Lar da Santa Casa da Misericórdia de Machico celebra bodas de prata: uma história de milagres, de serviço e de Amor ao próximo

Uma instituição que se destaca também pela sua localização geográfica e amplitude de instalações.

O Lar Agostinho Cupertino da Câmara da Santa Casa da Misericórdia de Machico (SCMM) completa a 23 de setembro próximo 25 anos de existência. Nesta Instituição Particular de Solidariedade Social escreve-se todos os dias uma bela história de Amor aos últimos, aos homens e mulheres fragilizados pela heterogeneidade das suas histórias de fim de vida. Situada numa zona privilegiada, sobranceira à baía de Machico, na SCMM, uma vasta equipa de profissionais zela diariamente pelo bem-estar dos utentes, estimulando sorrisos e afetos e, com resiliência, superando dia após dia os obstáculos que silenciosamente se vão erguendo.

A Provedora, Nélia Martins, é o rosto da instituição, tem vencido inúmeras tempestades nesta missão desafiante e espinhosa ao outro, juntamente com uma equipa que, de forma invisível mas firme, dedicada e eficaz, põe o “barco” a navegar todos os dias, tendo por farol assegurar a dignidade humana de uma população fragilizada, dependente mas com direito a espraiar o olhar pelas montanhas, pelo casario e pelo famoso mar de Machico e respirar qualidade de vida. Aqui também se respira doação, o braço sempre estendido dos profissionais  (incansáveis formiguinhas a cuidar de tudo), para levantar o idoso, alimentá-lo, assegurar a higiene e cuidados médicos, fazê-lo caminhar e sorrir mesmo com cansaços, levando-o a sentir-se quase em casa. Não são perfeitos nem substituem a cem por cento a família, mas deixam-na descansada numa etapa de evidente dependência porque servem a Pessoa com abnegação e muita Misericórdia.

A Provedora, Nélia Martins, folheia os arquivos e recorda como foi a inauguração há 25 anos.

Desta vez, a festa vai mesmo acontecer. As bodas de prata de uma instituição de referência nos cuidados aos idosos e não só obrigam a marcar presença viva na comunidade. Do sonho do então provedor (Luís Delgado) e equipa, fundadores do edifício-sede, desbravaram-se os mares das tormentas e a obra nasceu há 25 anos. O caminho fez-se caminhando, com estrada aberta e encruzilhadas, com o contributo de cada profissional e membros da direção. Hoje a casa cresceu, porque a Misericórdia falou mais alto, uma vez que preza os valores do humanismo, do serviço, da solidariedade e a inserção na comunidade, oferecendo uma diversidade de valências: Lar Agostinho Cupertino da Câmara, Centro de Dia, Centro de Convívio, Serviço de apoio domiciliário, Centro Médico e de Reabilitação, Horta Social e Infantário e Creche.

Imagem do ato inaugural da SCMM, há 25 anos. O início de uma bela história de Amor que nasceu para durar, respondendo aos anseios da sociedade.

Em linha com o aniversário das bodas de prata, o FN solicitou à Provedora da SCMM, Nélia Martins, uma entrevista. De olhar vivo, sorriso fácil e palavra empática, a responsável da instituição carrega o peso das responsabilidades de gerir uma casa muito especial e necessária a uma população cada vez mais envelhecida, num serviço inestimável às famílias. Às questões do FN respondeu sempre com firmeza e determinação, sendo notória a admiração que tem pela obra que serve diariamente mas também o combate provado para que tudo possa funcionar em pleno.

A empatia e sorriso habituais da Provedora para com os idosos.

Funchal Notícias: 25 anos passaram sobre a inauguração do edifício sede da SCMM: qual o melhor momento da instituição e qual o mais desafiante?

Nélia Martins: A história da Santa Casa da Misericórdia de Machico é marcada por resiliência solidariedade e dedicação ao próximo, valores que permanecem vivos há mais de 494 anos. O sonho concretizado com a construção do Lar de Terceira Idade, inaugurado a 23/09/2020, e possibilidade de ter sede própria representou, nos tempos mais recentes, um dos momentos mais felizes e também um dos maiores desafios da instituição.

Contudo, ao longo da sua longa existência, muitos outros marcos merecem destaque: desde o funcionamento do Posto Clínico de Machico, conhecido como Dispensário Materno-Infantil, entre 1956 e 1976, passando pelo hospital da cólera nos tempos mais remotos, entre outros. A sua criação pela Carta de El-Rei D. Manuel I, em 1508, e a fundação em 1529 foram, sem dúvida, momentos de verdadeira fé e esperança, que continuam a inspirar todos quantos se revêm na missão da Misericórdia.

Assim, celebrar os 25 anos da inauguração do edifício-sede é também reconhecer uma história feita de milagres, de serviço e de amor ao próximo, que honra o passado e abre caminhos de confiança e esperança para o futuro.

Criam-se laços familiares profundos com os utentes, num acolhimento diário e progressivo.

FN: Qual o ponto da situação da SCMM: Lar: número de quartos, número de doentes, serviços prestados… Infantário? Número crianças e educadoras…?

Nélia Martins: Atualmente, a Santa Casa da Misericórdia de Machico dispõe de uma Estrutura Residencial para Idosos com capacidade para 77 utentes, oferecendo um acolhimento digno e serviços especializados de acompanhamento e cuidado. Para além desta valência, integra ainda o Centro de Dia, o Centro Médico e de Reabilitação, o Centro Comunitário da Bemposta e o Polo Sócio-Comunitário do Concelho de Machico, assegurando respostas diversificadas às necessidades da população.

No âmbito da educação, a instituição é também responsável, através de sociedade comercial unipessoal, pela exploração do Infantário Rainha Santa Isabel, que acolhe e acompanha crianças em creche e jardim de infância, garantindo o trabalho diário de educadoras e auxiliares empenhadas no desenvolvimento e bem-estar dos mais pequenos.

A Santa Casa da Misericórdia de Machico não se define apenas pela soma dos serviços que presta, mas sobretudo pela missão que a guia desde a sua fundação: servir a comunidade com espírito de solidariedade, proximidade e esperança, honrando os mais vulneráveis e contribuindo para o desenvolvimento social do concelho.

Um amplo quintal para os utentes com jogos para estimular a cognição e motricidade.

FN: Como Provedora ao longo de três mandatos, que balanço é que faz a esta missão?

Nélia Martins: Esta é, de facto, uma pergunta interessante, porque quem avalia nunca deve ser quem é avaliado. Ainda assim, olhando para trás, posso dizer que ser Provedora da Santa Casa da Misericórdia de Machico, ao longo de três mandatos, foi uma missão exigente e, por vezes, solitária, como tantas vezes refere o Senhor Presidente da União das Misericórdias, mas também uma missão de inevitável grandiosidade.

O caminho foi marcado por desafios constantes, que exigiram coragem, resiliência e capacidade de decisão, mas sobretudo foi marcado pelo privilégio de servir. Servir os mais frágeis, apoiar as famílias, criar respostas e dignificar a história de quase cinco séculos desta instituição é algo que não se mede em cargos, mas em gestos, em vidas tocadas e em esperança renovada.

O balanço, por isso, não é pessoal: é da própria Santa Casa da Misericórdia de Machico, que continua a crescer, a afirmar-se e a cumprir a sua missão. O maior reconhecimento é ver que, apesar das dificuldades, o espírito de solidariedade permanece vivo e inspirador para o futuro.

Os passeios semanais que tanto divertem os idosos.

FN: Quais são as principais dificuldades da instituição?

Nélia Martins: As dificuldades que hoje enfrentamos não são novas. Desde a sua origem, as Misericórdias debatem-se com problemas sociais que acompanham a própria evolução da sociedade, exigindo de nós respostas diferentes ao longo do tempo. Se numa leitura mais breve poderíamos apontar a falta de financiamento, de apoio ou até de reconhecimento, a verdade é que, ao longo da sua história, as Misericórdias portuguesas sempre viveram com um pouco de tudo isso e souberam ultrapassar cada obstáculo com resiliência e fé.

Por isso, creio que o maior desafio da nossa instituição é, afinal, o mesmo de todas as Misericórdias: lidar com as fragilidades humanas, tanto as daqueles que servem como as daqueles que são servidos. É neste encontro de vulnerabilidades que reside a nossa missão maior: transformar a fragilidade em esperança e fazer dela força para continuar.

Amplas e modernas instalações que garantem o acolhimento adequado.

FN: Que projetos ou que projeto crucial para a SCMM?

Nélia Martins: Considerando as problemáticas atuais, que refletem as necessidades mais prementes das famílias, é evidente a importância de criar condições para o aumento da capacidade da Estrutura Residencial para Idosos, de forma a responder à elevada procura e aos numerosos pedidos de internamento.

Contudo, a experiência tem demonstrado que um verdadeiro projeto para a Misericórdia deve ir além da resposta imediata. Mais do que apenas aumentar a capacidade de internamento, importa criar condições para promover um envelhecimento ativo, valorizando respostas que mantenham as pessoas integradas na comunidade, no seio familiar e no seu ambiente natural. O Centro de Dia, por exemplo, tem provado ser uma solução eficaz, retardando a necessidade de institucionalização e preservando a qualidade de vida.

Um projeto crucial tem, portanto, de ser capaz de reconhecer os problemas sociais nas suas múltiplas dimensões, propor respostas adequadas e sustentáveis e, sobretudo, não se limitar a ser um remendo de circunstâncias, mas antes uma verdadeira solução para os desafios do presente e do futuro. E tem de envolver toda a comunidade, esse é o verdadeiro desafio.

A ginástica semanal, sempre bem acolhida pelos utentes.

 

Centro de dia da instituição.

FN: Cada vez mais a procura do lar numa população envelhecida e doente é uma realidade. Acha que as famílias preparam esta etapa com a devida atenção e antecedência? O que pode o cidadão e a família melhorar nesta etapa?

Nélia Martins: A grande dificuldade está precisamente na elevada procura das Estruturas Residenciais para Idosos, numa sociedade cada vez mais envelhecida. É importante sublinhar que estas estruturas são altamente profissionais e asseguram cuidados de grande qualidade, mas muitas vezes o processo de internamento inicia-se demasiado tarde.

As famílias, compreensivelmente, procuram manter os seus familiares em casa o maior tempo possível, o que é um gesto digno e de amor. No entanto, ao só procurar uma resposta quando a situação já é urgente, deparam-se inevitavelmente com a falta de vagas, o que gera angústia para as famílias e também para as instituições, que desejariam dar resposta.

Por isso, seria desejável que este processo fosse preparado com maior antecedência. Promover o internamento quando o idoso ainda pode escolher, decidir por si e colaborar na sua própria adaptação é de enorme valor, pois facilita a integração e até pode contribuir para manter, ou mesmo recuperar, alguma autonomia.

Esta não é uma censura às famílias, mas antes uma reflexão em defesa da condição dos idosos. Sei bem que, se um dia me couber tomar essa decisão, talvez faça exatamente o mesmo que tantas famílias fazem: cuidar até ao nosso “limite”.

FN: Está previsto algum programa comemorativo das bodas de prata?

Nélia Martins: Sim. A Santa Casa da Misericórdia de Machico vai celebrar com alegria as suas bodas de prata, um marco de sonho concretizado e de serviço dedicado à comunidade. O programa, ainda provisório, inclui atuações musicais e momentos de convívio abertos a todos, porque esta festa é, acima de tudo, da comunidade. Paralelamente, serão recolhidos testemunhos sobre a história da instituição, num registo já iniciado em parceria com a Neblina – Associação de Cinema e Audiovisual.

Espaço para a Eucaristia semanal, celebrada pelo padre Paulo Sérgio. há 12 anos consecutivos.

FN: Como gostaria de ver a instituição dentro dos próximos 5 a 10 anos?

Nélia Martins: Gostaria de ver a Santa Casa da Misericórdia de Machico, nos próximos 5 a 10 anos, a manter-se fiel à sua missão, servindo sempre com qualidade, dignidade e profundo respeito pela vida humana. Que continue a ser uma referência no concelho e na Região, um verdadeiro porto seguro para quem mais precisa, capaz de dar respostas adequadas e inovadoras aos desafios de uma sociedade em constante mudança.

O maior desejo é que a instituição permaneça como sempre foi: a resposta certa, no momento certo, para os mais frágeis, mantendo viva a chama da solidariedade que a guia há quase cinco séculos.

Serviço de enfermagem durante 24 horas, incluindo também médico e serviço de reabilitação.

FN: Que conselho deixaria à população idosa e familiares?

Nélia Martins: O conselho que deixo é dirigido a toda a população: que cada um, no cumprimento dos seus deveres, possa contribuir para um envelhecimento mais ativo e saudável, não apenas para si próprio, mas também para os que o rodeiam.

O envelhecimento não deve ser visto como um problema. Pelo contrário, é um privilégio e uma conquista da nossa sociedade. O verdadeiro desafio está em criar as condições para que essa longevidade seja vivida com dignidade, saúde e qualidade de vida, transformando esta etapa numa oportunidade de realização e de partilha.

O Funchal Notícias reproduz ainda o poema emblemático desta instituição, da autoria da Provedora Nélia Martins, que resume a alma e dinâmica da SCMM.

 

Somos sim…

Somos misericórdia por caridade,
E, por felicidade.
Fazendo o bem,
Porque simplesmente é bem.

Somos misericórdia no alento
Da vida que corre no tempo.
Procurando sem fim
Um íntimo sim.

Somos misericórdia na vida
Sempre em dívida.
No consolo que se pede
E na alegria que se deve.

Somos misericórdia nas ações
E dentro dos nossos corações.
Na vida que se dá e que se recebe
Numa triste prece.

Somos misericórdia
Simplesmente misericórdia.
Porque fomos criados assim
Por misericórdia, sim…

A Provedora
Nélia Martins

 

 


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