Freguesias da Madeira: Faial

FAIAL, MADEIRA. FOTO: © ANABELA GOMES, 2025.

Nelson Veríssimo

Situada no nordeste da ilha da Madeira, a freguesia do Faial é a que dispõe de maior área, no município de Santana.

Foi a abundância de faias (Myrica faya) nesta localidade que deu origem ao topónimo Faial.

Desconhece-se a data da instituição desta paróquia, mas em 1518 já existia. Em 10 de março de 1520, foi apresentado João Garcia para vigário, em substituição do padre Fernão Gonçalves, falecido.

ALTAR-MOR DA IGREJA DE N.ª SR.ª DA NATIVIDADE, FAIAL.

O seu orago é Nossa Senhora da Natividade. Em 1584, Gaspar Frutuoso referiu-se a esta freguesia e à concorrida festa da sua padroeira:
«Terá esta freguesia como cem fogos; a igreja está entre duas ribeiras muito altas das rochas; tem muita fruta de espinho, de cidras e limões, peras e peros e maçãs, e castanha e noz. Sendo a igreja de bom grandor, dizem que toda se armou de um grandíssimo pau de cedro, que se achou perto dela; pelo seu dia, que vem a oito de setembro, se ajuntam de romagem de toda a ilha passante de oito mil almas, onde se vê uma rica feira de mantimentos de muita carne de porco e vaca, e chibarro, a qual é uma extremada carne de gostosa naquela ilha, ainda que em outras muitas terras e ilhas seja a pior de todas. Ali se ajuntam muitos cabritos e frutas, e outras coisas de comer, para comprarem os romeiros, que muitas vezes se deixam estar dois, três e mais dias em Nossa Senhora, descansando do trabalho do caminho, porque vêm de dez e doze léguas por terra mui fragosa; e juntos fazem muitas festas de comédias, danças e músicas de muitos instrumentos de violas, guitarras, flautas, rabis e gaitas de fole; e pelas faldras das ribeiras, que têm grandes campos, no dia de Nossa Senhora e em seu oitavário, se alojam os romeiros em diversos magotes, fazendo grandes fogueiras entre aquelas serranias.» (Saudades da Terra, L.º II, cap. XVIII).

Um dos primeiros povoadores deste lugar foi Lançarote Teixeira, filho do primeiro capitão de Machico, a quem foram distribuídas várias terras de sesmaria.

AGRADECIMENTO PELOS DONATIVOS PARA A RECONSTRUÇÃO DA IGREJA DO FAIAL, ASSINADO E DATADO PELO PÁROCO.

A primeira igreja estava situada junto à Ribeira do Faial, correndo frequentes riscos em tempo de cheia.

Na sequência da aluvião de 15 de dezembro de 1744, foi construído novo templo em local mais resguardado.

Na noite de 12 para 13 de setembro de 1960, um incêndio destruiu a Matriz. Empenhou-se na sua reconstrução o padre António Joaquim Figueira Pestana Martinho (1930-2009), pároco do Faial entre 1961-1968, que contou com a generosidade dos paroquianos e dos emigrantes, em especial, do Canadá, Curaçau, Venezuela e Brasil.

Quadras populares de uma romagem para angariação de fundos para a reconstrução da Igreja, relevam o empenho da população e o labor do vigário: «Juntos vamos recuperar / O que o fogo devorou. / Com Deus vamos esquecer / A mágoa que em nós ficou.»; «O senhor padre Martinho / Foi até ao estrangeiro. / Nas obras da nossa Igreja / Tem sido um bom engenheiro.»

CAPELA DE N.ª SR.ª DA PENHA DE FRANÇA, SÍTIO DA FAZENDA, FAIAL.

Pela sua singularidade, é de salientar a Capela de Nossa Senhora da Penha de França, no sítio da Fazenda, instituída por António Teixeira Dória, em terras de seu morgado. Escavada num penedo, este pequeno templo ostenta a data de 1685, inscrita na chave do portal.

Em memória do tempo em que existia uma vigia no Faial para observar o mar e detetar inimigos, piratas ou corsários, o Fortim, no sítio do Tojal, uma criação do século XX, proporciona uma visão deslumbrante do Faial, São Roque do Faial, Porto da Cruz e do Atlântico, podendo-se, em dias de boa visibilidade, avistar a ilha do Porto Santo.

Outro lugar de fruição de uma paisagem soberba é o Miradouro do Guindaste, situado numa das vertentes da foz da Ribeira do Faial, que nos permite contemplar uma vista sobre a costa norte da Madeira, que se estende desde o Faial à Ponta de São Lourenço.

Da icónica ponte sobre a ribeira do Faial, inaugurada em 1904 e destruída pelo temporal de março de 1984, restam apenas três dos seus sete arcos, que mereceram representação na heráldica da freguesia, conjuntamente com a faia e a águia.

Em 2025, o Governo Regional da Madeira deliberou construir um campo de golfe na freguesia do Faial, considerando ser «uma infraestrutura desportiva e turística de relevante interesse público e incrementadora do desenvolvimento socioeconómico da zona norte da Madeira.» O Decreto Regulamentar Regional n.º 23/2025/M, de 4 de dezembro, estabeleceu medidas preventivas aplicáveis na zona de implantação e de influência da área do Golfe do Faial, nos sítios denominados Lombo do Galego, Água d’Alto, Ressoca, Corujeira de Baixo, Chão do Pico, Cabeço e Ponte do Faial. Contudo, não há prazos definidos para este projeto.

Atualmente, a Região conta com um campo de golfe no Porto Santo e dois na Madeira. Em construção está uma nova infraestrutura na Ponta do Pargo, no concelho da Calheta. No Porto Santo, será construído um segundo campo de golfe, cujo concurso público, para a primeira fase da obra, foi publicado no dia 10 de novembro de 2025, com um valor base de 6,1 milhões de euros. Prevista também está a ampliação do campo de Golfe do Santo da Serra, que passará a contar com mais nove buracos. Prevê-se, assim, seis campos de golfe.

VISTA DO MIRADOURO DO GUINDASTE. FOTO: © ANABELA GOMES, 2023.

Perante tão avultado investimento nesta modalidade desportiva, num arquipélago com 801,10 km2 e dependente do transporte aéreo, com constrangimentos bem conhecidos, muitos faialenses interrogam-se se o golfe, algum dia, os beneficiará, atraindo residentes e criando riqueza para a freguesia.

Em 1945, foi fundada a Casa de Chá do Faial. Era paragem obrigatória para os turistas que se dirigiam para a costa norte. No âmbito turístico e gastronómico, revelou-se um projeto inovador e de distinta qualidade, que se transformou num restaurante.

O Festival da Canção do Faial, iniciado em 1979, constituiu-se, durante alguns anos, como importante evento cultural independente que revelou artistas, com posterior destaque no panorama musical da Região.

Na Foz da Ribeira do Faial, o complexo balnear e o Kartódromo são espaços de lazer e desporto que atraem muitos visitantes.

Nesta freguesia, pratica-se uma agricultura de subsistência. Longe vão os tempos de áreas significativas de cultura da cana-de-açúcar, vinha e banana. Predominam agora as hortofrutícolas: batata (semilha), batata-doce, feijão verde e maduro, milho, anona, tomate, ameixa, maçãs…

Desde 1992, realiza-se anualmente a festa da anona para promoção deste fruto e seus derivados, como licores, pudins, gelados e batidos.

O Faial está associado a duas rebeliões populares. Em 1887, houve graves protestos contra a instalação da Junta de Paróquia, seguindo o exemplo de outras localidades da ilha. Em 1936, deu-se a revolta contra a Junta Nacional dos Laticínios da Madeira e a nova regulamentação da produção e comercialização do leite, a denominada «Revolta do Leite», que se iniciou no Faial. Foi preso o vigário desta freguesia, padre César Teixeira da Fonte (1902-1989), por ter apoiado os produtores de leite. No concelho de Santana, foram detidos cerca de setenta homens e quatro meninos, acusados de conspirarem contra a ordem pública, quando apenas manifestavam o seu descontentamento pelas novas diretrizes sobre laticínios.

José Agostinho Baptista, no poema ‘Faial’ (‘Canções da Terra Distante’, 1994, pp. 15-18), cravou visão nostálgica do lugar de fortes memórias: «Um homem voltou às escarpas. / Viu os casebres, as ruínas, e essas ruínas eram / as suas ruínas. / Pensou numa águia, numa casa, numa pedra. / Pensou no vento, nas crianças gritando no vento. / Uma criança percorria os labirintos com todo o / silêncio no envelhecido coração / e os seus cabelos eram brancos e a terra fria e / os frutos quase doces como as cinzas do verão. / Ele dizia adeus.» E sublinhou-a em ‘O adeus às ilhas’: «Chamavas-te Faial, e as ervas cresciam à volta de tudo e dos abismos. As portas e as janelas fechadas davam para o sul onde, em acentuado declive, se despenhavam os figos. Sinistros pareciam os caminhos à luz das fogueiras na estação dos grandes frios. Não havia regresso – uma Penha d’Águia contemplava a Igreja e os rostos anoitecidos.»

BRASÃO DA FREGUESIA DO FAIAL.

Nos ‘Censos de 2021’, a freguesia do Faial apresentava 1309 habitantes, o número mais baixo desde 1864, ano em que tinha 2135 residentes. O Recenseamento Eleitoral, de 31-12-2024, indica 1468 eleitores nacionais e 3 da União Europeia.
Heráldica da freguesia: Armas – Escudo de ouro, dois ramos de faia, passados em aspa, sobrepostos a uma ponte de três arcos de negro, lavrada de prata, firmada nos flancos e movente de um pé ondado de azul e prata de cinco tiras; em chefe, águia de negro coroada do mesmo, armada e sancada de vermelho. Coroa mural de prata de três torres. Listel branco com a legenda de negro, em maiúsculas: “FAIAL – SANTANA “. (Diário da República, n.º 202, 3.ª Série, Parte A, 30-08-1999).


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