Museu da Literatura da Irlanda e dois prémios Nobel que visitaram a Madeira

A tradição literária irlandesa é uma das mais ilustres do Mundo, famosa por quatro vencedores do Prémio Nobel e por muitos outros escritores de renome  internacional. A verde Eire gerou muitos escritores e poetas de grande qualidade.
George Bernard Shaw na Madeira
O Museu of Literature Ireland (MOLI) é o resultado de uma parceria entre a Biblioteca Nacional da Irlanda e o University College Dublin (UCD), situando-se na Newman House, um edifício anteriormente propriedade do UCD e localizado perto de St. Stephens Green, o grande parque no centro da cidade. 10 milhões de euros foram investidos neste museu que foi inaugurado a 20 de Setembro de 2019.
O MOLI ocupa três andares, cada um dedicado a diferentes temas, e inclui exposições imersivas, com recurso a multimédia, mas também apresenta muitos motivos concretos de interesse para além do virtual, como a cópia número 1 do famoso romance “Ulisses”, de James Joyce, dedicado a Harriet Weaver, uma mecenas, e pode apresentar múltiplas exposições que vão beber ao espólio da Biblioteca Nacional (National Library) e às colecções do UCD.
Além de Joyce, a colecção apresenta as vidas e obras de outras celebridades literárias irlandesas de grande relevo.
O que me levou visitar? A curiosidade de saber mais sobre dois escritores prémios Nobel que tinham estado na Madeira um ano antes de serem laureados pela Academia Real das Ciências da Suécia e Academia Sueca e pelo Comité Nobel Norueguês e o Instituto Karolinska.
Samuel Beckett nasceu em Dublin em 1906 e morreu em 1989 em Paris e foi influenciado por outro escritor irlandês, James Joyce, nascido em 1882 nos arredores de Dublin e que faleceu em 1941 em Zurique, Suíça.
Dois dos livros mais celebrados de Joyce intitulam -se “Ulisses” e “Gente de Dublin”.
Quanto a Samuel Beckett, escreveu a famosa obra para teatro “À espera de Godot”, ainda hoje representada e que acabou por significar, na cultura popular, a espera vã por algo que pode nunca acontecer, num símbolo do vazio da existência humana e a da espera por um sentido que nunca chega.
Samuel Beckett esteve na Madeira no Natal de 1968, tendo passado a festa na Ilha do Porto Santo e partindo em Janeiro do ano seguinte. Recebeu o Prémio Nobel da Literatura  em 1969. Tem a sua obra traduzida em mais de 30 línguas.
O espólio está patente numa sala que engloba múltiplos escritores e inclui uma foto, um busto, uma vitrina com o telefone que usava na sua casa de Paris e outros documentos.
No outro lado da sala encontramos George Bernard Shaw, que esteve na Madeira em 1924 e ficou hospedado no Reids Hotel, havendo uma famosa fotografia na Madeira que o mostra a dançar com uma senhora naquele hotel. Foi Nobel da Literatura em 1925.
Shaw recusou o valor monetário do prémio, pedindo que fosse usado para financiar a tradução de obras suecas para o inglês. Reagiu ao prémio de forma curiosa: inicialmente vacilou em aceitar, mas acabou por aceitar o reconhecimento, embora tenha recusado o valor financeiro.
George Bernard Shaw, além de escritor foi também jornalista ensaísta, romancista e dramaturgo, sendo que a sua peça teatral “Pigmalião” foi adaptada para filme em 1938, sendo premiada no ano seguinte pela Academia dos Estados Unidos da América com o Óscar de melhor argumento adaptado. Mas foi o filme de George Cukor “My Fair Lady”, de 1964, com Audrey Hepburn, que fez verdadeiro sucesso.
Voltando atrás, em 30 de Dezembro de 1924, Shaw esteve na Madeira, numa estadia noticiada  internacionalmente como “cura de sol”. Esta permanência foi produtiva, não só a nível literário, como também a nível pessoal, tendo Shaw supostamente aprendido a dançar tango com o professor de dança Michael Rinder.
Shaw retornou à Madeira  poucos anos mais tarde numa estadia mais curta entre 9 e 10 de Dezembro de 1932.
Acerca disto queremos aqui relembrar o que escrevemos a 3 de Setembro de 2015: alertávamos na altura ao então secretário regional de Economia Turismo e Cultura Eduardo Jesus, que era urgente esclarecer o destino a dar às placas assinalando  o nome de ilustres visitantes, que se encontravam à porta do edificio do Turismo na Avenida Arriaga. Recorde-se que as mesmas tinham sido retiradas a título provisório, aquando das obras de remodelação do prédio (no mandato de Conçeição Estudante) mas não voltaram a ver a luz do dia  mesmo após a conclusão dos trabalhos.
As referidas placas de bronze foram acondicionadas num armazém do Governo Regional, tipo a “Arca da Aliança” do Indiana Jones. “Não se estragam”, argumentou Eduardo Jesus, quando questionado pelo Funchal Noticias em 1999.
Nessa altura demos o benefício da duvida ao governante ,quando atestou pela sua integridade. As referências aos visitantes ilustres iriam, todavia ,passar para a Praça do Povo. O arquitecto Spranger de Carvalho, residente no continente, iria realizar o projecto da instalação das ditas placas, pelo valor de 45 mil euros. Falou-se mesmo então numa enorme pedra de basalto…
Recordamos que Eduardo Jesus deixou o Governo a meio do mandato e todo o projecto ficou na gaveta e as placas no armazém (isto se não foram parar à Fundoa, o que esperamos bem que não tenha acontecido) ficou pelo caminho. Em 2021 Eduardo Jesus regressou ao Turismo.
Mas o caso das placas da SRTC continua por concluir. E entre esses nomes dos viajantes ilustres, se já não os tem, deve acrescentar Samuel Beckett e George Bernard Shaw .Basta um pouco de vontade. Continuamos a esperar que neste caso não se faça “delete” na memória…

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