A Capela de Santo António, no Lombo do Salão, propriedade da Fábrica da Igreja da Calheta, encontra-se num estado de desleixo lamentável e serve de arrecadação de materiais de construção. É, contudo, um imóvel classificado do Património Cultural da Região Autónoma da Madeira.

Parece que ninguém quer saber da recuperação desta capela. Nem a Igreja, nem a Câmara Municipal, nem a Junta de Freguesia, nem o Governo Regional, nem a oposição, nem o povo da Calheta. O que ali se passa é o cúmulo do desrespeito pelo Património Cultural. É o desprezo máximo pela memória histórica.
Generalizou-se a ideia de que promover espectáculos musicais, com artistas de renome, ou festas com muita poncha, cerveja e fogo de artifício é o melhor investimento cultural de um município. Esquecendo-se, porém, de que tudo isso é efémero. Quanto se gasta anualmente nesses eventos por toda a Região? São avultadas verbas públicas, que a mim também dizem respeito como contribuinte e que poderiam ser aplicadas em projectos mais úteis. Para além do entretenimento, tantas vezes de duvidosa qualidade, há a necessidade primordial de aprofundamento da identidade, através da salvaguarda dos bens e raízes culturais e da educação patrimonial e ambiental.
Em 22 de Novembro de 2023, publiquei, neste jornal digital, um artigo sobre esta capela, sob o título «A Capela de Santo António: até à ruína total?» Ver link: https://funchalnoticias.net/2023/11/22/a-capela-de-santo-antonio-ate-a-ruina-total/
Como quase sempre, ninguém ligou ao que foi escrito nem às fotografias publicadas. Alguns fingiram que não leram. Outros assobiaram para o lado. Apenas o pároco da Calheta me deu conta do seu interesse em restaurar a capela, informando-me dos seus esforços para adquirir a propriedade e de que pretendia apoio governamental.
Por vezes, dizem-me que sou uma ‘voz que clama no deserto’. Não me sinto no papel de Isaías ou de João Baptista (2 Is 40,3; Mt 3,3). Todavia, procuro não me acomodar a situações, no meu entender, injustas, erróneas, mentirosas, falsas, desrespeitosas ou danosas, em especial para com a História e o Património Cultural.
Quase dois anos depois, voltei ao mesmo lugar para inteirar-me do estado deste imóvel classificado pelo Decreto 129/77, de 29 de Setembro. Continua a utilização indevida do alpendre da capela e da vereda pública. A degradação do edifício acentua-se. Sobressai o desprezo e a falta de civismo.
Tudo o que se recomenda para património classificado é negado a esta capela. Ninguém fiscaliza? O vigário ou o bispo não visitam as capelas da sua Igreja? Nenhum político quer tirar uma fotografia neste local para depois enviar para a imprensa?
Um idoso, que passava por ali enquanto eu fotografava, disse-me que lhe doía a alma de ver a Capela de Santo António naquele estado e, que para ele, era melhor «vir tudo ao chão», porque assim já não «estremecia com aquela desgraça».
Compreendo o seu protesto, mas não concordo. Por respeito, nada lhe disse. A vida já me ensinou que, longe das autoridades e na minha presença, muitos reclamam, mas permanecem fiéis eleitores. Limito-me, por conseguinte, a ouvir e, de vez em quando, a instruir quanto à História ou o valor patrimonial.
Manter um edifício classificado naquele estado de degradação e sujeira é o retrato sórdido de uma comunidade que despreza a sua História e menospreza os símbolos religiosos dos seus antepassados.
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