Rui Marote
Hoje abordamos um tema que foge ao habitual, os tesouros esquecidos do património de valor inestimável e o facto de estarem fechados ou esquecidos, o que constitui uma perda cultural imensa.
Enquanto a floresta Laurissilva, as levadas e o Pico do Arieiro dominam o foco mediático e turístico da Madeira, existe uma vasta herança cultural no Funchal que permanece frequentemente esquecida, escondida ou fora dos roteiros habituais. Lembremos por exemplo o património azulejar e os Passos Processionais, que revelam a identidade profunda e a história religiosa e social da Ilha.
Enquanto a floresta Laurissilva, as levadas e o Pico do Arieiro dominam o foco mediático e turístico da Madeira, existe uma vasta herança cultural no Funchal que permanece frequentemente esquecida, escondida ou fora dos roteiros habituais. Lembremos por exemplo o património azulejar e os Passos Processionais, que revelam a identidade profunda e a história religiosa e social da Ilha.
Os Passos Processionais eram uma das estações da Via-Sacra que atravessava a cidade mais concretamente assinalava a Semana Santa. O interesse histórico e patrimonial é evidente. Na Madeira existem dois, nos Açores e Lisboa um, e no Brasil sete. Os dois existentes na cidade do Funchal são no Largo do Pelourinho e na Rua de Santa Maria, os mais antigos.
O Passo Processional é um altar de parede, emoldurado por cantaria vermelha extraída do Cabo Girão.
Trata-se de um nicho com um arco de volta perfeita, e chave em forma de aleta, assente em capitéis com filete relevado inferior, rematado superiormente por alto frontão, separado por alvenaria pintada ou caiada, com medalhão redondo com as armas de fé dos Jesuítas, JHS, encimado por cruz e com três pregos da Paixão por debaixo. Enquadra ainda um nicho ladeado por duas colunas com capitéis, aletas e duas pilastras rematadas em bico, assente em consola de balanço e superiormente por frontão interrompido encimado por cruz.
Era por ali que a antiga procissão em honra de São Tiago Menor, o padroeiro do Funchal, se ia detendo. Dos vários Passos Processionais, hoje só restam os já referidos. A procissão seguia até à Igreja do Socorro.
Este Passo Processional está fechado à chave, no Largo do Pelourinho, no edifício que albergou os Armazéns Oliveira, imóvel hoje pertença de um cidadão russo que entende ser sua propriedade o próprio Passo Processional. Recorde-se que este edifício, que foi assolado pelo mau tempo nos temporais de 20 de Fevereiro de 2010, esteve para ser demolido.
Outro aspecto interessante do Largo do Pelourinho é a antiguidade de alguns edifícios que ali ainda se encontram já recuperados (ver fotos antes e depois).
Na altura da recuperação do Largo do Pelourinho havia algumas casas a recuperar. Recordamos o edifício onde funcionava a bilheteira dos carros da Camacha. Na altura foi publicado que numa das casas era visível uma janela em mármore de lioz, material raro hoje em dia. Para que o leitor se aperceba, o Funchal tem algumas janelas desse mármore;: as janelas do edifício do cabido da Sé, o chafariz do Largo do Chafariz e o fontanário de mármore que está no átrio dos Paços do Concelho, datado de 1880, da autoria de Germano José Salles são mármore de lioz. Para nos certificarmos de que se tratava mesmo de mármore de Lioz na tal janela, solicitámos esclarecimentos ao nosso amigo engº João Baptista. Sempre pronto a esclarecer-nos, enviou o seguinte texto: “Na sequência dos registos fotográficos, cumpre-me o dever de remeter os seguintes comentários: – na fotografia a P/B as lajes de pedra de “cantaria mole?” da sacada/varanda e a moldura (Peitoril, Parapeito, Prumadas/Ombreiras, Lintel ou Verga) do janelão, estão revestidas com argamassa e caiadas / pintadas? de branco; – na recuperação dos janelões e janelas (situação actual) tudo indica que foram reutilizados alguns blocos de pedra das cantarias moles de tonalidade preta e vermelha pertencentes ao edificado primitivo e cantaria mole lilás / rosa, cortada em chapa (laminada); a superfície da cantaria mole face à vista, apresenta dois tipos de acabamento: picada e serrada/lisa; – no janelão maior o lintel superior foi pintado de cinzento”. Concluindo: não se tratava de mármore de Lioz. Pelo menos não repetimos o mesmo erro, fazemos a correção. Mesmo assim, não deixa de ter interesse patrimonial, achamos nós.
Gaspar Frutuoso em “As Saudades da Terra”, quando descreve o Largo do Pelourinho diz, que é como “uma não muito grande, mas formosa e cercada praça de boas casas sobradadas, algumas de dois sobrados, com um rico pelourinho de jaspe (…)”.
Algumas das casas tinham, como descreve o antigo historiador açoriano, janelas de mármore, e alguns telhados eram mesmo “coroados de ameias”.
Entretanto, o Passo Processional da Rua de Santa Maria não nos foi possível fotografar de novo, por estar fechado a “Sete Chaves”. É um monumento religioso setecentista datado de 1733. Embutido na parede e protegido por portas de madeira, destaca-se pela sua cantaria cinzenta e pelas suas pinturas interiores em estilo rococó.
Por fora é emoldurado por cantaria, com um vão rematado por uma cornija e sobrepujado por um nicho entre aletas. O conjunto é encimado por uma cruz de pedra e possui uma base datada. O nicho encontra-se resguardado por portadas duplas de madeira.
No seu interior, o arco de volta perfeita é decorado com pintura rococó de carácter popular. As cantarias interiores são pintadas com cores vivas e o espaço apresenta representações alusivas ao martírio de Jesus.
Este passo está integrado no coração da Zona Velha do Funchal (Rua de Santa Maria, n.º 88), uma área muito caraterística da ilha da Madeira. A rua é conhecida por ser uma galeria de arte a céu aberto, onde as portas e fachadas dos edifícios se encontram artisticamente pintadas. Devido à dinamização da zona, o Passo fica por vezes prejudicado pelas esplanadas dos restaurantes locais.
Estes dois Passos são um património de valor inestimável e o facto de estarem fechados ou esquecidos é uma perda cultural imensa. Estes dois monumentos são pertença da Câmara Municipal do Funchal que não tem um gabinete específico nesta área. Para salvaguardar este património deveria existir uma parceria com a Direcção Regional da Cultura.
Ao lado do Passo Processional existe o Núcleo Museológico do Forte de São Filipe, que poderia ficar responsável pela abertura do Passo, sendo um complemento do próprio núcleo.
Uma sugestão seria criar um roteiro turístico cultural e criativo, bilingue, transformando o património esquecido em atrativo cultural activo. Só traria vantagens. Redirecionava o fluxo de visitantes dos pontos massificados para as artérias históricas secundárias (como Zona Velha e a malha urbana histórica).
A juntar aos Passos Processionais anexamos a este roteiro algo de que muitos leitores nunca devem ter ouvido falar: são as marcas de Propriedade da Misericórdia do Funchal. “Não se derruba o passado para construir o futuro”, diz-se.
Estas não passa despercebidas aos cidadãos atentos. Por exemplo, num único azulejo há numeração ou identificação patrimonial colocada na fachada de alguns edifícios do Funchal.
Trata-se das antigos azulejos foreiros de numeração da Santa Casa da Misericórdia. No Funchal e em Portugal as instituições de caridade possuíam muitas propriedades urbanas que eram doadas por fiéis ou usadas para arrendamento social. Para gerir e identificar facilmente os seus imóveis a instituição estampava num único azulejo e colocava na fachada, geralmente acima da porta principal ou numa das esquinas, contendo o brasão de fé da Misericórdia. Na Rua dos Tanoeiros existe um exemplar raríssimo “Doro Zario”.
É uma peça única da Confraria do Rosário da Sé do Funchal, sendo o original estampado no azulejo de Do Rosário abreviação de (Do Rosário), o que explica perfeitamente a leitura visual de “Doro Zario”; devido ao desgaste temporal e à caligrafia antiga.
No ano 1778, a Santa Casa da Misericórdia do Funchal encomendou uma série de azulejos em Lisboa para identificar os prédios que lhe pagavam foro (rendas) inspirada por essa ideia de condução, a Confraria de Nossa Senhora do Rosário (sediada na Sé Catedral do Funchal) fez o mesmo.
Esse azulejo individual na fachada servia para declarar publicamente que aquele imóvel na Rua dos Tanoeiros pertencia e gerava rendimentos. Ao longo dos séculos, as remodelações, os sismos e as cheias na baixa do Funchal destruíram quase todas essas marcas.
Historiadores de arte apontam que o azulejo da Rua dos Tanoeiros é o único exemplar que restou da Confraria do Rosário. Na Rua Santa Maria existe um com o número de porta e a poucos metros um outro semelhante, na Travessa do Pimenta. São os únicos que encontrámos em toda a extensão da Rua de Santa Maria.
Na Rua do Esmeraldo vemos um com os dizeres “FOREIRA A AMIZ. Nº64”. Este património esquecido ou ignorado, faz parte da história da Madeira, como é caso dos Passos Processionais em que os Açores e Lisboa têm um a Madeira tem dois e o Brasil, em Paraty, tem sete.
Não somos especialistas em roteiros, mas pelas experiências que tivemos em mais de 80 países a Câmara e a DRAC deveriam sair dos seus “bunkers”; efectuar levantamentos e criar um roteiro onde se incluísse o novo Museu de Arqueologia, a Igreja do Socorro, a Capela do Corpo Santo… Já agora um reparo para chamar à atenção para a preciosíssima porta, exemplar único, que apresenta um estado de degradação – os Passos Processionais da Rua de Santa Maria e Largo do Pelourinho, o Núcleo Museológico do Forte de São Filipe, a Sé do Funchal, o Jardim Municipal, instalar uma Lápide assinalando o Convento de São Francisco em duas línguas e terminando o roteiro na Igreja do Colégio.
Ao longo deste trajecto há portas e janelas manuelinas e uma gárgula do século XV / XVI na Rua de Santa Maria.
A tecnologia está avançada e se o património material está trancado perdido ou degradado, a tecnologia digital permite “abri-lo” sem colocar em risco a sua integridade física. Placas inteligentes e QR Codes nas fachadas para o visitante ao passar pelas casas com numeração ou pelos nichos dos Passos Processionais possibilitariam pelo menos aceder e abre um portal histórico no telemóvel. Tivemos essa experiência em Dublin no Museu de Emigração: realidade aumentada (RA) através do écran do smartphone. A IA pode fazer um “raio-X” das portadas fechadas dos Passos Processionais.
O utilizador aponta a câmara e vê, em formato 3D a imagem do Senhor dos Passos ou pinturas interiores rococó no seu explendor original.
Visitas virtuais gamificadas: criar um roteiro em formato de “caça ao tesouro” digital, onde os utilizadores ganham pontos ao encontrar e fotografar as numerações por exemplo dos azulejos forais espalhados pela cidade. É isto que vemos lá fora. É um crime ficar sentado à secretária à espera que o património se degrade ou permaneça desconhecido, quando a tecnologia pode contribuir para abrir todas as portas…
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