Protegida pela Bruxa do Norte, Dorothy encaminha-se para a Cidade das Esmeraldas, governada pelo feiticeiro de Oz. Toda a estrada está coberta com ladrilhos amarelos. Assim, não havia o risco de se enganar. Quando chegasse junto de Oz, recomendou a Bruxa, não deveria ter medo dele. Precisava, antes, contar-lhe a sua história e pedir ajuda para regressar a casa, no Kansas.
Calçando os sapatos de prata, que tinham pertencido à Bruxa do Leste, e acompanhada de Toto, o seu cão, Dorothy iniciou a jornada. Pelo caminho, encontrou o Espantalho, o Lenhador de Lata e o Leão Cobarde. Cada um deles, com propósitos específicos e confiantes na ajuda do mágico de Oz: o Espantalho queria um cérebro, o Lenhador de Lata desejava um coração e o Leão pretendia coragem. Juntos, irão enfrentar desafios e obstáculos que requeriam valentia, inteligência e espírito de coesão.
Oz revelou-se um intrujão, ao dar ao Espantalho, ao Lenhador de Lata e ao Leão o que eles pretendiam. Quando o feiticeiro ficou sozinho, concluiu: «Que hei-de eu fazer, se todos me pedem coisas que ninguém pode realizar? Mesmo que não queira, tenho de ser charlatão…» Dorothy viu o seu desejo concretizado pela intervenção da bruxa bondosa. Glinda deu-lhe a conhecer o poder dos seus sapatos, que a podiam transportar para qualquer parte do mundo.

A Vicência do Lanço nunca tinha ouvido esta história. Mal sabia ler. Nascera no tempo da Segunda Guerra. Quando era criança, a escola ficava distante e os pais precisavam da sua ajuda nos poios do sustento da casa. Nem concluiu a terceira classe. A vida ensinara-lhe quase tudo. Esperta e decidida, era mulher conhecida no concelho.
Naquele dia, tinha vindo à vila para tratar de uns papéis no notário, muito importantes para registar uma terra que sempre fora sua, mas que agora tinha de provar de que assim era. Assunto tratado, dirigiu-se à beira-mar. Gostava de ver e ouvir o mar. De casa, não conseguia avistá-lo. Pela invernia, sentia-o ao longe.
Desta vez, o passeio reservara-lhe uma surpresa. Tinham pintado o chão da marginal com cor de laranja. Logo Vicência associou aquela longa mancha ao partido. Quantas vezes tinha ela corrido a freguesia com bandeiras daquela cor. Cinquenta anos laranja!
Conseguira reconstruir e ampliar a sua casa. Arranjara emprego para os filhos e filhas. O partido tinha-lhe dado tanto, julgava Vicência, que sempre rematava a conversa lembrando o voto certinho, o seu e de muitos seus conhecidos e vizinhos, a quem ela aconselhava na hora oportuna.
Sem ficha assinada, ela abria portas e juntava o povo sempre que lhe pediam. E tinham sido bastantes vezes.
Olhando agora aquele chão laranja, Vicência lamentava-se de não ser ouvida, quando, nos últimos tempos, pedia insistentemente emprego na Câmara ou no Governo para os netos, alguns até com cursos universitários. Sentia-se destratada. Não se lembravam do que fez pelo partido, queixava-se, sem compreender as mudanças.
Percorria aquela faixa laranja como se estivesse no balcão da comadre, a puxar da memória velhas mágoas. Tinha deixado de acreditar. Os de agora eram uns ingratos, ela não. E protestava contra os empreiteiros, cada vez mais ricos, que tinham tomado conta de tudo. «Ora gastar dinheiro com tinta para os carros e as motas passarem e sujarem!»
Sem se aperceber, Vicência ia falando alto sobre a estrada laranja, quando foi parada pelo Foguete, que estranhou o seu comportamento e interrogou-a sobre tão estranha conversa. Vicência conhecia-o bem. Era o leva-e-traz da freguesia. Acabou por lhe dizer que estava farta daquela cor, ao que Foguete prontamente respondeu que não se aborrecesse, porque com a chuva e a maresia a mancha laranja iria desaparecer. Que ela reparasse bem, até já começava a desbotar.
Vicência meneou a cabeça para despachá-lo e prosseguiu até à ponte. Sentou-se defronte da Capelinha, encheu os pulmões com ar fresco e, resoluta, disse: «Desta vez, vai ser diferente. Ainda vou para casa pelos meus pés.»
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