: uma estrutura aqui, uma dedução ali, uma sociedade acolá, e no fim a factura parece sempre mais leve do que a moral pública gostaria de admitir. É uma engenharia admirável — não de produção, mas de escape.
No fundo, Monbiot pôs em meia dúzia de palavras aquilo que muita gente sente quando olha para o sistema fiscal: uns pagam o preço cheio, outros compram na promoção, e os do topo recebem ainda embrulho premium, carta de agradecimento e acesso ao evento privado. É a velha democracia dos impostos, em que todos são iguais — mas alguns, como sempre, são muito mais iguais do que outros.
Descubra mais sobre Funchal Notícias
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.





