
Nelson Veríssimo
Na Madeira, o culto ao Imaculado Coração de Maria, aprovado pela Santa Sé no início do século XIX, foi incentivado pela Madre Virgínia Brites da Paixão (1860-1929), religiosa clarissa que professou em novembro de 1883 no Mosteiro de Nossa Senhora das Mercês, quando as Ordens Regulares estavam proibidas.

As Casas Religiosas das Ordens Regulares em Portugal foram extintas pelo famigerado Decreto de 28 de maio de 1834. A sua aplicação às comunidades femininas realizou-se de forma gradual, mediante a proibição da admissão de noviças e a manutenção das religiosas então existentes, determinando-se o encerramento definitivo de cada mosteiro apenas após a morte da última freira nele residente.

Com a implantação da República em Portugal, o Decreto de 8 de outubro de 1910 veio reafirmar no seu artigo 3.° que continuava a vigorar, com força de lei na República Portuguesa, o Decreto de 28 de maio de 1834, «promulgado sob o regime monárquico representativo, o qual extinguiu em Portugal, Algarve, ilhas adjacentes e domínios portugueses, todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e quaisquer casas de religiosos de todas as ordens regulares, fosse qual fosse a sua denominação, instituto ou regra.» Encerrou, por conseguinte, o Convento das Mercês e a Madre Virgínia regressou à casa dos seus pais, no Lombo dos Aguiares, compelida à vida secular ou, pelo menos, a não viver em comunidade religiosa.
Madre Virgínia afirmava ter recebido, através de uma mensagem de Nossa Senhora no dia 15 de agosto de 1913, a incumbência de ser discípula e mensageira do Imaculado Coração de Maria. Daí o seu empenho na construção de um templo com esta invocação. Do seu compromisso, deu conhecimento ao bispo do Funchal, D. António Manuel Pereira Ribeiro (1879-1957). Desde 1919, a diocese angariava donativos para a edificação de uma igreja em honra do Imaculado Coração de Maria.

Foi este prelado quem criou a paróquia do Imaculado Coração de Maria em 26 de novembro de 1954. Na introdução do respetivo decreto, o bispo afirmou que de há muito alimentava o desejo de fazer erguer, na cidade do Funchal, um templo dedicado ao Imaculado Coração de Maria, sede de uma nova paróquia. Para tal, contava com a doação de um terreno no sítio do Pinheiro, feita por D. Maria Teresa da Câmara Leme. A primeira pedra para o novo tempo veio de Fátima, oferecida pelo bispo de Leiria. Foi benzida em 21 de julho de 1948.

A nova paróquia constituía-se com território de Santa Luzia e de Nossa Senhora do Monte, alegando o bispo que, assim, se descongestionava estas paróquias, cujas populações tinham aumentado consideravelmente: em 1950, o Monte tinha 9332 habitantes e Santa Luzia, 9920.

Em 4 de dezembro de 1954, realizou-se a bênção da capela, entretanto construída no terreno doado, para sede provisória da paróquia recém-criada. Em procissão, desde a Sé até à Capela, veio a estátua do Coração Imaculado de Maria, da autoria de José Ferreira Thedim, oferecida por D. Clara Teixeira em sufrágio da alma do seu marido, Luís Teixeira. Foi esta a primeira escultura da paróquia, benzida na Sé do Funchal em 14 de novembro de 1954.
Presidiu à cerimónia solene da dedicação da capela o núncio apostólico, monsenhor D. Fernando Cento. No final da homilia, o núncio afirmou: «Renovo um voto perene: que à capela de hoje, suceda um Templo grandioso – é isso que peço à Santíssima Virgem. Para tal contribuirão os paroquianos com as suas dádivas generosas, facilitando a construção rápida do templo. E, então, seremos todos felizes, para glória de Jesus e de Maria Santíssima, para toda a eternidade.»
Já D. Pereira Ribeiro, no decreto da fundação, havia escrito que confiava em Deus e na piedade e generosidade dos diocesanos «que não levará muito tempo a construir-se o projetado templo, sede definitiva.»
De facto, desde 1955, o arquiteto Chorão Ramalho (1914-2002) trabalhou no projeto da Igreja do Imaculado Coração de Maria, o qual veio a ser aprovado em 1957 e desenvolveu-se até 24 de abril de 1978, quando foi apresentado um anteprojeto para o espaço do adro (arranjos exteriores e residência paroquial).
A construção da igreja deveu-se ao empenho do padre João Evangelista Lopes (1908-1967), nomeado pároco em 19 de junho de 1958, e à generosidade de muitos católicos desta e de outras paróquias. O novo templo foi benzido em 13 de outubro de 1967, pelo bispo D. João Saraiva.
Templo com uma arquitetura inovadora e arrojada, dimensionado para grandes assembleias de fiéis, nele ressalta a combinação harmoniosa entre o betão face à vista, a pedra natural e a cantaria mole vermelha pré-fabricada. Salientam-se ainda o batistério de forma cilíndrica no exterior, frente à porta principal, e a torre isolada do edifício, com os sinos dispostos na vertical. No altar-mor, sobressaem os castiçais desenhados por Chorão Ramalho, as esculturas do Imaculado Coração de Maria em mármore e do Cristo Crucificado em bronze, de Maria Amélia Carvalheira (1904-1998), e o sacrário, de Amândio de Sousa (1934-2021).
A freguesia foi estabelecida pelo Decreto-Lei n.º 40 421, de 6 de dezembro de 1955, atendendo ao que representou a maioria absoluta dos chefes de família eleitores com residência habitual na área da paróquia do Imaculado Coração de Maria, no sentido de fazer coincidir a freguesia civil com a paróquia religiosa.
Na génese desta freguesia, observa-se um processo incomum. O bispo, influenciado pelas revelações místicas da Madre Brites da Paixão e as visões dos Pastorinhos da Cova da Iria, decidiu erguer um templo ao Imaculado Coração de Maria. Conseguiu a doação de um terreno, sobranceiro à cidade do Funchal. Iniciou a construção de uma capela. Criou uma paróquia. Depois motivou os paroquianos-eleitores para requererem ao Governo a criação de uma freguesia. Faleceu em 22 de março de 1957 e, na Igreja que mandou erguer, repousam os seus restos mortais. Concebeu um templo grandioso para o culto público ao Imaculado Coração de Maria, como a ‘freirinha’ do Lombo dos Aguiares pedira. Pelo meio, ficou a consagração da diocese do Funchal ao Imaculado Coração de Maria em 28 de maio de 1933, no Terreiro da Luta, junto ao Monumento da Paz.

Do Património arquitetónico da freguesia, salientamos a Capela de Nossa Senhora da Consolação, a Quinta da Palmeira e a Quinta do Poço.
A Capela de Nossa Senhora da Consolação, situada no cruzamento da Rua da Torrinha com a Rua da Levada de Santa Luzia, foi fundada no século XVII por Diogo Guerreiro e sua mulher, D. Catarina Gomes. Na segunda metade do século XIX, foi ampliada e modificada. Harry Hinton (1857-1948) adquiriu esta capela em 1936 e restaurou-a, dotando-a de um vitral, relógio e um painel de azulejos. Aqui encontram-se algumas peças religiosas provenientes do extinto e demolido Convento de São Francisco do Funchal, como, por exemplo, o frontal do altar, de entársia. Na fachada, pode observar-se um painel de azulejos de 1945, alusivo à padroeira da capela, executado por Faiança Battistini, de Maria de Portugal, e pintado por Rosa Rodrigues, e, no adro, calçada madeirense datada de 1881, com uma rosa-dos-ventos.

Na Quinta da Palmeira, encontra-se a famosa janela da casa do flamengo João Esmeraldo, vulgarmente denominada «Casa de Colombo», que foi mandada demolir pela Câmara do Funchal em 9 de novembro de 1876. A janela tem a seguinte inscrição: «JHS 1494 Maria» e foi montada na Quinta da Palmeira em junho de 1931.
O abastecimento de água constitui um encargo das Câmaras Municipais que, ao longo dos tempos, se concretizou de formas diversas. Hoje a preocupação é disponibilizar água no interior da habitação. Mas houve um tempo em que a prioridade era construir fontanários para benefício da população.
Na década de 30 do século passado, a Câmara Municipal do Funchal mandou construir um grande reservatório para abastecimento de água potável à cidade na sua propriedade situada na Levada de Santa Luzia, atualmente denominada Quinta do Poço. Foi inaugurado em 27 de maio de 1934 e custou 828 contos. Esta verba provinha de um empréstimo contraído pela edilidade junto do Governo Central no valor de 7000 contos, para as obras de abastecimento de água potável ao Funchal. O projeto do reservatório é da autoria do engenheiro Marcelino Botelheiro e a obra foi executada pelo empreiteiro João Pinto Correia Segundo.

Na Quinta do Poço, junto à igreja do Imaculado Coração de Maria, podemos desfrutar de um jardim e um miradouro com vista panorâmica sobre o Funchal. Desde 1988, aqui funciona a Divisão de Jardins e Espaços Verdes Urbanos da Câmara Municipal do Funchal. É também lugar para desenvolvimento de ações de educação ambiental. Os portões e o gradeamento em ferro forjado desta Quinta pertenceram ao Jardim Municipal. Foram de lá removidos em 1935, aquando do prolongamento da Avenida Arriaga, desde a confluência com a Rua de São Francisco até à Ribeira de São João.
Os ‘Censos de 2021’ indicavam 5627 habitantes, menos 2257 do que em 1960, ano do primeiro recenseamento desta freguesia. Pelo Recenseamento Eleitoral de 15 de junho de 2025, estavam inscritos 5603 eleitores, cidadãos nacionais, 9 cidadãos da União Europeia, não nacionais, e 10 outros cidadãos estrangeiros residentes em Portugal.

Heráldica da freguesia: Armas – Escudo de ouro, til de negro arrancado do mesmo e folhado de verde; em chefe, coração de vermelho, flamejante do mesmo e rematado por cruz de negro; campanha ondada diminuta, de três tiras de azul e prata. Coroa mural de prata de três torres. Listel branco, com a legenda a negro: “IMACULADO CORAÇÃO DE MARIA”. (Diário da República, n.º 264, 3.ª Série, Parte A, de 14-11-2001).
Agradecimentos: Rev.º Padre Johnny Sé Aguiar, Eng.º Doutor João Baptista Pereira Silva e Mestre Emanuel Gaspar.
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